Aquele era um maio assimétrico. Não porque fosse outono de ventos quentes e céu aveludado de azul escuro, mas porque Lorenza trouxe a orquídea. Orquídea desanimada, verde e pálida. Lorenza talvez precisasse de uns vestígios de primavera em casa, ainda que fossem leves esperanças, como os suspiros bem batidos de Dona Doquinha, com raspas volteadas de limão por cima daquelas brancuras de nuvens. E contou nos dedos longos e com pele de cambraia os meses habituais do ano. Habituais? Sim, porque se tudo corresse bem, se nada interferisse na doçura dos dias, faltavam quatro trinta ou trinta e um dias para a tal prima chegar. Isso se não ventasse forte e o galo do quintal vizinho não cantasse fora de hora.

Veio junho e Lorenza descobria augúrios nas bananeiras e nas bacias d´água; dizia à orquídea solstícios e paganidades. Conversou longamente com um colibrizinho. Depois de vários senões, ficou resolvido que ele sobrevoaria, dia sim, dia não, os promissores brotinhos que surgissem. Lorenza mudou a orquídea de lugar: devia ser falta de ar e precisão de um arrastar de asas caprichado. De seu novo canto, perto da janela, ela poderia ver os desenhos no céu. Vendo tanta criancice lá fora, quem sabe ela se animasse.

Veio julho e Lorenza tricotava para a orquídea casaquinhos de delicados devaneios; apontava as estrelas sem medo de verrugas, nominando uma a uma: – Vê aquela? Ali... mais perto de Vênus? Sim... essa azul piscante! (o azul brilhante daquela jóia no céu lembrou-lhe uns olhos perdidos no sem fim desses mundos). Uma saudade estendeu-se feito colcha de retalho por sobre sua alma. Alisou um restinho de dor escondida na alça do sutiã e desconversou.

 

Veio agosto e Lorenza recolhia grises e devolvia azuis; assoprava o vento de volta e auscultava o coração da orquídea, em desvelos. O mundo andava trêmulo e abatido. Seria um presságio? Passou a acordar às três horas e ficar na cama, silenciosa, quase sem respirar, antecipando um cantar fora de hora do galo. Na quarta noite ele cantou. Foi como se as pálpebras de Lorenza fossem se fechando a cada có daquele coricocó. Então pôde dormir descansada. De manhã, percebeu revolta nas folhagens e desalinho nas azaléias. Os ventos tinham vindo de madrugada e eram ventos semeadores, acostumados a revolver cantos sombrios. – Preciso de um sapo faminto... onde andarão os sapos? pensou, enquanto olhava a palma branca sendo devorada por caramujos. Na seda carmim de seu coração uma viscosidade macia deslizava e apaziguava suas apreensões.
Veio setembro e a alma de Lorenza passarinhou-se! Banhou a casa, táboas do chão em escova, paredes em demão de cal, vidros em areia da fina, jarros de manjericão, arcas arejadas, alfenins. Azafamada, Lorenza urgia.

Procurou pela receita de bolo de laranjas e escreveu um verso alheio no cantinho da página: “se ele me convidar, não terei calcinhas à altura desse encontro”. Mas essa era outra doçura.

Enquanto batia as claras em pura neve tibetana, espiou de longe a cara dissimulada da orquídea. Lembrou-se do comentário de Dona Doquinha: Essa fulô tá incruada... benze ela! E benzer adiantava? Era preciso esperar mais dias e mais noites. Vigiar os ventos e o galo. Alinhavar com linha de bordar todos os desejos e acontecidos. Misturar, em pequenos potes de louça, as desesperanças junto com as risadas, colocar uma pitada de algum sonho esquecido, cobrir com um paninho rendado de saudades e esperar.

Veio outubro. Veio novembro. Veio dezembro.

Outubro veio esquisito e queimou duas lâmpadas da casa, gorou oito ovos da carijó, desandou a bala puxa-puxa. Lorenza leu infinitamente a carta que chegara. Carta escrita com letras fortes, num papel meio creme meio bege. Palavras rápidas, sentimentos velados, como silhuetas por entre as transparências de uma cortina. No canto esquerdo do papel, umas digitais perfumadas contavam-lhe que ele se barbeara, loção com cheiro de limão. Sentiu saudade de sua pele e do cítrico adocicado da boca. Olhou o colibri às voltas com a desanimada e secou uma lágrima nas costas da mão.

Novembro trouxe chuva. Da grossa, da fina, com trovão, sem trovão. Na semana que choveu sem fim Lorenza até abriu a caixinha de música e colocou na orelhinha da orquídea: – Escuta, menina... é Chopin... vê se cria juízo e deixa de ser teimosa! A enxurrada arrastou formiga, folha seca e os restos das delicadezas.

Dezembro veio apressado. Quando Lorenza menos percebeu, já era hora de apanhar os figos e cortar papeizinhos dourados. Espetou uma estrela grandona na ponta do galho, trocou um carneirinho de lugar e foi torcer o lençol. Dona Cotinha trouxe cabelos de anjo e algumas espigas de milho. Milho verde? Voltou a botar tento nas circunstâncias e olhou a orquídea debruçada no vaso. O colibri não aparecia há duas semanas. Naquela madrugada acordou com o galo berrando. Olhou as horas: Três. Levantou, abriu a janela e os primeiros botões da camisola e deu-se aos ventos. A noite espalhava estrelas nos telhados das casas e tecia sombras no contorno das montanhas.

Lorenza apagou o fogo da água e olhou pela janela, enquanto o café decantava cheiroso e escuro. Amanhã seria dia de alfaces crespos e de cebolas novas e Lorenza poderia esquecer a hostilidade muda da orquídea. Ainda cuidava dela, é claro, mas a vereda de suas prosas tinha sombreado. Hoje, por exemplo: os figos pequenos e luzidios, coarando ao sol. A orquídea inquiria. Fosse antes, dava-lhe a cheirar o fruto, passava cristaizinhos do açúcar em suas folhas, espetava uma canela na ponta do vaso. Agora tinha ganas de trincar um figo, de passagem, com cara de nem-nem.

Sentou na soleira da porta, descalçou as sandálias e, com a ponta do dedão no batido do terreiro, desenhou o triângulo vicioso: amor não chega se orquídea não floresce; orquídea não floresce se primavera não chega; primavera não chega se amor não floresce.

Entabacou-se, ciscada e descochada. Era bem possível que aparecesse um flezembre pela frente. A coragem de se falar claramente na possibilidade de um flezembre fez com que ela cortasse os cabelos, comprasse uma sandália nova e até cumprimentasse a Olhuda da esquina.

Na terceira lua de dezembro, algo desandou. O lençol de cretone amanheceu tingido de vermelho como as rendas maculadas do paraíso. Lorenza sangrou duas vezes no mês: – Ah... então é assim? Não bastassem os ovos gorados, a bala desandada, as lâmpadas queimadas, o berro do galo, o milho verde, a chuva sem fim, os galhos desconexos do abacateiro, o desaparecimento do colibri, a resistência da orquídea, os ventos desnorteados...

Pronto! Flezembre era inevitável. Conhecedora de sua chegada mais mês ou menos mês, autoproclamou-se Esperatriz, deitou-se e soube como seria a orquídea. Quando flezembre chegasse as festas viriam carregando mimos, docinhos e cantigas. Ela, Quieta, agora. Depois, a tarde alaranjada e quente, o silêncio entorpecendo os olhos dos pardais. Dormiu, sonhando com muitos tons de lilás.

Antes que o sol nascesse, ouviu passos no jardim. Aguçou os ouvidos, levantou-se. Abriu a porta e, pelo reflexo dos olhos azuis à sua frente, pôde ver outros violetas e lilases, florescendo no canto da janela.

Descansou a cabeça no ombro amado e amanheceu flezembre.

 
 


 

 

     


 

 

Bia Rodrigues
Nasci perto de um rio. Cresci olhando montanhas e procurando pássaros. Convivo com miudezas e texturas. Choro com gestos de solidariedade. Gosto de corações mansos, olhares profundos e risos largos. Noves fora, sou quieta. Quase sempre, sou feliz.


 

     


 

Teresa Melo
São-paulina, tieteense, educomunicadora. Mezzo italiana, mezzo caipira. Mãe de dois, avó de uma. Sem perfume, nenhuma grife. Truco, MPB, naïf. Levaria o Henfil pra uma ilha deserta. Como assim, morreu? Então, iria sozinha mesmo.