Ana e Paulo não brigaram. Quando Paulo saiu de casa e disse que chegaria muito tarde naquela noite, Ana não sentiu ciúme, mas saudade. Relembrou fatos e situações colocando sentimentos que na ocasião não existiram. Tinha uma saudade fantasiada, de coisas que nunca tinham de fato acontecido.

Imediatamente sentiu uma vontade de beijá-lo e abraçá-lo. Dizer um eu te amo sincero, sussurrado, como um sopro tímido de carinho. Apressou-se até a porta, mas em vez de abri-la, estacou. Observou Paulo pelo olho mágico. Ele já abrira a porta do elevador, por onde entrou e sumiu, sem saber daquilo que Ana tivera breve vontade de fazer. Mas faltara-lhe ímpeto, irresponsabilidade e ela estacou.

Quando viu que o elevador descera, abriu a porta. Caminhou devagar, os pés ainda úmidos, o chão gelado e sujo, e viu o elevador fazer a contagem regressiva: 3, 2, 1.

Desejou que o elevador voltasse, com Paulo dentro, e ela lhe diria tudo. Juro. Desejou que morasse num andar baixo, e como nos filmes pudesse gritar da sacada: “Volta, meu amor”. Mas morava no oitavo andar, apartamento de fundos.

Ana e Paulo não brigam. Ele olhou para o rosto dela de modo assustador. O cenho crispado, a boca pronta para despejar trovões. Ana baixou os olhos para os punhos do namorado, temendo encontrá-los cerrados. Assim media a gravidade da situação quando era criança, e o pai corria atrás dela para uma boa surra.

As mãos de Paulo estavam abertas, e não se fecharam. A boca fez caminho contrário. Engoliu os desatinos a seco, equilibrou os músculos enraivecidos e ligou a televisão. Sem mirar a tela, fechou os olhos com gosto, e assim continuou, enquanto tirava um cigarro com maestria do bolso direito da calça jeans. Levou-o à boca e com a mão esquerda procurou, ainda de olhos fechados, o isqueiro zippo prateado. Acendeu o cigarro e guardou o isqueiro de volta no bolso.

Ana adorava essas pequenas habilidades do namorado. Despreocupou-se da quase discussão e passou a observar a fumaça fugidia que saía da chama acessa. Apagou a luz da sala, e deixou o namorado, que permanecia de olhos fechados, dividir sua luz com a tela azulada da televisão e alaranjada do cigarro.

Paulo fumava em silêncio, e quando a TV se calou e escureceu, numa cena noturna do filme, Ana sorriu ternamente ao ver o queixo do namorado, coberto por uma discreta barba por fazer, se iluminar em contornos laranjas.

Ana e Paulo não brigarão. Paulo pensava em Déborah Secco enquanto fodia forte sua namorada. Gozou rápido. Ana não o sentiu gozando em silêncio. Olhava as poeiras dançando no filete de luz do sol da manhã, que entrava no quarto escuro. Assustou-se com a sensação de peso perdido, depois que Paulo levantou, no que ela achava que era o meio da transa.

Recriminou-se mentalmente por ter ficado alheia. A pergunta “se ele não queria mais” foi freada, por sorte, na ponta da língua, quando viu o namorado dando um nó na camisinha gozada.

Paulo foi para o banheiro e trancou a porta. Ligou o velho gás do apartamento sem medo de qualquer explosão. Equilibrou-se em um só pé, esticando o outro em direção ao jato d’água, para saber se ela já estava morna.

Ana continuou deitada por mais alguns minutos. Depois abriu a janela, se arrependendo em seguida por ter desfeito o filete de luz que a encantara no momento em que o namorado a penetrara mecanicamente. No armário pegou uma calcinha limpa e vestiu-a. Em seguida, colocou a camisola do lado avesso, mas não percebeu.

Paulo sentiu um arrepio na nuca, que o fez tremer e dobrar os joelhos. Abriu a cortina do boxe em busca da namorada ou de alguma razão para aquele súbito arrepio. Voltou a tremer ao sentir a água morna tocar o pau meio mole, que já voltava a endurecer. Pensava em Ana.

Ana e Paulo [não] se amam. Ele cheirava a cebola, ela a alho. Beijaram-se displicentemente fazendo o jantar, e depois sorriram, envergonhados, pelo mau-hálito mútuo.

Paulo se enterneceu com a cumplicidade daquela cena de casal, de uma intimidade tão anti-idealizada, mas preferiu culpar mentalmente as cebolas pelas lágrimas derramadas. Ana não percebeu enternecimento ou as lágrimas. Pensava que precisava aprender a fazer torta de limão para agradar o namorado. Olhou para Paulo e deu novo sorriso, tímido, discreto, apenas com um lado da boca. Ele achou que Ana fazia cara de pena, por vê-lo chorando e não saber como reagir.

Agarrou-a pela cintura e puxou-a para junto de si. Com a mão, assim suja mesmo, alisou o pescoço dela com a direita e a bunda, só coberta pela calcinha fina, com a esquerda. Ela o beijou com volúpia, mesmo sem entender o porquê daquela demonstração de afeto tão afoita.

Paulo encostou a cabeça no ombro da namorada, levou uma das mãos sujas de cebola ao rosto, e percebeu que continuava com os olhos marejados. Ficou longos segundos com a cabeça recostada em Ana, que, naquele momento, teve a certeza de que não entendia o namorado. Mas o amava, sempre em silêncio, no intervalo entre as suas esparsas conversas, sem olhos nos olhos. Apenas gestos e toques. Constantes interrogações de um caminho desconhecido. Sentiu-se ternamente excitada.

Acordaram cansados e com fome no meio da noite. Ele cheirava a alho, ela a cebola.

Ana e Paulo ainda não se conhecem.

 
 


 

 

     


 

 

Flávio Izhaki
Tem tem 24 anos e é jornalista.
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