Não sei o que faço de mim quando me coloco a escrever.
Não sou eu, ou melhor,
não sou exatamente eu, pois nada permanece exato.
Torno-me um visitante de mim mesmo e me exploro vagarosamente.
Nem imagino como eu fico ao escrever,
acho que fico invisível, inodoro e insípido.

Algumas vezes eu viro uma espada cortante,
outras viro uma leve pena.
Já fui até brisa, gelo seco, sexo e mago necromante,
já me vi sapo e garça, constantemente me vejo Urso.
Um dia me peguei como gênio, se ruim ou bom não lembro.
Algo certo é que me torno a poesia.
Um zunido forte pinica os ouvidos e depois vira sussurro.

Uma desconexão progressiva e possessiva
toma conta toda vez que tento escrever. A sensação é boa! Ótima!
Sinto que o silêncio do espaço me derrete lentamente em seu todo.
Não seio o que há, sei que espero um minuto ou dois,
é preciso, sempre, ouvir a voz que sussurra ao ouvido
e sair escrevendo sem parar.

Depois de parido o poema,
uma sensação de afogamento,
como se eu é que estivesse nascendo,
e tudo volta a chata mentira da realidade
mediocremente normal em seu tédio absoluto.

 


 
       
       
     
   

 


Sorriu,
a moça que dançava.

Feito flor,
que abre em suas pétalas
os olhos dos homens para a beleza do mundo.

Sorriu,
a moça que dançava.

Feito o sol,
que acorda o dia
para uma nova vida.

Simples assim.
Sorriu.
Feito lua minguante calada no céu.

Sorriu,
a moça que dançava.
Caiu,
o guerreiro que lutava.

Como a cachoeira que desmorona rumo ao mar.
Como o homem que nasce para a eternidade.
Como o pedregulho jogado contra a muralha.

O que pode um homem
diante de um sorriso?

 


 
       
       
     
   

 


“There is no spoon”
(Matrix)



Olhe pra frente,
olhe pro chão,
olhe pra tudo o que você tem.
Me diga o que você vê.

Dinheiro, carro e mulheres?
Trabalho, céu e inferno?
Uma bela casa e uma placa de cão feroz?
É isso o que você vê?
É isso tudo o que você tem?

Nada disso há de verdade.
Qual o problema com a loucura?
Quem é o louco nessa história?
O que há de errado em rasgar dinheiro?
Ele só compra ilusão se você não souber Ver.

Decepção?
É o que você sente?
É o que você construiu.
Tijolos empilhados
representam menos do que se pode pensar.
Tanto quanto uma mente vazia.

Aprenda a respirar o ar,
esqueça a fumaça.
Não fume a sua liberdade
na ironia dos maços de Free.
O segredo é sempre sorrir.
Não vista a sua integridade
na hipocrisia de um terno.
Não viva nesse inferno.

Goste ou não goste,
não há nada ali.
Te deram asas e uma gaiola.
Te deram nariz, o queijo e a ratoeira.
Te deram pernas e um buraco.

Nada há de ser feliz sem voar,
sem cheiros pra andar
e nem buracos pra cheirar.
Loucura?
O que há de errado com ela?

Porque dizem que Deus e o Diabo são inimigos?
Alguém te falou isso e você acreditou, coitado.
Eles até jogam sinuca com a gente.
E você prefere aprender a jogar
ou esperar pra ver em que caçapa vão te empurrar?

E se um dia a colher que você gosta derreter?
Bem na sua boca!
Que você vai achar?
Que está ficando louco?
Digo que não...
Digo que está achando a cura.

O Windows detectou um vírus no sistema operacional,
deseja excluir o arquivo infectado?


A escolha é sua!

 


 
       
       
     
   

 


Quem é esta dama?
Quem é esta chama?
Aonde é sua cama?

Porque?
Porque ela me faz tantas perguntas?
Poderíamos fazer coisas melhores, ela sabe.
Brinca comigo.... me chama e depois
meu fogo abana.

Amo burra, burramente.... machadianamente
O menina enfezada!
Me sorri com gosto, sem um beijo.
Beija outro, de cara amarrada e sem gosto.
Porque ela gosta de sofrer? Eu não gosto,
mas sofro mesmo sem querer.
Há gosto para tudo,
tanto que há
que tanto há tanto que há sem se querer.


Nada posso fazer,
se não esquecer.
Era só uma questão de tempo.

Eis aí:
Avidez,
Solidão,
Insensatez, outra vez, outra vez.
Adeus, acabou a paixão.

 


 
       

 

     


 

 

Leonardo Camacho
Nasci em São Paulo, fui criado em São José do Rio Preto e atualmente moro em Montes Claros, Minas Gerais. Tenho um livro de poesias pronto, mas não publicado, chamado Metaformose. Além de músico, "soprista" da banda Consciência Anônima, e estudante de Jornalismo, sou aprendiz de mago e de poeta. Considero que viver é fazer mágica, compactuando com Guimarães Rosa. Temos que levantar da cama cedinho, quando se está com muito sono, ou que fazer muitas coisas que não gostamos e precisamos ser felizes todos os dias. Isso pra mim é fazer mágica, e nessa arte eu estou apenas iniciando e descobrindo que é mais fácil do que parece. Estou sempre tentando ser melhor nas coisas que faço. Não melhor do que outros, mas melhor do que eu mesmo. É fazendo as coisas com muito amor e buscando sempre a felicidade pura, livre que qualquer prisão, que eu vou construindo e vivendo a vida. Me dedico a poesia integralmente. Em meio a correria do dia-a-dia, aos gritos, broncas, saindo de casa antes do sol nascer e só voltando na madrugada, por dentro há uma tranqüilidade que só eu conheço bem, e aqueles que não perdem tempo olhando para aparências acabam vendo essa calma também. Costumo dizer que sou bem parecido com um furacão furtivo. Isso não é uma metáfora, mas entenda como quiser.
Editor de www.poeticainversa.blogger.com.br