Fiquei feliz quando fiz quinze anos
Parecia que meu mundo iria desabar
Ganhei um barbeador elétrico
Loção e creme de barbear.
Com o passar dos dias
Descobri que essa idade é coisa difícil de se tolerar
Estou sozinho, minhas noites são tão frias
E nada de um novo janeiro chegar.
Todos me dizem que na vida é a melhor idade
A fase mais bonita e fecunda para se amar
Quando se colhe os melhores momentos a se recordar.
É uma angústia, uma eternidade, um sofrimento
Mas que um dia
Passará.

 


 
       
     
   
   

 


Em dias incertos
Descortino tua felicidade nos lábios da janela
Sorrindo com nuvens desenhando figuras no céu.
E mal pode imaginar que são obras do meu pensamento
Que na aquarela do arco-íris
Tingiu um buquê de esperanças atirado ao léu.

 


 
       
     
   
   

 


Kracoré é menino
Kracoré menino índio
Kracoré vive na cidade
E o sistema sua história vai consumindo.

Kracoré chora por sua gente
Que foi expulsa para longe da floresta
Kracoré quer voltar
Tocar atabaque e fazer festa.
Kracoré é inteligente
Sabe contar dinheiro e miçangas vender
Mas Kracoré é triste: Kracoré não sabe lê.
Kracoré é fura tráfego e vive não contra-mão
Mas se kracoré fosse a escola
Sua vida tomava outro rumo e direção.

 


 
       
     
   
   

 


Se tivesse o dom da vida
Juro que te daria a eternidade para você me esperar.
Mas esse mundo gira, gira tão depressa
As estrelas mudam tanto de lugar;
Que vou me contentando
Só em ti olhar.

 


 
       
     
   
   

 

Claudinha foi morar à beira-mar.
Me deixou,
Como também me deixou Joana, Patrícia, Rosinha, Florinda e Alencar.
Alencar era um caro chato.
Chato, mas amigo.
Não sei o que essa trupe foi fazer no Ceará.
Por Claudinha quase perdi minha alegria.
Daqueles bons tempos, só restou nostalgia.
Seus olhos me olhando de soslaio,
fazia meu corpo vibrar e pernas tremer.
Quando me olhava, olhava com desejo.
Com o desejo de quem quer fruta com casca comer.
Ontem,Claudinha me ligou.
Ligou não, mandou um e-mail.
Poetisa de mão cheia,
Sempre gostou de me provocar com o lirismo de sua veia.
Às vezes penso que Claudinha deveria ser atriz.
Se assim fosse, pelo cristal da telinha, poderia desnudar sua fogosa e generosa formosura.
Mas Claudinha nunca quis. Diz que ser poetisa é o que a faz tesuda.
Tesuda, para quem tem um coração tão grande como Claudinha, devo dizer que é pouco
Ela é um poço de alegria e candura.
Quem saiu perdendo fui eu
Perdi a inspiração e a musa.

 


 
       
     
   
   

 


Trajando intrigas do diário da notícia
descortino o semblante angelical
besuntado de máscara facial e pepino ocular.
Ela é orgasmo nacional
Boca, seios, pernas e sexo globalizado,
Alucinógeno de felicidade na sarjeta do cotidiano.

 


 
       
     
   
   

 


A luz matutina vasa a cortina
Da janela
Do quarto.
Revelando um envelhecido rosto
No cristalino
Do espelho.
Minha alma vive a me assombrar com fotografias
A se consumir
Em febre terçã.
Sob o manto do alcatrão a pele exala
Odor
Cinzeiro.
Na mesa posta já não encontro aroma
Café da manhã
Teu cheiro.

 


 
       
     
   
   

 


Sorria,
O dia acordou querendo te dar um abraço apertado
A casa chamada paraíso não tem trinco nem tramela
A felicidade descobriu que você mora ao lado
A lua despiu uma ilusão na sacada da janela.
Sorria,
O ficar é melhor que a partida
A alegria não escolhe hora ou lugar
Há muito que aprender nessa vida
A tristeza ficou para quem não sabe amar.
E se fazer amor é tão bom
Se faz bem ao coração
Se para chegar ao beijo
É preciso começar por um aperto de mão,
Sinta a pele vibrar nessa melodia
A boca gritar o mesmo refrão
E se isso for a melhor coisa que lhe aconteceu na vida
Peça bis. Bise essa emoção.
A mãe-do-corpo habita um oásis de canal estreito
Uma via de mão dupla sem contra-mão
Aos poucos você vai pegando o jeito
E mesmo apressado o corpo ganha ritmo e encontra a direção.
Sorria.

 


 
       
     
   
   

 


É primavera nos Bálcãs
A dor da infelicidade floriu na gente
É tempo de curar o coração cravejado
E regar a terra com lágrimas e sangue.
É primavera nos Bálcãs
A cova rasa acolhe embrutecidas ou tenras sementes
O jardim das almas exala aroma árido e pútrido
Lápides em flor tingem as colinas com pálidas pétalas cruciformes.
É primavera nos Bálcãs
O ódio do ódio favorece uma nova semeadura.
Crianças correm, brincam de ser feliz.
Um sorriso de esperança é ungüento para as chagas da
atrocidade.

 


 
       
     
   
   

 


OLHOS TEUS
Flerte alquímico da luxúria
Vítreo mar de tormentas e candura
Etéreo espelho da alma.

 


 
       


 

 


 

     


 

 

Antônio Virgílio de Andrade
Poeta e escritor, nasceu em dezembro de 1955, em Sertânia, PE; residiu no Rio de Janeiro, São Paulo, e hoje vive em Brasília. Com o advento da internet, sua obra passou a ser divulgada em diversos sítios literários, onde publica contos, crônicas, poesias e ensaios. Foi selecionado pelo Painel Brasileiro de Novos Talentos para figurar no Catálogo brasileiro de poesia contemporânea; recebeu menção honrosa do Centro Cultural de Aricanduva, São Paulo; premiado no VII Concurso Internacional Literário de Outono, vencedor do XI Concurso de Contos, promovido pela Revista Ponto de Vista. Em 2000, sua primeira coletânea poética (Rastilho de prosas) é lançada na 16ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, na 19ª Feira do Livro de Brasília, e em outros eventos nacionais. A partir de então, sua obra literária passou a ser editada e divulgada pela Virtualbooks Editora e republicada por outras editoras virtuais.
Bibliografia: Coletâneas poéticas: Rastilho de prosas; Adolescer dos girassóis; Fractals. Contos: “Caçada ao Pirá-Brasília”; “Água Rasa no Riacho Fundo”; “O Príncipe que caiu do Céu”. Romance: Oinotna, o último ermitão. Antologia de crônicas: Crônicas do cotidiano e do absurdo.
http://members.americas.tripod.com/antoniovirgilio/
http://geocities.yahoo.com.br/virgiliodeandrade/index.html.