texto de Antonio L. C. Geremias

cortesia da Belini-Pães & Gastronomia

 
           
       

Gilberto Freyre, autor de Casa Grande e Senzala, o livro que narra a construção da nacionalidade brasileira, insiste na importância da alimentação na formação de um povo. Embora não se revelem em descrições e receitas, pulsões sexuais e estomacais, digamos assim, povoam suas páginas. E, aqui e acolá, emerge um ensinamentozinho, como a invenção da pokeka, a nossa moqueca, feita com filhotes de peixes, embrulhados em folhas de bananeira, e cozidos em seu caldo, com temperos nativos, perfeitamente passível de ser refeita. E, claro, o humor. Nada melhor que ler bons livros, comer boas comidas e dar boas gargalhadas.

O Livro de Cozinha do Dr. Freud foi escrito por James Hillman, um psicanalista junguiano norte-americano muito conhecido. O livro é hilário, seja pela perfeição das notas de rodapé e citações, seja pelos comentários atribuídos a Freud.

O espaço é pequeno para as centenas de citações e referências possíveis – e não vamos roubá-lo ao que realmente importa, as receitas destes livros deliciosos.

Ah, e não nos esqueçamos de que estas receitas foram escritas por pessoas que gostam de cozinhar, que não se fiam em quantidades como meia colher de sopa de sal, ou dois dentes de alho médio (o que é um dente de alho médio?). Valem perspicácia e experiência.
A elas, pois!
 

 
           
       
   

Sopa de Queijo


Rale uma boa quantidade de queijo parmesão, junte leite e bata bem, homogeneizando a mistura. Depois, derrame, com cuidado (pois ela tende a coagular) em uma vasilha onde ferve um caldo de carne. Retire do fogo e misture uma gema de ovo, para dar liga.


(Nem Só de Caviar Vive o Homem – J. M. Simmel)

 
   

 
         
    Civet de coelho


Tome um coelho novo, de bom tamanho, e pique em pedaços médios. Numa panela de amplo diâmetro e bordas altas, junte 150 g de toucinho magro em cubinhos, os pedaços de carne e o fígado do coelho. Doure. Acrescente cebolinha picada, cebolas cortadas em rodelas fininhas, um dente de alho esmagado. Quando a carne pegar cor, coloque um pouco de farinha de trigo e meio litro de água – ou caldo de carne, a gosto – fervendo. Misture. Tempere com sal, pimenta-do-reino, especiarias, bagas de zimbro, raspa da casca de um limão e ¼ de uma garrafa de vinho branco seco. Deixe cozinhar bem em fogo brando, junte
¼ de garrafa de vinho tinto e cozinhe mais um pouco. Sirva com macarrão talharini, passado na manteiga.

 

Pessotti mais descreve as refeições, ou detalha um certo tempero, que propriamente dá receitas. Mas esta aqui, apenas descrita e obviamente ao alcance de qualquer cozinheiro bissexto, nos parece um bom exemplo dessa culinária mediterrânea/camponesa.

 

Espaguete do Restaurante 17

 

Deve-se usar espaguete fininho, quase o cabelo-de-anjo. Atenção para o ponto de cozimento. À parte, prepare uma mistura de creme de leite, presunto cortado em minúsculos cubinhos, azeite extravirgem, pimenta vermelha fresca picada miudinho e um pouco de páprica. Não use de parcimônia ao misturar o molho e o espaguete. Nada de uma maçaroca de massa com duas colheres de molho por cima e uma folhinha verde de enfeite.

 

(Aqueles Cães Malditos de Arquelau – Isaías Pessotti)

   
   

   
         
     

Mamovo


Misture uma boa xícara de farinha com um punhado de flocos de aveia. Adicione uma colher de chá de sal, uma xícara de leite e uma gema de ovo. Misture. Bata muito bem uma clara de ovo, acrescente e misture. Coloque em uma travessa untada, leve ao forno a 220oC, por meia hora, "ou até que a superfície se enrijeça como o caráter de mamãe", que os fazia tão bem...

 

Mariscos freudianos

 

Lave, escove e drene mancheias de mariscos. Despeje-os em uma ampla frigideira, junto com um tablete de manteiga. Na medida em que as conchas vão se abrindo, retire os mariscos delas e tempere à maneira vienense, com páprica e salsinha picada. "Os analistas americanos têm o direito de adicionar uma cautelosa colherinha de Stanley Hall's Worcester Sauce".

 

(O Livro de Cozinha do Dr. Freud – James Hilmann)