| Escrever é terapêutico |
|
As palavras de Carlos Drummond de Andrade não são estas, mas o pensamento sim: "Não me considero um escritor. Sou apenas uma pessoa que escreve. Que escreve porque tem de escrever, e que começou a fazê-lo para cuidar das necessidades da alma. Como uma psicoterapia sem divã. Mesmo porque nesse tempo não havia psicanalista em Minas". Sou suspeito para falar sobre isso, pois sou jornalista desde os 19 anos – e psicólogo clínico desde os 44, além de duas incursões profissionais, de alguns anos, pelo Direito, que foi meu primeiro curso de graduação. Afirma-se que se busca a profissão de psicólogo para resolver problemas emocionais. Na verdade, busca-se qualquer profissão para resolver, principalmente, problemas emocionais – o que pode levar à conclusão, não de todo falsa, de que quem busca mais profissões, talvez tenha mais problemas emocionais... O fato é que conheço de perto, na minha experiência pessoal e na de muitos clientes, as vantagens terapêuticas do ato de escrever. Sobretudo quando escrevemos para nós mesmos, no espaço protegido de um diário adolescente – todo diário é adolescente, mesmo o de quem já passou dos cinqüenta. E mais ainda quando falamos de nossos sentimentos. Você está deprimido, confuso. Senta-se diante da folha em branco, ou da tela do computador. E escreve: "Estou confuso". Ótimo. Tomou consciência da confusão. Até esse momento, você apenas sofria a confusão, mas ainda não a tinha definido. O estado de confusão ainda não tinha passado pelo filtro dos pensamentos que temos de atravessar no ato de escrever. Ao escrever sobre sentimentos nós os pensamos, ficamos mais em contato com eles. Podemos aceitá-los. Percebê-los melhor, eventualmente associá-los a suas causas, os significados interiores de que eles resultam. Elaborá-los. Às vezes eles se diluem, dando espaço a sentimentos mais profundos, que os primeiros apenas disfarçavam. Uma tristeza inicial dá lugar a uma raiva – ou, surpreendentemente, a uma alegria. Certa vez, já adulto, encontrei um caderno de escola dos meus 15 anos, se tanto, em cuja última página alinhei as "Razões para renunciar à Presidência do Grêmio Literário e Recreativo Filadélfia". Viajei por aquele rico momento do passado, recordando como aquele pequeno texto me ajudou a não renunciar, e a ressignificar e enfrentar melhor as pressões que sofria, as brigas com os professores, as decepções com colegas, o sentimento de solidão e de desamparo. O quanto meus escritos – e mais os derramados sambas-canções de sabor nelsongonçalviano que eu compunha na época – me ajudaram a tomar as primeiras grandes decisões da vida (tal como em Minas, em Londrina, Paraná, também não havia psicoterapeuta nesse tempo). Costumo pedir aos meus clientes que escrevam. Quando têm vontade de ter uma grande briga com alguém, e se sentem impotentes para tê-la, ou temem se perder pela palavra, peço que "ensaiem" antes, escrevendo, de modo a perceber melhor que sentimentos querem realmente expressar. Às vezes, sugiro que escrevam uma carta, sem a menor preocupação de forma – carta que, em princípio, jamais será enviada ao destinatário, e que examinaremos juntos, de forma a trabalhar os sentimentos presentes. Muitas vezes, depois de muita relutância em escrever – compreensível, pois entrar em contato com os sentimentos nem sempre é fácil – o cliente chega contando: "Escrevi a carta para ela. Pus tudo o que sinto. Fiquei surpreso, pois de fato foi muito bom!". Peço, então, que o cliente leia a carta, de forma a trabalharmos esses sentimentos na sessão, e aí a surpresa é minha: "Foi tão bom que mandei a carta e nem fiquei com cópia!".
Compor músicas tem função semelhante – por pior
compositor que você seja, é um compositor, pode ter certeza. Quando cursei
Psicologia, tínhamos dois anos de Estatística, e era uma das disciplinas
mais difíceis do curso, com professores rigorosíssimos – evidente
distorção curricular, pelo pouco uso que, sabíamos, iríamos fazer dessa
matéria na vida profissional. Tive uma briga feia com um dos professores,
que cometera erros grosseiros na correção das provas. Ganhei a briga, mas
a raiva restante ainda era grande, e no dia da última prova compus uma
marchinha que começava assim: "Adeus, Estatística, não quero mais te ver.
Não sei como te agüentei dois anos, Estatística. Por mim, você pode
morrer!". Ensaiei com alguns colegas, e cantamos no pátio da Faculdade
para os professores. Foi uma catarse das boas, um verdadeiro momento de "autocura"
do ressentimento e da dor... |
|
Ruy Fernando Barboza |