| Ossos expostos de um ofício |
|
Em sua autobiografia, Viver para contar, Gabriel Garcia Marques refere-se ao jornalismo, atividade que praticou antes da consagração literária, como a "mais formidável das profissões". Certamente há coisas interessantes no jornalismo mas pode ele também ser definido como "a mais incompreendida das profissões". Formidável é a oportunidade que ela propicia, mais do que em qualquer outra, de viver-se em conexão permanente com o presente e o futuro, mesmo que ela se resuma ao dia seguinte. Com muito esforço e algum talento, adquire-se algum prestígio e notoriedade, apesar da certeza de que o jornal do dia anterior, com seu trabalho publicado, servirá para embrulhar mandioca na mercearia. Ou de forro de chão para o pintor de paredes. Acontece-me com freqüência, principalmente no Rio de Janeiro, de encontrar a página dois do Globo, onde escrevo há 20 anos, nos mais inusitados lugares e situações. Nessas horas, você tem a certeza absoluta de que o jornalismo propicia a mais efêmera das satisfações profissionais. Ela se esgota com a leitura do jornal ou o clique que desliga o televisor ou o rádio. Serve-lhe muito bem a metáfora da padaria, que uso para me desculpar com alguém que incomodei no dia anterior. "Sabe como é, uma coluna é igual à uma padaria, todo dia é preciso fazer pão novo e fresco. E dura pouco..." Nos dias de hoje o jornalismo é uma profissão estável, não um refúgio de boêmios e intelectuais malsucedidos, como no passado. Ganha-se relativamente bem, as grandes empresas oferecem compensações indiretas, como planos de saúde e previdência complementar. Afora isso, o grau de estresse é formidável. Jornadas de 12 ou mais horas de trabalho são uma exigência da natureza de um trabalho que quase sempre deve ser concluído no mesmo dia. Com a coleira eletrônica do telefone celular, fica-se plugado no trabalho 24 horas do dia. O "tempo real", com seus sites e televisões a cabo, redobraram a exigência de se "estar informado". E lá se vai a qualidade de vida, o tempo para o lazer e para a vida pessoal, ao ponto de tornar-se o jornalismo uma profissão anti-intelectual. Todas as profissões têm seus inconvenientes e as banalidades do cotidiano. Mas ao jornalismo junta-se um grau de exigência externa sem paralelo, por parte de leitores, ouvintes ou telespectadores, aos quais nunca será possível satisfazer plenamente. Sim, porque mesmo não tendo um mandato popular, o jornalista é visto como uma espécie de ombudsman social e coletivo, que deve estar sempre de espada em punho em defesa de uma verdade que nunca é a mesma para todos. Quando surgem escândalos ou coberturas que despertam paixões intensas, a cobrança vai ao píncaro. E hoje, com a Internet, os leitores tornaram-se uma espécie de Ministério Público da imprensa, sempre prontos a acusar, cobrar, apontar falhas. Até mesmo a adivinhar suas intenções e pensamentos. Neste chamado "caso Waldomiro", que produziu a primeira grande crise política do Governo Lula, o leitorado entrou em ação. E é compreensível que o caso tenha sido um divisor de águas, pondo de um lado os que não votaram em Lula ou os que se arrependem de ter votado, e, de outro, os que, sendo ou não do PT, atribuem a crise à politiquice dos partidos adversários. Enfraquecer o governo para tirar proveito na eleição seguinte é sempre uma tática da oposição, e o PT também fez uso dela. No Brasil que lê jornais, entretanto, há alguns anos vem se procurando associar os jornalistas, colunistas e articulistas a partidos e posições políticas, por maior que seja o esforço pela isenção e a objetividade. Pois voltando ao caso Waldomiro, não faltaram críticas aos colegas da revista Época que deram o furo do ano, revelando a existência da fita em que o ex-assessor do poderoso Dirceu é flagrado pedindo propina. Foram competentes, nada mais. Nenhum jornalista deixaria de dar um furo desses, e quem deixasse estaria prestando desserviço à democracia. Veio a crise e o caso, a meu ver, assumiu proporções desproporcionais, quando passou a ser pretexto para se pedir a demissão do ministro. E dizer isso também virou heresia, sinal de cumplicidade com o PT, seu governo e até com a corrupção. Em meu blog na Internet, houve gente pedindo impeachment, como se este instrumento agora fosse banana de republiqueta. E tome xingamentos, por não estar correspondendo ao desejo de sangue dos leitores. Por fim, veio o ministro Gushinken dizer que a imprensa alimenta a crise, porque decidiu provar que há corrupção no governo. E a nota do PT, na sexta-feira, dia 5 de março, resumiu-a a uma conspirata juntando a oposição e setores das mídia. Este é um exemplo ligeiro das adversidades enfrentadas por esta profissão "formidável".
É louvável que os brasileiros estejam fazendo uso
dos mecanismos de controle social da informação propiciados pelas novas
tecnologias, principalmente pela Internet. Mas é lamentável que estejam
confundido controle social com patrulha ideológica. |
|
Tereza Cruvinel |