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Perdi-me na leitura, estou atrasado. Táxi! Táxi! Por favor, a estação brigadeiro. – Como faz calor hoje, não é mesmo? – Há quanto tempo você mora aqui? – Há poucos dias, mas pretendo ficar por muitos. – Chegamos. Posso te ver outra vez? – Não sei, mal te conheço. – Não importa, olhe nos meus olhos e verás que já me conheces há séculos. – Estranho, você... não consigo me lembrar, mas parece que somos tão próximos. – Tem telefone? – Claro, anote! – A que horas você volta para casa? – Ao anoitecer, provavelmente. – Falou. – Valeu. Esse taxista não me é estranho, ah deve ser paranóia minha. Que metrô lotado, parece que todo mundo resolveu pegá-lo hoje. Com licença... vou descer...! Boa tarde pessoal. Quantos problemas a ser resolvidos, mal tive tempo para almoçar! Ainda bem que saiu o último cliente. Tchau pessoal, até segunda, aproveitem bem o fim de semana. Agora tenho que enfrentar tudo de novo. Que rua escura, não há uma alma viva. Que arrepio, parece que tem alguém me seguindo. Tem alguém aí? Que casarão macabro! Acho melhor entrar um pouco para disfarçar, já pensou se for ladrão que me segue? Está em ruína, deve ter uns trezentos anos. – Olá! Viestes mais cedo do que pensei. – Você por aqui? – Não tenhas medo, suba as escadas comigo! – Quem sois? De onde viestes? Como sabes meu nome? Por que estás aqui, agora? – Deite-se! – Irás me matar? – Não mateis! – Roubar-me-ás? – Não furteis! – Que quereis de mim? – Deite-se! Já disse. – Ainda não entendo, parece que sempre estivemos juntos. – Que pele macia, que boca suave. – Que tatuagem é essa? Não sei como apareceu. – Nada aparece por acaso.
– Tens razão, nada aparece por acaso. – Deram-se as badaladas que separam um dia do outro. Ah, doce meia-noite! – Por que choras? – Choro por você. – Achei que estarias feliz comigo. – Choro pelo amor à primeira vista. – Mas tens o que desejas, aqui estou eu. – Somente por um momento e os momentos são tão rápidos quanto os relâmpagos que cruzam o céu em noites frígidas de tempestade. – Não chores mais! – Enxugue minhas lágrimas, meu amor. – Elas se transformam em sangue quando as toco! Para que esse punhal? – Faz parte do show. – Enlouqueceste, dizias que me amava. – Juras e punhais se combinam. – Solte-me, alma macabra que entraste em mim sem pedir licença, invadindo todo espaço de meu coração cheio de sangue! – Sugarei até a última gota. – Taxista maldito! – Maldito como a noite. – És rasteiro e traiçoeiro como a sua venenosa tatuagem. – Meu bote sinistro e mortal não lhe permitirá viver. – Correrei pelas ruas escuras. – Não conseguirás escapar. – Nunca mais me possuirá. – Pertences-me, e jamais me evitará. – Então, faças o que deve ser feito, não mais me importa viver. – Bebas o cálice! – Como é saboroso, a cada gole sinto que meu corpo se enche de sangue vermelho, fervendo minha alma. – É da melhor safra. – Que sono! Preciso dormir. – Boa noite, meu anjo da escuridão. Bebeste o cálice temperado com minhas lágrimas, mortal veneno que a tudo destrói e arrasa. Durma que o para sempre nunca acaba. Não matareis, apenas faça dormir! Voltarei para a torre da solidão, escura, solitária, sinistra, pacata, esnobe, viril, tão valiosa, mas vermelha como o fechar dos olhos de quem morre por ter experimentado o amor à primeira vista. Amor impossível, inalcançável. Estou exausto, preciso voar, me libertar, cálice delicioso, maldito. Estou chorando lágrimas vermelhas!
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Agnaldo Rodrigues |