Lina observa a outra margem do rio profundo e de forte correnteza... Talvez lá, a vida mais prazerosa nas casinhas brancas, entre as verdes colinas... Ah, o intolerável estresse da vida urbana, o difícil começo da profissão, tanto trabalho, telefone não pára, juízes ranzinzas, promotores sem alma, chicanas dos colegas... E as causas tão variadas, são tão diversos os conflitos, tem que defender marido infiel contra mulher enfurecida; a jovem suspeita casando com a herança do velhinho milionário; o tarado estuprando a menina, uma assanhadinha desde a tenra idade, rezava pra que acontecesse... Tantos os filhinhos desassumidos de pais fujões... E processar o cão milongueiro, latindo a noite inteira para a luluzinha distante... Dra Lina, desculpe incomodar a esta hora, dá cadeia matar um cão fdp? E o último processo, a cabeçada da mulher no suporte de lixo do vizinho, que ainda por cima rira irônico, o lugar adequado, para você, galinhona.

Mas dinheiro que é bom, muito pouco, quase nada... Justiça quase sempre gratuita, os míseros caraminguás da OAB no final do mês, tantas as contas a pagar... E o sonho de uma vida tranqüila, um companheiro carinhoso, compartilhando momentos de puro amor, uma vida despojada, contato direto com a natureza, tudo simples...

 

Daí a decisão de uns dias no campo. Relaxar. Sozinha. Vê então junto ao pequeno barco o homem feio, atarracado, um mal-sucedido ensaio da natureza. O elo perdido? A natureza é cega, injusta, perversa, tanta beleza para uns, nada para outros? Imagina o feioso em amores sempre pagos, nunca amado pelo corpo minimamente atraente, um desastre! Já ela fora privilegiada, sabe-se bonita, desfrutando da admiração de todos... E o surpreendente convite dele:

– Quer conhecer a outra margem?

– É forte a correnteza, nada garante uma travessia segura...
Arriscaria a própria vida e a minha...

– Sei lidar com o rio, nenhum mal lhe acontecerá...Venha, sim, venha, em nome da solidariedade que deve existir entre os humanos. Preciso de um pouco de beleza que contrabalance minha irremediável feiúra... Nenhum mal acontecerá. Sei lidar com o rio...

E lhe falou dos belos gestos da amizade desinteressada que deve existir sempre entre todos, mesmo entre os mais díspares, do verdadeiro amor ao próximo traduzido por nobres ações, da probabilidade de desabrochar um verdadeiro amor, até mesmo a paixão, entre uma linda jovem e um homem feio de meter medo. E da atração exercida pela outra margem, certamente um lugar para ser feliz. Atônita e enternecida, ouvindo palavras jamais imaginadas na boca de um pobre barqueiro, quiçá de nenhum outro homem, Lina concorda em partirem, já romanticamente começando a sonhar com esse estranho amor... Ajeita-se no pequeno barco, é a Bela, e ele a Fera, como nas velhas e bonitas lendas que ouvira em criança.

E assim, Lina e o homem feio chegaram à outra margem e acharam uma casinha branca, na verde colina, à beira do rio. E nas sombras da noite, o homem feio se tornava bonito e amante carinhoso.

Diante das conveniências, trocaram a noite pelo dia, esquecido o barco à beira do rio, esquecido o escritório estressante. Acordavam ao anoitecer e, caminhando de mãos dadas pelas colinas, o homem feio cantava com os pássaros noturnos, enquanto grilos cricrilavam sua canção nupcial e vaga-lumes iluminavam os caminhos...

Assim, viviam felizes, até que... Até que a existência foi se tornando uma rotina intolerável para Lina, o amor do barqueiro insuficiente para o preenchimento de seus dias, a saudade chegando devagar, saudade de tudo, da cidade, de luzes, de gente em dias ensolarados... Pediu ao barqueiro que cruzasse o rio, queria voltar. Que cabisbaixo e triste concordou.

Já no barco, enfrentavam as águas revoltas, quando, de repente, no meio da travessia, ele jogou os remos e se atirou na correnteza. A vida é bela, mas, sem amor, nada valeria a pena.
Lina, salva pelos pescadores, voltou à cidade, ao escritório, à vida antiga. Mas nada, nada mesmo a alegrava. Saudade profunda do homem feio, do homem que a amara e agora, mais do que nunca, era amado nas lembranças.

 

Saudosa e sofrida, voltou um dia à margem do mesmo rio... Do outro lado, fora feliz com o homem feio, trocara o dia pela noite, tinham-se amado tanto...

Sentou numa pedra e chorou... E, de repente, a mão afagando sua cabeça, as palavras carinhosas.

– Quer ir para a outra margem? Venha, em nome da solidariedade que deve existir entre todos os humanos. Preciso de companhia, de um pouco de beleza para contrabalançar minha irremediável feiúra... Nenhum mal lhe acontecerá. Sei lidar com o rio...


janeiro/2004

 
 


 



 

     


 

 

Maria Ilsen
Sou Maria, paranaense, escrevo pelo prazer de escrever. E, escrevendo, respondo à ansiedade de criação artística, ao desejo de partilhar com outros a minha interpretação do Universo, de preferência, o humano. Gosto de transgenias literárias. Se você também, me escreva.