Sons, falas, gritos, trombetear.
Na tristeza sou trovoada;
No teu ombro, canto de ninar.
Luzes, olhos, formas, cores.
Na solidão sou trevas;
Nos teus seios, flores.
Clima, temperatura, frio, calor.
Na despedida sou ira vulcânica;
Nos teus braços, amor.
Ar, sopro, brisa, ventania.
Na distancia sou tempestade;
No teu colo, calmaria.
Massa, terra, denso, concretar.
No deserto sou mão que ceifa;
No teu ventre, semente a germinar.

 


 
       
     
   
   

 


Quem impera nas têmperas das encruzadas
Não necessita dos meus insulsos carinhos
Não se apetece por uma paixão desatinada
Não almeja das minhas rosas colher espinhos.
Uma a uma as pétalas vão caindo
Uma a uma se desiludindo
Me dou por vencido
Mas o coração teima em resistir.
Na barra da saia de sete rubros lenços
A felicidade deixa de ser uma ilusão
A alegria floresce uma rosa dos ventos
Só para mim, tudo permanece solidão.

 


 
       
     
   
   

 


SEXO?
Talvez um dia faça
Com todas as letras e com todo despudor.
Hoje estou farto
Só quero saber de amor.

 


 
       
     
   
   

 


A dança louca da tua língua
desafivela no corpo agonia
e adoça o fel da eterna solidão.
A lâmina do duro cinzel do espírito
fere de morte a serpente Kundeline
sagrando luz na boca da escuridão.
O gozo é volúpia marinha
torpes espumas nas pedras do cais.
semeaduras de orvalho nas fibras do coração.

 


 
       
     
   
   

 


Que tesão!
O gosto de hortelã na tua língua
O sol dourando o sedoso encarnado da pele fina
O vento brincando na penugem da ninfa
Teu corpo flutuando nas areias de Amaralina;
E eu dentro dele.
Que emoção!
Despir tuas curvas do lençol da cama
Viver contigo uma fantasia louca
Teu hálito me revelar que me amas
Beijar o sussurrar francês da tua boca;
E ouvir meu nome dentro dela..

 


 
       
     
   
   

 


Ainda corro contra o tempo...
Ele me é implacável.
Ainda navego sentimentos...
Ele me é indomável.
Ainda choro enquanto você sorri.
Ontem me fiz pranto...
Acordou-se em mim uma dor antiga.
Hoje me pego cantando...
Escondendo tristezas da vida.
Ainda me confortam pedaços de nostalgia.

Na parede um retrato adolescente envelhece
No cabideiro as traças devoram a casimira
No espelho entrevejo um rosto pálido
No travesseiro sinto o hálito da bebida.
Ainda descaminho no meu caminho.

 


 
       
     
   
   

 


No meu olho as crianças correm,
brincam no parque da vida;
pedaços de alegrias póstumas
habitam minhas lembranças esmaecidas.
Na selva de pedra,
cultivar das viçosas sementes germinecidas;
o projetil ceguêta inertece a gangorra, o balanço
e a bola que jaz esquecida.

 


 
       
     
   
   

 


Minha terra tem paisagens
Que em outro lugar não há;
As aves que aqui trinam
Não trinam como os de lá.

Minha terra faz fronteira
Com a seca e o mar,
São tão imensuráveis suas riquezas
Que outra mais abençoada não há.

Minha terra tem fulgores
Que tais, não encontro eu cá,
E meditar, assim, sozinho
Sei que é melhor voltar.

Minha terra tem mais vida
Afago que não tenho cá;
Minha terra tem folguedos
Xaxado, baião, frevo, boi-bumbá;

Não permita Deus que eu morra
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute dos amores
Que não encontrei por cá;
Sem matar a sede no “Velho Chico”
E lavar a dor deste meu pená;
Sem adormecer no colo da morena
Sem o “Padin Cicero” me abençoá.

* * * * *

Canto de regresso à pátria

Oswald de Andrade

Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os pássaros daqui
Não cantam como os de lá.

Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra
Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá.

Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo.

* * * * *

Canção do exílio

Gonçalves Dias

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu cá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar - sozinho, à noite, -
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá..

 


 
       

 

     


 

 

Antônio Virgílio de Andrade
Poeta e escritor, nasceu em dezembro de 1955, em Sertânia, PE; residiu no Rio de Janeiro, São Paulo, e hoje vive em Brasília. Com o advento da internet, sua obra passou a ser divulgada em diversos sítios literários, onde publica contos, crônicas, poesias e ensaios. Foi selecionado pelo Painel Brasileiro de Novos Talentos para figurar no Catálogo brasileiro de poesia contemporânea; recebeu menção honrosa do Centro Cultural de Aricanduva, São Paulo; premiado no VII Concurso Internacional Literário de Outono, vencedor do XI Concurso de Contos, promovido pela Revista Ponto de Vista. Em 2000, sua primeira coletânea poética (Rastilho de prosas) é lançada na 16ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, na 19ª Feira do Livro de Brasília, e em outros eventos nacionais. A partir de então, sua obra literária passou a ser editada e divulgada pela Virtualbooks Editora e republicada por outras editoras virtuais.
Bibliografia: Coletâneas poéticas: Rastilho de prosas; Adolescer dos girassóis; Fractals. Contos: “Caçada ao Pirá-Brasília”; “Água Rasa no Riacho Fundo”; “O Príncipe que caiu do Céu”. Romance: Oinotna, o último ermitão. Antologia de crônicas: Crônicas do cotidiano e do absurdo.
http://members.americas.tripod.com/antoniovirgilio/
http://geocities.yahoo.com.br/virgiliodeandrade/index.html.