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Logo, sondando o diuturno de minha vida, a rotina de minha mãe entre o tanque, a maternidade e o fogão, concluí, imberbe – inocente, puro e besta como cantou Raul Seixas – que EXISTIR era Comer! Explico: levantávamos, comida farta. Polenta de milho branco, pão feito em casa, farofa de ovo ou couve-manteiga. Café, leite e bules de chás de ervas caseiras. Isso tudo no mal alvar das manhãs de Itararé. Mal e mal, lá pelas nove em que o galo auroral já ia ciscar noutra freguesia, quintais e terreiros, e lá estava eu beliscando um naco de cana-de-açúcar, um abacate manteiga, uma goiaba madura entre mandorovás-guardiões, ou mesmo comendo leite com farinha quando não comprava fiado do rueiro vendedor, um popular pirulito premiado. Às onze, claro, sentia-se nas redondezas por atacado, o tempero do arroz-quirera, o ovo frito, quando o meu nariz captava a hora pelos temperos, frituras, em seguida as mães dos piás rebentos a gritarem, cobrando: -Vem comer, Dito!. Tá na hora do almoço, Nelson. Jeronçaaaaaaa, venha se limpar pra bóia, piá!!!! Isto posto, almoço lauto, família toda em volta da mesa redonda, de sobremesa uma rapadura, um doce de leite, um doce caseiro feito com arrozina, e, claro, limonada com bicarbonato, quando não uma adorável tubaína de abacaxi ou mesmo tutti-fruti. Eu era feliz e sabia que era. Bagunça na rua, peladas, bola de meia, catar coquinhos, brincar de carrinhos de rolemãs ou mesmo ler velhos gibis, e lá era hora do rancho da tarde. Quase três da tardinha. Bolo de fubá, um cuque de coco, quando não bolinho de chuva ou mesmo paçoca de amendoim. Eu era um comilão que só vendo. Mal a tarde pendurava suas gralhas azuis no delongo do rio da prata, corguinho rente a minha casa de tabuinha, entre cigarras, grilos e pererecas, meu pai abria o portão de nossa casa, punha o acordeão vermelho e, sentado numa cadeira de palha, solava mantras, blues, banzos e outras tristices. Era o aperitivo pra janta reforçada. Sopa de fubá com couve rasgada. Ou um arroz com feijão mais picadinho. Batatas com carne moída, ou, boi ralado, como brincávamos de dizer. Meu pai tomava chimarrão. No meu porongo ele punha um pedaço de rapadura de laranja. Delicia.
Íamos pra igreja, ou, o melhor do ágape, ouvir
rádio – Rádio Mairink Veiga do Rio de Janeiro (à bença, Dona Saudade!) –
ou mesmo brincar nas quebradas, entre um céu estrelado, uma lua caipira (a
lua vem de Itararé), mais os pios noturnos na descalça e cor-de-rosa rua
24 de Outubro, Vila São Vicente, de uma Itararé dos tempos da onça, em que
e amarravam cachorros com lingüiça. Mal e mal na casa dos sete pra oito anos, o Grupo Escolar Tomé Teixeira. Foi lá que começou tudo. Ali, confesso, mesmo gostando de estudar e já ler um pouco (em meses depois escrevia minhas primeiras trovas pueris); mesmo meu pai passando a cinta se não déssemos no couro nas primeiras letras da escola de gabarito (e boas notas, claro), ficar sentado quatro horas era muito incômodo e chato. E toma cópia, soma, ditado, leitura. Estudar era maçante, confesso. O que compensava era a peculiar ternura da professora Dona Jocelina (eu sempre fui muito manteiga derretida), depois Dona Nancy, pelas quais eu era mesmo tremendamente apaixonado. E elas eram caprichosas. E me descobriram nos primeiros chuleios de versos e sensoriedades precoces. Com faniquitos. Aí caprichei de aprontar novos pensares. Pois mudei o favo do enfoque: Então viver era estudar? Aí, entrando, claro, no verbo, ler, escrever, pensar e sentir a escada pro alto que é a escola. Pois fui na vazão. Estudar era o sentido da vida. Até hoje, confesso, matutando sobre o destino de todos nós, de onde viemos, para onde vamos, quem somos, configuro como esteio dessas minhas conjecturas, que Existir é mesmo um laboratório de vivências. Viver é aprender. A grande viagem da lição de existir, é evoluir aprendendo. Estamos aqui somando elos, perdendo burrezas pegajentas, tornando-nos afinados. Também acho que a vida é um grande baile, para o qual fomos convidados a participar. Você vai dançar ou ficar aí parado, enquanto a música toca, todo mundo roda, todos cantam e sorriem? Você vai ler, escrever, estudar, pesquisar, enquanto um ou outro mané fica sentado vendo a banda passar, passando em brancas nuvens pela vida, perdendo o sentido da viagem. A vida é isso: Uns dão o show. Outros aplaudem. Ou nem isso. Aí vem a canção: É impossível ser feliz sozinho. João Gilberto. Bossa Nova. No entanto, discordo aqui e ali, pois, confesso, ser poeta é a minha maneira de ser sozinho. E um poeta não precisa de solidão para ser sozinho. Sou sozinho de mim mesmo. E então escrevo um mundo paralelo, o mundo-sombra, as coisas e acontecências que meu lado sentidor traduzem em palavras. E vivo pelo meu sonho, minha lenda pessoal. Embasado de estudos, cursos, trocas, vivências. Lições. Para sobreviver, fazer o quê?. Larguei de ser chefe de escritório jurídico e fui dar aulas. Adorei. Tornei-me o tiofessor de escolas particulares e públicas, lecionando de história a ética, de geografia a cidadania. Procurando ser um bom referencial, nessa atual falta de Deus, de família, de amor. Não sou um professor ardido ou infeliz, destemperado ou chato. Adoro dar aulas, me realizo, e tento tornar aquela aula comum mais alegre, cantando raps, citando letras de Lennon a Renato Russo, compondo blues, contando causos, colocando o lado humanus do aluno no foco daquilo que, regendo um ou outro conteúdo, pretendo passar com experiência, ajudando-o a pensar, produzindo conhecimento, formando cidadãos, inclusive no imediatismo social de seu próprio habitat às vezes muito precário. Consigo. Eles captam. Abrem seus corações. E as mentes também, claro, daí o fito didático-pedagógico. E entro no mundo deles. E colho solidões. Déficits afetivos, famílias desestruturadas. Sociedade capenga ao derredor. Falta de amor. E um consumismo aterrador. Passo-lhes as minhas lições de vidas. Bolo historias em quadrimhos sobre a natureza, aonde o ser Humano (o aluno) é o que vale, daí humanizando a paisagem, compreendendo a partir de então, mapas, relevos, valores, tamanhos, espaços, paisagens, ambientes, tudo o que o cerca. Vivências. E vejo que, como eu fugia da realidade triste (infância pobre) na poesia, muitos carentes fogem nos aprendizados da escola às vezes também carente. Sonhando mudar o meio de tantos contrastes sociais. Passam dias sozinhos em casa. Pais mortos, presos ou não declarados. Mães santas carregando o baque de lutas de sol a sol. E alguns especiais, sozinhos, fechados, entre livros, escrevendo, depondo, relatando. Depoimentos. Eu só fui um mero Inspirador. Fiz minha parte. Valeu? Torno-os meus alunos-filhos. Eles gostam. Quando chego ficam algo assustados com a aula diferente do usual e rotineiro. Então isso é Geografia? Quando vou para outra escola me escrevem, falam de saudades. Mas acham um louco que plantou canteiros de sonhos nos labirintos solitários da vidas deles, entre cortiços e mansões, favelas e palácios, becos e marginais, guetos e periferias entregues ao deus-dará nesses tempos bicudos de novas esperanças teimando expectativas de justiças e pagamentos de seculares dívidas sociais. Eu acredito. Eles acreditam. Sozinhos ou em grupos, com visão ético-plural-comunitária podemos mudar o mundo. E devemos. Afinal, eles, os alunos-filhos, é que serão os advogados, os médicos, os astronautas, os cantores de rocks, os poetas, os cronistas de amanhã. Ou os catadores de latinhas, dizem eles, esperançosos, se aplicando nos estudos. E, confessemos, queremos ter uma bela participação futura, mesmo como doces memórias revisitadas, num Brasil para todos os brasileiros, não para os ricos ficarem mais ricos, e continuarem as gangues palacianas e as máfias do nosso nefasto capitalhordismo mamando nas tetas dos podres poderes. Sonhar pode? Então eu não sou o único, como disse Lennon. Ainda bem. Outros chegarão. Junte-se a nós. O sonho acabou, mas eu, sozinho ou não, faço a minha parte, reconstruindo-o, cheio de esperança. Para, também, um dia, quando for bem velhinho, olhar para trás e ter a consciência do dever cumprido. E tentar com isso, ter um crédito divinal no Banco Novo Mundo. Para onde só vamos com o passaporte do primeiro mandamento-salmo, amando o nosso próximo como se a nós mesmos.
Afinal, já dizia William Shakespeare: “Depois de
algum tempo, você aprende/Que não importa em quantos pedaços seu coração
foi partido/O mundo não pára para que você o conserte./Aprende que o tempo
não é algo que possa voltar atrás./Portanto, plante seu jardim e decore
sua alma/Em vez de esperar que alguém lhe traga flores...” |
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O que mais recebo são de literatura, claro. Alguns ótimos, alguns bons, alguns nem tanto. Mando muito também, na mesma ordem.Tenho uma listagem preferencial, uma mais ou menos, e, claro, os amigos leais, coitados, que se dizem fanáticos por mim. Pobres cobaias. E recebo, cada vez mais, mais de cem e-mails por dia, do Brasil, de Portugal, de toda a América Latina, além de alguns pornôs, estrangeiros que simplesmente dou uma rápida olhada en passant e deleto, numa boa. Adoro receber poemas. Coisa nova, criativa, também. Mas, assim como mando meus e-mails de inéditos pra todo mundo, mal-e-mal espero ser lido, não exijo resposta, retorno, comentário, agradecimento. Faz parte. Acostumei me contentar que os amigos virtuais leiam o que escrevo, pelo menos. E supondo isso, dou-me por satisfeito assim, na confiança que nos orna. De vez em quando, num caso especial, comento. De vez em quando, um amigo quer saber isso ou aquilo, dou um toque, troco idéias. Mas, pelo tanto que recebo, leio, adoro, acho isso e aquilo, contento-me em saber que, pelo respeito da leitura, não sou obrigado – e nem teria tempo hábil, viável, claro – para, a cada um dizer alô, obrigado, muito bem, vote sempre, acertou a mão. Peço desculpas por isso. Assim como me contento em ser lido eventualmente, ou não, ser deletado, ou não, pelo menos o que posso fazer dos tantos que recebo é ler, curtir. Trabalhando como educador, em dois lugares, numa louca corria própria de Sampa, precisando de resto/vão de tempo para criar, tocar meus romances e, embasar minha lenda pessoal, aqui e ali, alimentar os sites vários com os quais colaboro regularmente, seria até mesmo impossível de responder a todos os trabalhos que me chegam. Perdoem. Assim, peço que, se me dão o prazer da leitura, já me sinto feliz. Se quiserem me contatar em situação especial, pessoal ou profissional, ficarei feliz, responderei numa boa. Mas o maior prazer é que, de um lado aí, o seu olhar pouse sobre meus crimes. E quando puderem, mandem-me os seus. Lerei, poderei eventualmente tocar um papo, dar uma dica, tascar um elogio válido, mas, não necessariamente nessa ordem, não prometo responder a todos como gostaria, pois, como viram, não é questão nem de educação ou vaidade, mas humanamente impossível. Relevem. Não sejam apressados nos julgamentos. Não julguem por vocês mesmos, ou perderão esse palco iluminado. Deixem o barco virtual correr, na peneira dos olhos, nas trocas dos afetos. Não sejamos tão puristas, nem sistemáticos e, tampouco tão exigentes assim. Arte não é pelotão de isolamento, nem matemática. Oferta e procura. Conceitos e riscos. Ossos do ofício. Levem numa boa. E, claro, continuem criando. A sensibilidade sempre vence, principalmente quando você não exige nada em troca, em função de, pelo fato de, pelo propósito de, pelo motivo de, mas, deixa o verbo fluir e assim vai semeando pés de andorinhas sem breque, que algumas farão verão, algumas voltarão, outras simplesmente ganharão um campo de centeio ainda não lavrado. Tudo na vida não é assim? Quantas palavras perdidas, quantas sementes que não brotam, quantos afetos não auditados, quantas emoções não quantifixadas, quanto arroz de festa que não vale um bolinho de arroz. Fazemos arte. E distribuímos. Quando, aqui e ali, encontrarem solo fértil, florescerão. Mas não devemos exigir nada, conceituar assim. Não é do criador exigir continência do sentidor-receptor. Nem devemos ser tão sistemáticos. Soltemos as borboletas da alma, e deixemos que elas nos levem graciosamente por aí, sem estigmas, sem sublimações, sem lenço e sem documento. E depois, o silêncio pode ser uma aceitação de nosso esmero, de nosso trabalho de ourives em searas virtuais Somos todos sementes.
Quantos de nós serão flores e frutos, e recriarão,
para sempre, a Eterna Primavera? |
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Esse último show, enquanto ele cantava, ao piano, o “acróstico” que musicou para sua última paixão, Maria Rita, fiquei avaliando o olhar triste de nosso ídolo ao piano branco, cercado de azuis transparentes entre canhões de luzes, solando suas lágrimas numa canção de amor e saudade. Ternura. Eu era um guri “que amava os Beatles e Roling Stones”, mais Tonico e Tinoco e, claro, Roberto Carlos Braga, o rei de todos nosotros que, calça calhambeque, botinha sem meia, cabelo na testa, repetíamos seus sucessos na “hit parade” da vida, e que tudo mais fosse pro inferno, mora? O Rei Roberto Carlos era mesmo um fenômeno, ao lado de seu amigo, irmão de fé e camarada Erasmo Carlos, desfilando um sucesso atrás do outro, com sua voz fina e meiga, seu olhar cândido de boi lambido, mais o personagem que fez de si, um mito, cantor e compositor, um dos maiores ídolos do Brasil e a sua MPB que é, ao lado da música norte-americana, a melhor do mundo. Anos 60. A tal Jovem Guarda no auge. Jovens tardes de domingo. O Brasil parava para curtir o ágape na tv. Audiência total, Ibope altíssimo, e o Rei Roberto Carlos, ao lado da Wanderléia, da Martinha, do Jerry Adriane, do Wanderley Cardoso, dos Golden Boys e dos Incríveis, destilava seu repertório que marcou época e fez, de todos nós, seus fãs de carteirinha. São tantas as emoções. São tantas as saudades. Bons tempos aqueles. Meu pai era vivo, eu era inocente, puro e besta, tomava minha Cuba Libre no Bar do Calixtrato em Itararé, e, nos shows pratas da casa que o conjunto local, Os Marionetes fazia, eu imitava O Rei, imitava Antonio Marcos e outros cantores da época. Vietnã, Agente Laranja, ditadura militar, Araguaia, e os jovens ali curtindo a patota do Rei que sempre tinha um sucesso nas superparadas das emissoras de rádio que difundiam o auge desse movimento que perdura até hoje. E com ele, Roberto Carlos o número um filho da Lady Laura. Talvez tenha sido realmente, o maior ídolo de todos os tempos. E desde então, a cada ano nos brinda com um show de Natal. Ele, o Rei, já entrando em idade, curtindo um amor espiritual, recolhido, sistemático, supersticioso, afastando do mundo real, já encorpando seus fantasmas, mas nunca deixando de ser o personagem de si mesmo, na persona de um mito, um ídolo, um rei que tem que estar sempre de branco, cercado de azuis, odiando marrom e nunca falando palavras ruins como maldade, azar e outras. Esse é o nosso Rei. E a sua outra face revela-se aos poucos, aqui e ali, em gestos, movimentos e canções. Nosso Rei está envelhecendo. E não poderia deixar de ser diferente. Místico, carente, talvez problemático de alguma forma agora, o Rei repete as mesmas canções, com arranjos simples, mas a cada cantoria, uma nova interpretação da mesma música. Ele é assim. Quase intocável. E o que sabemos dele hoje, por revistas de fuxicos e fofocas, é que ainda carrega a solidão dos reis e mitos nos ombros que já começam a curvar, na curva teimosa do tempo. O rei está morrendo, de alguma forma. Suas últimas composições, são despedidas. Só não vê quem ainda não sacou que ele é como nós. Crescemos, estudamos, curtimos, ficamos calvos ou obesos, mesmo vaidosos e sonhadores, o tempo vem sempre cobrar a sua duplicata. Tempo-rei. Os cabelos do Rei estão grisalhos. Sua alma está grisalha. Sua mão tremula quando interpreta baladas, como se fosse um escondido aceno de adeus ainda tímido. Mas ele ainda dará o seu adeus para sempre, pelo menos no campo presencial, táctil, porque quem é rei só perde a majestade corpórea, fica o imagético, a saudade, as lembranças, e as canções que ele fez pra nós... Pude curti-lo no último show de Natal, e lá está o rei perolizando a dor de uma perda nas canções. Ficou ainda mais triste. O cenho franzido, os gestos metódicos, mesmo quando sorri é um sorriso pela metade, um sorriso avelã, triste, fraco, composto, pois o Rei está morrendo. O rio que corre para o mar, morre. A árvore que já foi caule, morre. A nuvem morre para virar chuva. O trigo morre para virar pão, cantou Gilberto Gil. E o Rei vai morrer em carne e osso, para se tornar ainda mais uma lenda, depois indo cantar na freguesia do céu, e dizer finalmente e pra valer: Jesus Cristo Eu estou Aqui! Deus, quando quer levar nossos Reis, enlouquece nossos Reis. Roberto Carlos não está no normal dele. Parece cansado de existir. Parece passado. Mas ele já recebeu seu aviso interior. O relógio do tempo deixou sua marca nele. Faz louvores ao amor, mas está amargo como sidra vencida. O Rei está nos dizendo adeus aos poucos, a prestação, pois já está chegando a hora de ir... A despedida dói em reis também... Ficarão na lembrança o seu pique, as imagens de seus filmes, entrevistas, as canções para o Calhambeque, pro motorista de táxi, pra mulher de quarenta. De Maria Carnaval e Cinzas, até ao vencer o Festival italiano e também se lançar nos Estados Unidos e no mundo latino de língua espanhola. Enquanto ele, sentado a beira do caminho, espera se desmanchar a carruagem de abóbora do sonho, e ele embarcar para um outro mundo que não é da fantasia, mas a casa do espírito. Na casa do pai há muitas moradas. Roberto Carlos sabe. Ele, de alguma forma já foi avisado. -Maria Rita que ainda o prende a nós, talvez o esteja preparando para a travessia, a passagem. Eu senti isso. Eu captei isso, me perdoem. Talvez mais um outro disco meloso, regravações marcantes, talvez mais um ou outro show de Natal, depois o Rei Roberto Carlos vai em busca de sua estrela perdida, muito além do horizonte... Um Rei também morre. Um mito também tem unha e carne. Não poderia ser diferente com ele. Garrincha morreu. Luther King morreu. Gandhi morreu. Charles Chaplin morreu. Che Guevara morreu. Drummond morreu. John Wayne morreu. John Lennon morreu. Ficaram os tempos de ouro da Jovem Guarda, de nossa juventude transviada, de crushes e hippies. De Panteras Negras, ou Amor e Paz. Quem não trabalha, não faz amor. Roberto Carlos resiste. Como um jogador famoso que já não sabe criar jogadas ousadas, ou já errando pênaltis, ele resiste e se cerca de anjos e fantasmas, repetindo chavões, frases, gírias vencidas, revisando sucessos, aqui e ali criando sozinho uma música nova. Já se despediu de Erasmo Carlos. É preciso saber viver, mas ele vive mais fora de um contexto real, como se estivesse com um pé no hangar espiritual da travessia. Um cadilac de Deus virá buscá-lo? O coral de anjos celestes está precisando de uma nova estrela...
E que tudo mais vá para o Céu! |
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Silas Corrêa Leite |