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Combata essa tendência! Procure avaliar a situação por outros ângulos. Ser uma peça da mobília tem até certas vantagens. Você pode permanecer muda como os que a rodeiam, ensimesmada, viajando em seus pensamentos: afinal, ninguém espera que um móvel da casa saia por aí falando de tudo ou compartilhando idéias. Como ninguém considera aptidão de uma cadeira, ou de um sofá, por exemplo, bater pernas e se agitar no dia-a-dia de um lar, você também pode ficar quieta num canto ocupando-se apenas com observar o mundo. Garanto que irá descobrir facetas inusitadas em suas paredes, na decoração, no jogo de luz e sombra que produz o sol atravessando uma janela aberta. E devolva na mesma moeda o tratamento, passe a considerar a todos como velhas mesas ou armários e guarda-roupas: estão ali, mas você não precisa ficar esperando deles uma palavra de afeto ou um sorriso de carinho. Esqueça-os. Mergulhe nessa sua condição de ser-objeto, mas negue-se o ser-abjeto. Outro ponto positivo é que ninguém, do mesmo modo, notará seu natural desgaste, suas lascas e ranhuras, suas marcas e cicatrizes, a cor esmaecida. Você está tão incorporada ao mobiliário que se tornou familiar e é observada sempre com o mesmo olhar transpassante, aquele que não se fixa por mais que um breve segundo. É uma vantagem e tanto, uma vez que o tempo não pára e o envelhecimento é um futuro inexorável. É claro que as pequeninas boas transformações também não serão notadas, mas não lamente. Aproveite-as em segredo, torne-as só suas em comemorações egoístas. Use-as como um referencial, encha sua alma com a alegria de saber-se capaz de mudanças, mesmo que de uma parede para outra. E nunca se sinta solitária: você se dará muito bem, por exemplo, com pequenos animais. Gatos vão adorar se aconchegar a você, dormir em cima, deitar-se a seus pés: nada mais confortável que um velho móvel que se encontra sempre onde se espera que ele esteja. Por outro lado, não se considere um lixo: se o fosse, seu rumo já teria sido a rua, a fogueira, a caçamba que recolhe detritos. Lembre-se: se está ainda habitando a casa, é porque ocupa um lugar no espaço. Pode não ser o de honra – afinal, quem presta atenção num móvel usado? – mas é um espaço, o seu, e que importa o resto? Por isso, conforme-se com seu destino de ter-se percebido de repente mais uma peça da mobília. Não fique chorando pela época em que foi humana, companheira, em que era notada e podia curtir atenções inesperadas. Era outra sua natureza. Isso mudou. Você não é mais novidade, já se incorporou ao dèja vu, ninguém está interessado em suas pequenas e insignificantes expectativas e outras mazelas baratas. Deixe pra lá e alegre-se: você não é nenhuma antiguidade (ainda bem!), mas é sólida, segura e durável, mesmo pra quem nem a enxerga mais.
3/3/04 |
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Ariel Machado |