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Quando você encontra alguém saindo metrô ou nas avenidas e tenta atravessar a rua para poder ver melhor a mulher bonita que te acena, sabe que tem que vencer muito mais do que a distância física. Não basta você simplesmente atravessar a rua e dizer algumas palavras bonitas ou versinhos tirados de poesias baratas para concluir que derrubou barreiras e chegou até ela. Da mesma forma não basta quebrar o gelo no escritório, dizendo palavras de efeito e afeto para pessoas que acabou de conhecer a respeito da importância da amizade. É preciso percorrer uma distância, que não é física, para se chegar ao outro. É preciso atravessar mundos, universos diferentes, até chegar a continentes inexplorados, até chegar a lugares originais e surpreendentes. Mas isso só se consegue com a expansão da sensibilidade através dos sentidos. Então o seu olhar torna-se atento, mais aguçado. Não que você consiga ver melhor de longe. Você não consegue também ver melhor de perto, pois a visão não ultrapassa a superfície da outra pessoa. Mas você sente que a visão é expandida, porque ela apreende o significado de pequenos gestos, e conclui que cada um possui um código secreto de expressão. Expressão que abrange os outros sentidos porque você igualmente pode perceber por meio da audição as variedades de tonalidade da voz. É aí que se inicia de fato o caminho tortuoso até a alma. Os sentidos, estando plenamente despertos, não são simples receptáculos passivos das percepções interna e externa. Os sentidos, juntamente com a consciência, são os únicos instrumentos seguros para iluminar a alma. O sexto sentido, ou qualquer tipo de intuição, você sabe, é vago o suficiente para ser um instrumento seguro. A intuição não pode ser equiparada aos sentidos, por que a sua suposta expansão é resultado da imaginação, que no fundo obedece aos nossos desejos mais secretos. E mesmo assim ninguém sabe exatamente o caminho a seguir, porque cada caminho tem as suas próprias estradas e armadilhas. E ninguém sabe qual é o fim desse caminho ou se, quando chegar ao seu final, você irá reconhecê-lo como tal. Porque tudo é uma eterna procura, incessante procura. E você teme se perder em labirintos, acabando por percorrer trajetórias circulares; você tem medo de pegar atalhos errados e nunca mais encontrar a estrada principal. Mas você tem que arriscar, ir além da superfície. E você pensa nessa teoria enquanto diminui a distância em relação à garota que está a sua frente. Não exatamente pensa, mas traz toda esta carga sobre as suas costas. O peso é enorme e o paralisa quando você está bem na frente dela. As circunstâncias exigem um comentário banal, uma frase feita para início de papo, mas você insiste em dizer algo original. O seu olho não está suficientemente treinado para perceber e interpretar a contração dos músculos faciais da mulher. Antes de se apresentar a ela, você diz que quer apenas observá-la, como alguém observa um belo pôr-do-sol. Ela sorri desconcertada. E nesse momento você se desconcentra. Em vez de procurar expandir os sentidos, você se satisfaz com uma observação original, porém corrige-se a tempo, acrescentando que o pôr-do-sol não é belo. O belo é simplesmente uma projeção de nosso espírito diante da observação do fenômeno. O pôr-do-sol é antes de tudo necessário à manutenção da vida assim como ela era necessária a você naquele momento. Ela não sabe se fica lisonjeada ou ofendida. Custa a ela compreender o que está se passando. Você pede a ela que se mantenha sempre em seu horizonte. Ela se irrita, pois não sabe o que você quer com ela. Você repete que gostaria que ela ficasse como uma modelo que posa para um pintor. Uma modelo que conservasse toda a sua espontaneidade. Mas a troco de quê, indignada e com toda a razão, ela te faz a pergunta. Você diz que não é pintor, que não quer retratar o seu corpo, mas sim a sua essência, a sua alma. Você quer desvendar e abrir chaves secretas para ir além da superfície das coisas, para ir além das portas cerradas que cada um possui. E você começa a citar Baudelaire, Poe. Inexplicavelmente vai juntando um monte de nomes sem saber direito o porquê num argumento sem pé nem cabeça. Você tem necessidade de se escorar em “grandes” nomes. A tua insegurança te faz uma máquina produtora de argumentos ad hominen. Ela te diz que havia lido alguns versos de Baudelaire, mas que não se lembrava mais deles, não sabia se eram legais. Aí você tenta retomar mais ordenadamente a sua fala e diz que Baudelaire procurava em seus versos mostrar a corruptibilidade das coisas, da natureza de um modo geral, e de como a beleza que nela se encontrava era fugaz. E você diz que a maioria dos poetas e visionários ficaram no meio do caminho. Apreender a natureza, esse não era o seu desejo. A natureza seria um meio para atingir a alma que permanece incorruptível à matéria. Nisso ela menciona alguns livros esotéricos, outros espíritas, e você quer se descabelar. Nada a ver com tirar fotografia da aura, um borrão que você acha que é apenas um defeito causado propositalmente pela máquina; nada a ver com papos esotéricos, tais como a regressão a vidas passadas, porque você já se confunde e acha bastante complicada a vida atual para se preocupar com outras existências. Ela chega à conclusão de que você é doido. Você diz que para chegar à alma é preciso expandir os sentidos. Os sentidos tornar-se-ão ativos e emenda dizendo que a intuição é papo furado. Para encerrar, você faz um pequeno discurso sobre a banalização da vida humana, que trava o homem na sua eterna procura. Até você retomar o fôlego, ela dá as costas para você e parte. Só então você sente o cheiro bom do seu perfume e vê as belas curvas do seu corpo, e se pergunta se isso também não é a expansão dos sentidos. Você não resiste e fala em alto e bom som que ela vai te provocar sonhos eróticos. Pronto, ela vira-se e lhe dá um sonoro e merecido tapa. Pronto, o leite estava derramado. E você tem de recomeçar tudo de novo, a partir da estaca zero.
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“Quem disse que a alma é uma esfera incorruptível?”. Ela amplia a pupila dos olhos, tornando-os ainda mais esbugalhados. “Quem disse que para chegar a tal alma é necessário expandir os sentidos?” Ela inicia a frase enfatizando o “quem disse”, querendo dizer que nenhuma pessoa sensata poderia sustentar aquelas idéias. Você é que acha que ela já havia trocado todas as bolas e se pergunta por que foi mexer com essa doida varrida. Por acaso você não havia percebido desde o primeiro instante, quando ela de imediato se interessou pelo seu papo, que não se tratava de uma pessoa normal? Pelo contrário, você percebeu muito bem e isso o encorajou. “Agora vou abrir as portas de um ser humano”, foi o pensamento mais besta que você já teve na vida. E quando ela ficou com os olhos cerrados em você, do tipo marcação homem a homem, o entusiasmo embaralhou ainda mais a sua cabeça. E você pensou que havia pelo menos uma pessoa no mundo que ouvia e o entendia inteiramente. Você abria os braços, provavelmente querendo enfatizar a importância de tudo o que era dito, mas você nem sabia direito os motivos. Estava tão excitado no início que abrir os braços era uma pura manifestação de alegria. E nem reparou no exagero dos gestos (a sua mão esbarrou várias vezes nos pedestres que, com dificuldade, passavam pela calçada estreita e movimentada), nem que a sua voz, à medida que aumentava a tonalidade, ficava cada vez mais aguda e desagradável, despertando comentários irônicos e debochados. Mas você não estava nem aí para a multidão. A multidão de ignorantes que se agita inutilmente, muito menos ela. Até que ela começa a objetar alguns pontos de sua teoria-hipótese, ou seja lá o que for, iniciando com um irritante “quem disse”. Você achou desagradável não as objeções propriamente ditas, mas o tom de intimação que acompanhava o “quem disse”. Será que ela não poderia começar de outra forma, dizendo, por exemplo, que não concordava com determinadas teses da sua teoria? A terceira vez que ela iniciou a frase com “quem disse”, você já se sentia inteiramente derrotado, querendo cavar um buraco no chão e meter a cabeça nele. O mais desagradável foi quando, diante de sua total paralisia, ela puxou os seus braços com uma certa força, tentando sacudi-lo da inércia. E você pensou: “Ah, meu deus do céu, ai vem outro ‘quem disse’”. Os gestos amplos e entusiasmados, você já havia recolhido há um bom tempo. As pessoas, só agora você reparava, tinham o olhar irônico e de gozação. Do que elas estavam rindo? Por que elas riam da tragédia alheia com tanto prazer?, você pensou. Sim, porque para variar, em tudo você carrega as cores do exagero. Tragédia enorme, imensa. Vergonha etc. etc.... Aí você começou a concordar com tudo o que ela te dizia. Admitia que a alma não tinha forma alguma, admitia que o sexto sentido não só existia, como o sexto sentido feminino era o instrumento mais poderoso para se atingir a plenitude da existência. Admitindo tudo o que imaginava devesse ser admitido, você dá uma desculpa a ela e diz que precisa ir embora, pois tem um compromisso inadiável. E quem disse que ela ia deixar você ir embora assim impunemente? Ela te segura pelos braços, as mãos dela estão quentes, porém a sua respiração volta ao normal. O tom da voz dela abaixa, aliás abaixa até demais, enquanto ela pergunta – numa voz sussurrante, que você reconheceu surpreendido ser extremamente sensual – o que você faz na vida. Você há muito tempo tinha perdido a sua identidade, e esforça-se, enrolando-se todo, simplesmente para dizer que era professor de uma escola pública. Ela diz que não era importante o que você fazia. O importante é que antes de tudo você era um ser humano. Nesse instante a sua pressão subiu a níveis altíssimos diante de tanta besteira, tanta frase feita. Só faltava ela te dizer que você não era um homem, mas um quadrúpede qualquer. Houve um silêncio curto, no qual ela o encarou de forma maternal, como uma mãe encara o filho perdido. Ela carregava um insuportável olhar de piedade. A seguir, ela começou a derivar de sua teoria o seu caráter. Ao deixar totalmente o sexto sentido de lado, segundo ela, você tem uma concepção muito estreita da vida. Você não explora como deveria a sua sensibilidade, valoriza demais a matéria e, por isso, deve ser muito infeliz na vida pessoal. Era preciso colocar mais poesia em sua vida, deixar que as emoções aflorem em seu coração. Só então você começaria a se sentir integrado ao universo. Ela lhe dá um folheto de um congresso holístico ocorrido um mês atrás, cujos participantes eram de origem eclética. Dentre os participantes mais ativos havia inclusive físicos quânticos. Ela trata de pronunciar o nome de alguns, quase soletrando-os, sugerindo a importância do evento. As pessoas estão rodeando vocês. Um desconhecido, por pura gozação te dá um tapinha nas costas, fazendo você se sentir como se estivesse num ringue. Você se pergunta por que até aquele momento não havia dado uns tabefes na mulher. A sua raiva é tanta que nem mais se importa com curiosos da multidão. E para encerrar a discussão, ou melhor, o monólogo, você se despede dela com um palavrão, mandando-a exatamente para aquele lugar. Ela fica atônita, tentando se recuperar do choque enquanto você sorri triunfante da vitória besta. Nocaute técnico, sem direito a assistência médica ou psicológica. E para acabar, você aproveita e cochicha no ouvido de um dos transeuntes que, apesar de tudo, ela tem uma bela bunda.
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E a foto daquele rosto tão expressivo caiu bem a sua frente como uma dádiva dos céus. Você passava pela banca de jornal e, como de costume, olhava de viés, envergonhado de si mesmo, as manchetes sangrentas dos jornais populares, quando se deparou na capa de uma revista com a foto da mulher. E a sua atenção foi totalmente desviada para o rosto daquela mulher que você mal conhecia. Os olhos dela, à primeira vista, eram ambíguos. Exibiam fragilidade e ternura. Você encontrou nas rugas do seu rosto linhas que convergiam para o canto dos seus olhos, tomando uma a uma, seguindo a trajetória delas, como se com isso você conseguisse apreender a trajetória do tempo. Os olhos miravam firmes e serenos em direção a algum objeto ou pessoa que provavelmente se encontrava a sua frente na hora da foto. Você então procurou colocar-se na suposta direção para onde ela dirigia o olhar, quase suplicando: “Olhe para mim”. Estremecer todo o corpo, era a reação que você imaginava que teria se a mulher da foto te olhasse. Mas aquilo era apenas uma foto. Numa superfície foi impresso um rosto que, no entanto, parecia sempre prestes a romper os limites da superfície para ganhar a tridimensionalidade. No início você ficou um pouco intimidado com a foto por causa do rosto tão expressivo da mulher. Depois percebeu como era bom estar em silêncio e observar que ela não era louca nem te achava louco. Você tirou várias fotocópias da mulher e as pregou na parede de seu quarto. Algumas foram recortados na região dos olhos, da boca ou do nariz. Sem noção prévia você é quem determinava o significado daquela foto. E isso era bom, porque, pelo menos para você, a mulher não era um símbolo nacional, nem encarnava a imagem de santa ou heroína. E, portanto, ela não trazia nenhuma carga ou informação prévia que ao invés de ajudar somente atrapalharia na busca em vão daquela mulher. Ela é muito bonita, você pensou espantado, porque a beleza só foi notada muito tempo depois. Você se trancava em seu quarto e ficava horas observando os detalhes do nariz aquilino, dos seus lábios... para depois juntar tudo num rosto que não era mais o mesmo, que dia após dia se modificava, ficava mais familiar. Parecia a você que os seus olhos se tornavam mais aguçados e penetravam para além das linhas do rosto. Pena que você não pudesse utilizar os demais sentidos. Porém, quando você passou a mão pela foto, ela pareceu ter adquirido relevo. Não o relevo que, eventualmente, uma superfície de papel fotográfico viesse a adquirir, mas era o relevo da própria pele. Você garantia que não estava louco, que podia ter sensações sem necessariamente depender de um objeto exterior que as provocasse. Tal juízo não foi compartilhado pela sua mãe na tarde em que ela entrou de surpresa no seu quarto, inquieta com o silêncio no qual, durante horas, você permanecia, e te pegou no maior flagra, contemplando a foto. Ela não queria acreditar no que via, pois revirava os olhos como se estivesse numa câmara de horrores. Quem era aquela senhora, cortada em pedaços, cujas fotos ocupavam mais da metade da parede? Se ao menos fosse umas das mulheres gostosas que aparecem nuas nas revistas masculinas, mesmo considerando de mau gosto, ela ainda poderia entender o filho. Mas qual o propósito do filho em ficar olhando durante horas a foto de uma mulher de rosto murcho, sem nenhum atrativo, e com o ar de antipática? Você permaneceu calado porque achava que ultimamente já estava dando muita margem a mal-entendidos, por causa de gestos ambíguos. A sua mãe tentava em vão extrair alguma coisa, mas você ficou com aquela cara de ‘só falo na presença de meu advogado’. Então, ela foi chamar uma pessoa, que considerava ser sua amiga e que tinha fama de sensata, para dar um jeito em você. Ao entrar no quarto o teu suposto amigo sensato procurou disfarçar o riso. O que significavam aquelas fotos? A única coisa que ele te disse é que eram de péssimo gosto, como se fosse um grande crítico de arte. Você foi tomado de um acesso de fúria, porque não apenas as portas estavam escancaradas como também a sua intimidade fora invadida sem qualquer cerimônia. E você se sentia ridicularizado e humilhado. Aos berros e também com alguns empurrões, você expulsou a sua mãe e o seu amigo do teu quarto, fazendo milhões de caretas, querendo dizer que se era loucura que eles desejavam ver, era loucura que eles teriam... O teu tio, pegando o final da cena, tentou serenar os ânimos, sem saber o que se passava. E a tua mãe, totalmente transtornada, não parava de repetir que você estava louco, que ficava o dia inteiro vendo a foto daquela mulher que nem bonita era, que tinha uns olhos de quem não batia muito bem da cabeça. Pronto, ela dera agora para nivelar todas as pessoas com as quais antipatizava à loucura. “Ali está a mulher”, berrava a tua mãe. Não era mais a foto de uma mulher, pois para a tua mãe, a foto havia ganho vida própria. E a tua mãe continuava apontando como se ela fosse o próprio demônio. Foi quando o teu tio entrou no quarto, tentando se lembrar de quem era a mulher da foto. “É ela...”, disse ele meio sem convicção. Sim, era a escritora. Provavelmente o sobrinho ficou muito impressionado com algum livro que leu dela, tornando-se assim seu admirador. Todos ficaram esperando de você uma resposta definitiva ao mistério das fotos, que só aumentava com o seu silêncio. Apenas no artigo da revista você finalmente soube que se tratava de uma foto da escritora. Leu as primeiras linhas de um biografia bem resumida, mas desistiu. Não interessava a você o que ela tinha feito ou escrito. Afinal de contas, você não pediu carteira de identidade ou CIC para nutrir fascínio e admiração por ela. Talvez fossem chatos e monótonos para alguns, profundos e interessantes para outros o que ela escreveu, mas certamente ela projetava toda a sua alma naqueles escritos. Bastava, no entanto, para você ler as linhas do rosto dela para saber mais do que qualquer leitor ávido. O seu tio improvisou um minidiscurso, puxando bem lá do fundo de sua memória, sobre a grande escritora, procurando explicar para a sua mãe a importância dela na literatura brasileira. E você tapou os ouvidos para não ouvir tanto papo furado. Para você, ela era uma mulher de alma cristalina, lapidada depois de um longo e sofrido caminho percorrido. A sua alma, provavelmente por causa da sua excelência, não era passível de receber diretamente a luz da felicidade. A luz penetrava de forma oblíqua em sua alma e ali era burilada. O resultado final do processo era um pouco amargo, mas intenso. E você compartilhou com ela desse raro estado que poderia ser chamado de felicidade plena, não se importando com a sua duração. A tua mãe concordou em te deixar em paz por um tempo, permanecendo desconfiada em relação aos sentimentos que você nutria pela mulher da foto. Os teus sentidos, tal como a respiração, avançavam e recuavam conforme o seu humor e as conjunções dos planetas. Até que um dia tudo refluiu de vez e ela voltou a ser apenas uma foto antiga em branco e preto. Você disse: “Boa noite, meu bem, foi bom enquanto durou”, e recolheu as fotocópias espalhadas na parede, para alívio da tua mãe.
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Oscar Kiyomitsu Kamesu |