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Certamente era o dia mais frio de todos aqueles dias sem sol, fazia tricô ou crochê na cozinha fria de fogo quase morto que faltava no fogão à lenha, faltava lenha lá fora, e gente pra ir buscar. Mas o menino brincava esperto no quarto. Na televisão preto e branco desenhos animados sem muita importância, e o vento zunia no parapeito da janela frontal, dava medo de ouvir. O pai acuado com seu chimarrão parco fazia força pra voltar ao trabalho na companhia em recessão econômica. O almoço ia demorar. Mas não se aquietava o menino, fugia para cima da Ameixeira, sondava a irmã e sabia colher os melhores frutos mais maduros, sabia de cor seu sempre caminho até quase o topo da velha Árvore no fim do quintal, ao fundo um milharal seco e dois pinheiros carregados. O céu cinza espreguiçava dentro da hora de ir pra escola, e chorava só de pensar em tomar banho na grande bacia: ou água muito fria de dar quebra-dentes no coro, ou de pelar os pêlos dourados, que dor! E o quintal fugia do frio assim mesmo, todos esperançosos pela primavera, exceto o pai e o menino que, mesmo sofrendo, alegravam as cobertas quentinhas pelo meio da manhã até o meio-dia chegar triste e choroso pelo caminho da escola. Aquelas grades marrons, e o pequeno pátio sempre abrigavam um canto qualquer para se esconder das brincadeiras malvadas das meninas. Pela tarde a mãe voltava a reclamar das dores do reumatismo, o pai no trabalho e corria pra cá e pra lá na ladeira do pequeno jardim, sem se importar do que os meninos riam, só importavam os belos castelos inimagináveis das estórias. Mas os anjos cantavam e nem sempre velavam os sonhos estranhos, os megafantasmas dos prédios sendo construídos em volta e a derrubada dos pinheirais doía que só. Às vezes corujas cantavam e o vale verde aos poucos morria dando vazão às casinhas marrons de madeira virgem. Aos poucos a vila evoluía e viam-se, ainda que ao longe, lagos sujos das fábricas de papel, e os meninos lá de baixo todos iam se banhar nas águas infestado de girinos. Aos poucos invadiam a vila, estranhas caras e novos meninos na escola. O tênis furado. E o céu se abria aos poucos pelas manhãs não muito cedo. As meninas cresciam e os quadros com figurões na biblioteca envelheciam para além de suas barbas brancas, amareladas como os livros que agora ganhavam mais interesse. As livres leituras inaceitáveis e as fugas das aulas com futebol, os constrangimentos dos maiores e a paz nas palavras, enfim. A Ameixeira morreu, os meninos também se tornaram rapazes e os livros brotam no lugar no último pinheiro do último terreno baldio. O inverno sempre acaba, mas a grama continua a crescer.
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Às vezes cansa e pensa se não foi longe ou além dali donde não se vê mais nada: no escuro da calçada estéril um passo se deixa esquecer, e é alcançada. A chama com sussurro artento assustando-lhe c’um som sem cinco ou seis palavras fiadas e sem censura. Enquanto só, espreitava-se às distâncias dos doze parcos passos fugidios; imagina como seria se o beijo que lhe dera era dela ou dera vinda de outra heroína que nem a olhou – ao menos alguma vez perderam cinco salivas à toa. E assim seguiu refletindo seus passos tortos e tímidos no espelho da chuva fina como o véu que lhe surrava firmemente as costas, e calado conseguiu seguir até o abrigo fútil; antigo esquecimento que é este estado de amor amargo. Mas seu amor não despertava sequer um estalo de línguas loucas ou o vermelho violento de seus cabelos soltos em tão mal cortados cachos que se iam balançando noite adentro, enquanto campeava seringas sujas, restos de sanduíches perto de algum restaurante chique ou ao menos os estigmas d’um boteco assustado que insurgido de vivas vaias à rua se foi velar. Assim, a morta-viva lhe surge várias outras tantas, e no intuito de ter que dividi-la em cabelos e pele, porra e pus. Pôs-se a chorar no vento sangue-surja, como tantas outras alegrias preocupantes e mal vivindas ela. No fim da farra, quando céu azul, cobre-se com óculos a mácula escura da chuva almejada. Surfando salivas a menina sorteou sua imagem num caos de imortalidade vencida, degustou-se e sentiu veias e tripas, pele suja e amargos pêlos insurretos de porradas. Várias e tantas e infinitas vezes a morta-viva lhe surge, com e como tantas alegrias de saídas preocupantes e mal vivindas; ela revigora-se mesmo quando quase morta; ele ou sem sono, pois se cessa.
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Ednei S. |