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Frederico Britto passou pelo armazém, como faz costumeiramente. “Bom dia, seu Joaquim.” “Bom dia, rapaz. Vai para o trabalho?” “É, vou sim.” Trabalhou até as 17:30 e não conseguiu nada, nem um cliente, nem mesmo apresentar uma casa para alguém. A corretagem de imóveis já não dava mais tanto dinheiro como nos anos setenta. “Velhos tempos”, pensava. Ao chegar em casa, cansado, sentou-se na sala e, dirigindo-se à mãe Rosane, disse: “Tudo bem com a senhora?” “Vai-se indo, meu filho, vai-se indo...” “Qual é o rango de hoje?” “Tem feijão de ontem, mas está bom. Estou esquentando o arroz e fritei dois ovos para você.” Fred levantou-se, sem querer aparentar o desânimo com o terceiro dia consecutivo do ovo, e foi tomar um banho. Retornou lavado, cheiroso e sentou-se à mesa. Comeu sem muito ânimo e retornou à sala para ver televisão. A mãe passou, depois de arrumar a cozinha e disse: “Vou dormir.” “Boa noite mãe!”
***
No dia seguinte, acordou cedo para comprar o pão e o jornal, quando, depois de cumprimentar o velho Joaquim, encontrou Martinha, antiga namorada, velho amor que não foi correspondido. “Está melhor, Fred.” “Estou ótimo”, respondeu seco, sem querer alongar a prosa, mas, ao mesmo tempo, interiormente feliz por rever Martinha, tão bonita, doce, inteligente. “E eles? Continua vendo-os?” “Mamãe está bem, apesar da idade; e seu Joaquim, acabei de falar com ele lá na esquina. Você o viu também?” “Fred, por que você não me deixa levá-lo a um médico?” “Por quê?” “Acompanhe-me, só isso. O doutor Kant é ótimo e poderá ajudá-lo com os seus conhecidos. Faça isso por mim, pelo amor que já alimentamos juntos.” Fred sentiu-se tocado por Martinha, afinal, qual era o mal em acompanhá-la na visita a um médico amigo que queria ajudá-lo? Ainda que ele não carecesse de nada, a não ser do dinheiro que a corretagem lhe negava, o fato de estar com Martinha já era em si agradável demais para justificar a ida ao médico. Fred já conhecia as antigas preocupações de Martinha com sua saúde, motivo do rompimento amargo entre os dois, no ano anterior. “Beleza! Qual é o dia do médico?” “Sexta-feira pela manhã, você pode?” “Dou um jeito, falo lá com o pessoal da corretora e aviso à mãe.”
***
Sexta-feira, 8 horas em ponto, Martinha tocou a campainha da casa. Ele gritou lá de dentro: “Já vou!”
A mãe, de soslaio, estranhou o gesto de Fred, mas
nada disse. “E sua mãe Rosane, onde está?” “Você sabe, ela é muito tímida e ficou no quarto lendo seus romances. Ela agora está empolgada com O Quinze e chegou a comentar ontem comigo que a miséria continua a mesma lá para as bandas do Nordeste.” Desceram juntos à rua, Fred cumprimentou o velho Joaquim que bebia um café pingado na esquina e pegaram o ônibus que os conduziria até a clínica onde Martinha trabalhava e havia deixado agendada a consulta. Entraram. “Avise ao doutor Kant que eu estou aguardando com o Fred.” A recepcionista entendeu e saiu para transmitir o recado. Logo voltou dizendo: “Em cinco minutos podem entrar”. Fred, aproveitando a espera inevitável, queria lembrar o passado, as velhas promessas de amor não realizadas, mas Martinha se esquivava em manter qualquer prosa mais alongada com ele e dizia monossílabos: “É...” “Sei...” “Hum...” Mais de cinco minutos se passaram quando a recepcionista informou: “Podem entrar, o doutor Kant os aguarda”. Os dois se levantaram e chegaram à sala confortável, bem diferente das salas do posto de saúde municipal onde ele já estivera com sua mãe Rosane. “Oi Martinha! Trouxe o nosso amigo...”, disse o doutor, logo se levantando da cadeira e apertando a mão dos dois. Fred não gostou da intimidade – “nosso amigo?” – mas relevou tudo pelo amor à Martinha. Sentaram-se. O médico ajustou os óculos. O clima era visivelmente constrangedor, mas Fred não percebia. “E aí?”, perguntou Fred, meio sem saber o que estava fazendo ali. “Fred... Você tem um problema, mas podemos, juntos, controlá-lo. É preciso que você queira e...” Martinha interrompeu o médico e disse, mais afoita: “Fred, nós já conversamos sobre isso antes, quando rompemos a nossa relação, lembra-se? Você sabe que é esquizofrênico e precisa se cuidar. Não existe nenhuma mãe Rosane, meu querido, nenhum velho Joaquim. Você entende isso?” A fisionomia de Fred modificou-se. Sorumbático e irritadiço, começou a bater os pés, alternada, mas, suavemente. O médico acrescentou: “Tudo isso, quer dizer, esses fantasmas são produzidos pela sua mente, mas, ao aceitar se tratar, você receberá medicamento apropriado e isso gradativamente vai desaparecer. Esses fantasmas vão parar de te perturbar, compreende?” “E quem vai fazer a minha comida depois que chego da corretora? Quem vai colocar manteiga no meu pão pela manhã, porque vocês odeiam minha mãe e um velho inofensivo? Eles não são fantasmas que me perturbam. É a minha mãe, meu amigo, meu trabalho. Acho que vocês é que não entendem nada.”
Martinha e o doutor se entreolharam, sem saber o
que dizer. “Tá bom”, disse Fred, nervoso. Martinha, decepcionada, levantou-se e acompanhou Fred até sua casa. Em frente ao portão, os dois combinaram. “Sexta-feira que vem eu passo aqui, no mesmo horário, para irmos lá no médico, certo?” Fred olhou fundo nos olhos de Martinha, contemplou sua beleza escultural, lembrou as noitadas ardentes e disse: “Tudo bem, Martinha. Se isso é importante para você, eu vou naquele doido”. “Ele não é doido, é um excelente psiquiatra, um pesquisador do assunto.” Fred olhou debochado, mas acatou. Entrou em casa e falou com mãe Rosane. “O almoço está pronto?” “Ainda não. Espere um pouco. Vai ler o jornal e tome o seu remédio.”
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A semana passou rápida e dentro da implacável rotina de Fred: casa-trabalho-casa. Quando Martinha se posicionava para apertar a campainha do “esconderijo” – como Fred costumava chamar sua casa – ele já espreitava pelo basculante ao lado da porta da sala que dava para o quintal e o portãozinho da frente. A campainha soou e Fred saiu desembestado pela porta da frente e disparou três tiros certeiros e fulminantes que explodiram na jovem donzela. Martinha tombou numa poça de sangue, olhos abertos, chocados, sem tempo para reações. Ele se aproximou do corpo caído e o examinou sem piedade. Virou as costas e entrou melancólico. “Mãe, eu matei Martinha.” Sentou no sofá e começou a chorar convulsivamente. A velha, vendo a cena, tranqüilizou-o: “Meu filho, ela nunca existiu!” Ao longe, o som da sirene da polícia ecoava na sala.
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Marcio Sales Saraiva |