– Mas, menina, me conte tudo com detalhes, como isso aconteceu?

– Nem te conto, Gê. Lembra que minha mãe ficou adoentada no Rio, né?

– Lembro, sim, Teca. Você ficou uns bons meses por lá.

– Tenho saudades de quando morei em Copacabana. Nasci lá, cresci lá, mas agora vim embora pra cá. Até que gosto de Londrina, mas o Rio.... ah, o Rio.

– Já sei disso, boba, me conta, vai, me conta logo.

– Tava assim meio cansada de ficar só cuidando da mamãe, né. Aí, uma amiga de lá me passou um endereço de uma sala de bate-papo na Internet. Entrei um dia, outro e outro, já tava desistindo porque tava achando uma porcaria, até que surgiu esse cara, o Galeão. Teclamos um tempão.

– De webcam?

– Não, na casa de mamãe não tem. Quando pensei que a coisa fosse esquentar porque ele propôs um pingue-pongue, nem acredita...

– Caiu a energia?

– Não, amiga. Comecei o pingue-pongue. Cor? A dele, rubro-negra. Depois disse a minha, rosa. Acho que ficamos quase uma hora nisto. Música, filme, perfume, livro, cantor e mais um monte de outras coisas. Ele respondia primeiro e eu depois, então comecei a preparar minha armadilha. A armadilha da aranha virtual.

As duas mulheres aguardavam a tintura do cabelo produzir o efeito visual. Gesticulavam as mãos quando falavam. Riam a quase todo instante. O Lincoln, cabeleireiro, podava meus cabelos. Eu falseava na leitura de uma revista, com atenção na conversa.

– Perguntei comida? E aí, amiga, foi a primeira vez que me devolveu com outra pergunta. Trivial ou exótica? Gelei. Pensei esse cara deve ser muiiiiiito bom mesmo. Exótica, claro. Fiquei toda arrepiada.

– E aí, Teca?

– Aí, amiga... o Galeão começou a despejar uma tal receita de moqueca de siri....que minha armadilha foi pro beleléu.
Uma senhora, certamente além dos 60 anos, com aspecto de vó cozinheira, ao meu lado também lia falsamente uma revista, já que ao ouvir moqueca de siri levantou a cabeça, se virou e perguntou:

– Me desculpe, mas eu ouvi alguém dizer siri? Por acaso foram vocês, o moço aqui do lado está calado ou será que estou ficando velha demais?

– Eu disse, senhora, muitas coisas.

– Mas eu só ouvi siri.

– Sim, e o que é que tem? É moqueca de siri.

– Ah, minha filha, estou louca atrás de uma receita dessas. A-do-ro siri e só sei fazer macarrão, bolinho e salada, com siri. Você poderia passar essa receita, poderia?

– Ah, Teca, atende a senhora, vai, bem, vou sair mesmo. Ô Cláudiaaaa, meu cabelo já secou. Vou sair primeiro que você, Teca, te ligo à noite, antes de ir ao baile e lá você continua. Ti-xau, bem. Beijoca.

– Você me paga, Gê.

E foi assim, meus caros leitores, que eu também acabei aprendendo a fazer a tal moqueca de siri. A receita que a Teca disse no salão de cabeleireiro do Lincoln é muito boa. Sensacional. Faz sucesso.

– Primeiro, minha senhora,...

– Teca, minha filha, pode me chamar de Benta, ou de Dona Benta se preferir. Mas Benta fica íntimo. Continue, querida.

 

Moqueca de siri

O preparo da moqueca deve ter início com os tomates. Eles são o macete para que o resultado final fique frugal. Use tomates rasteiros, bem vermelhos, cerca de 6. Depois de lavados, coloque-os em uma panela separada com água fervente até que as peles comecem a rachar. Use apenas a polpa. Pique-a de modo grosseiro, mas em pedaços pequenos. Reserve.

Tombe ½ xícara de azeite (nada de óleo) na panela de barro. De preferência daquelas do Espírito Santo, panelas de barro preto. Aquece-se bem o azeite e sobre ele debruce 1 cebola picada, 2 dentes de alho, umas 2 ou 3 folhas de louro. Frite.
Quando a fritura estiver dourada entre com os tomates reservados. Mexa e espere até estarem bem derretidos.

Agregue, a seguir, 3 fatias de pão de fôrma, cortadas em cubinhos, sempre mexendo com uma colher de pau. A função do pão é enxugar o azeite.

Quando tudo estiver bem amalgamado, entre com a carne de siri, para esta porção use 500 g. Misture.

Incorpore as ervas: salsinha e coentro, picadas. Misture tudo. Prove o sal. Incorpore pimenta vermelha, a gosto. Prove. Azeite-de-dendê, a gosto. Prove. 200 ml de leite de coco. Misture tudo novamente. E pare de provar senão a receita não chega no final. Deixe no fogo mais uns 3 minutos. Desligue o fogo.

Polvilhe farinha de rosca e queijo parmesão sobre a moqueca e depois coloque a panela de barro no forno pré-aquecido em temperatura média. Gratina-se por cerca de uns 20 minutos.

Sirva na própria panela. Ela tem um suporte de ferro para isso. Acompanha: arroz branco, salada verde, pimenta vermelha, cerveja gelada e suco de groselha pra garotada.

 

Dona Benta agradeceu. A Gê saiu antes da amiga. A Teca não esperou o cabelo secar e foi embora. Meus cabelos ficaram bem aparados. Na próxima vez conto como aprendi a receita de barreado, o exótico sabor paranaense.

 
       

 

 
Carlos Alberto Francovig Filho
Vencido pelo destino, invisível estrada, sucumbi aos encantos da literatura. Doce ócio. De libra, nasci aos 21 de outubro de 1960. Agora me lanço e lanço livre minha literatura.