Remeleixos e quebrantes assim íamos fazendo nós, nós em nós, com nossas pernas piruetamente jogadas para cima, para baixo, pontas de seios, de tetas intumescidas, sentidas em lábios e dedos, em nós que fazíamos em nós, laços de línguas, buscas em túneis e furos e buracos, eu em você, você em mim, cuspes ligeiros de pêlos, peles em água de trabalho ofegante, gemidos em ó, de nós em nós que fazíamos em nós, uaus de verbo teimoso, de querência de mais, de ardência de partes, arrepios de cócegas jeitosas, de falo reinante, de vulva exultante, de eu em você, e você em mim, nós de nós fazendo dedos segurarem dedos, sola de pé em palma de mão, bate palminha, bate punheta, mãos repartidas em dois corpos grudados, braço estendido, braço dobrado, entrelaçado nó em nós, águas em olhos, olhos d’água entre pernas, tranças de transas como nós, nós em nós, boca na perna, perna no braço, lambanças de orelhas, toques em peles macias, um puxão de cabelo, um arfar, um relar de nós, nós em nós, um beijo doce... Acende um cigarro?

Maio/2003
 


 
       
     
   
   

 


Colocaram-na encastelada numa estante e lá fez seu ninho, sem muita escolha. Por anos a fio seus olhos parados e frios olharam lombadas de livros: eram romances, teorias, poesias, dicionários. Para ela, sempre gélida e fria, esse contato parecia nada dizer. Seu exterior foi se enchendo de pó, como pequena crosta, a dividi-la ainda mais com o mundo. Ficava quieta em seu ninho. Não piava, não cacarejava. Deitava-se com ela mesma e com ela acordava, numa constante desatenção com o mundo. Eventualmente recebia um esbarrar de espanador, de penas alheias, de galináceos que viveram sua história e faleceram. Um dia resolveram banhá-la. Não palpitou, não resmungou, deixou-se levar mansamente. Colocaram-na no mármore liso da pia da cozinha. Abriram-na, retirando a sua metade de cauda, asas, cabeça e bico. Mergulharam-na no líquido com sabão, esfregando-a com uma esponja cheia de espuma. Mas... mais que matreira, escapou da clausura, se jogou na cuba de aço e voltou como um caco, que cortou, fazendo sangrar o dedo anular que a prendia. Vingança para quem havia, por tanto tempo, largado-a na estante. Seu verde-água de vidro se desfez em pedaços, fazendo sua história, como aquelas que seus olhos parados haviam observado em tantas lombadas de livros, por tantos anos a fio.

Maio/2003
 


 
       

 

     


 

 

Adriana Gragnani
Paulistana, ativista da cidadania.
Uma assumida mulher da net.