Manhã cinza. Tempo frio. Dia comum. Um buquê de rosas. O coração bate. A chuva cai. A cidade não pára. Pessoas vão e vêm. Com pressa, indiferentes, oprimidas, adulteradas, fiéis escravas das horas, sempre com pressa. As pessoas não param. Rosas. Desabrochadas, perfumadas, silenciadoras, doces, com espinhos, iguais a qualquer rosa. Os carros não param. Vão e vêm, velozes, alucinados, guiados por motoristas, ferozes, alienados, os carros não param. Rosas vermelhas. Prédios. Guetos. Panfletos. Repressões. Obsessões. Palavrões. Chefes. Operários. Crimes... Neurótica vida urbana. Atravessava a avenida. A cidade não pára. O porteiro. “Bom dia!” Dá bom-dia para o porteiro. O elevador. Aperta o sexto andar. O elevador desce. O subsolo. Dois homens engravatados entram discutindo sobre as variações do dólar. Eles não lhe dão bom-dia. O elevador sobe. Volta para o térreo. Entram uma menina com tênis all star, um rapaz com muitos livros e uma senhora segurando um rosário. Nenhum deles dá bom-dia. O elevador sobe. Primeiro, segundo andar. Entra um moço numa cadeira de rodas dando bom-dia. Só ele lhe responde. “Bom dia!” O elevador move-se novamente. Está abafado lá dentro. Terceiro, quarto, quinto andar. O elevador pára outra vez. Todos descem. Menos ele. A porta fecha. O elevador se move. Lá dentro permanece abafado. Apreensivo, se sente apreensivo. Sexto andar. O coração bate. O corredor é longo. O apartamento é o último. 601, 603, 607, 611, 615... “O apartamento dela é este!” Bate na porta. O coração bate. Na porta bate. Alguém abre. Seu coração está acelerado. “Olá!” Acelerado está seu coração. “Olá!” Ela está somente de toalha. “Quanto tempo!” Esconde as rosas por detrás do corpo. “É! Quanto tempo?” Seu cabelo está molhado. “Tudo bem?” Ela arruma a toalha. “Tudo bem.” Abaixa o olhar. “Cheguei hoje.” Ergue o olhar. “Estou vendo.” Repreensivo, se sente repreensivo. “Me desculpe por não ter ligado antes.” O coração ainda está acelerado. “Está desculpado.” Histericamente bate o calcanhar contra o piso. “Já faz um ano!” Deixou a porta entreaberta. “É! Já faz um ano.” Segurava para não gaguejar. “Hoje é seu aniversário, não é?” Furou o dedo com um espinho. “É! É meu aniversário.” Arrumava outra vez a toalha. “Meus parabéns!” São interrompidos pelos passos de um homem caminhando pelo corredor. “Obrigada!” Retira as rosas de trás do corpo. “São para você!” Olha-o assustada. “Muito obrigada! Mas não posso aceitá-las.” O homem fita-os antes de entrar. “Por quê?” Havia um tempo em que seus corações batiam num ritmo só. “Porque não posso!” O perfume das rosas inebriava-lhe as narinas. “Entendo.” Olhavam-se. “As coisas mudaram! Nada mais é como era antes!” Mas lá fora nada mudou, as pessoas não param, os carros não param, os crimes não param. “Posso entrar?” A cidade não pára. “Melhor não!” Arruma a toalha mais uma vez. “Quem é?”, pergunta lá de dentro uma voz masculina. “Ninguém! Só um antigo amigo, que já esta indo embora!” O coração está mais lento. “A gente se vê por aí!” Mais lento está o coração. “Um dia a gente se vê!” Um último olhar. “Adeus!” Despede-se, sempre encostada no portal. “Adeus!” Fecha a porta. Ele caminha em direção ao elevador. Ainda segura o buquê. Sozinho, sozinho no elevador. Dilacerado está seu coração. Sai do condomínio. Não se despede do porteiro. Nada mudara lá fora. A chuva não pára. As pessoas não param. Os carros não param. Ele se molha. Ambulantes vendem suas mercadorias. Também se molham as rosas. Um idoso pede esmolas. Vagarosamente caminha pela calçada. Alguém é atropelado. Ninguém o vê. A cidade não pára. Sente-se tonto. Sem ar. A vista enturva. Adormecem os membros. O peito dói. Dor cardíaca. A chuva diminuiu. Encosta-se numa parede. As rosas caem no chão. Alguém o viu. Alguém parou. “Está passando mal?” Mas ele não fala. Não consegue falar. Outras pessoas também o viram. Outras pessoas também pararam. Mas os carros não param. Os chefes não param. Os operários não param. A exploração não pára. Uma médica aproxima-se. A cidade não pára. Mede seu pulso. A chuva diminui ainda mais. “Enfarte!” Um senhor segura sua jaqueta de couro. “Pulso variável!” Ele mexe os lábios. “Quer dizer alguma coisa?”, pergunta-lhe o senhor. Mas ele não diz nada. “Pulso superficial!” O senhor aproxima-se bem perto do ouvido para tentar escutá-lo. “Pulso intermitente!” Balbucia outra vez. “Pulso irregular!” Mas o senhor nada entende. “O pulso está cada vez mais fraco!” Cada vez mais fraca está a chuva. “Está tentando falar novamente!”, berrava um rapaz ao lado. A ambulância ainda não chegou. “Não consigo compreendê-lo!”, repete o senhor. “As rosas! Não pisem nas rosas! Por favor não pisem! As rosas!...”, era isso que tentava dizer. Mas ninguém ouvia. A cidade não o ouvia. Continuavam pisando nas rosas. “Pulso lento!” A ambulância não chegava. “Muito lento!”. E lá fora tudo permanece normal, a cada novo dia, a cada nova manhã, a cada fim de noite, as pessoas põem, retiram e recolocam suas máscaras, talvez por costume, talvez por sobrevivência, mas o certo é que continuam indo e vindo, com carro ou sem carro, sempre com pressa. “Não sinto o pulso!”. Um garoto que passava por ali pegou uma das rosas jogadas no chão, das poucas não pisadas, para levar para a namorada, sem se importar com o que estava acontecendo. E ele já não queria dizer mais nada, alheio às pessoas, aos carros, às máquinas, aos roubos, aos assassinatos, às lutas, às classes, às guerras, indiferente a tudo aquilo que nunca pára, apenas observava o arco-íris que discretamente se formava por detrás da selva de concreto armado. “Morreu!” A chuva parou. O pulso parou. O coração parou. Só a cidade que não pára.

 
 


 

 

     


 

 

Geraldo Ramiere
Tem 22 anos e mora em Planaltina, DF. Escreve poemas e contos. Ainda não tem livro publicado. E o que mais pode dizer de si? Sobrevive... eis tudo e apenas.