| As unanimidades nacionais |
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Por mais de três décadas, como servidor do legislativo federal, vivi sepulto num prédio que, a exemplo do mandacaru nordestino, não dava sombra nem encosto. O complexo arquitetônico da Câmara dos Deputados (onde entrei por concurso público, nunca é demais ressaltar...) é um espaço mastodôntico constituído de um prédio principal e mais quatro anexos. Era um penoso exercício conciliar o imenso amor que sempre tive por Brasília – terra dos meus filhos e netos –, e a inospitalidade dos prédios públicos projetados pelo nosso assim dito Arquiteto-Mor. Os desconfortos saltavam à vista e desafiavam o bom senso. E tinham seu coroamento na rampa helicoidal sem corrimão do Palácio do Planalto. A partir dela, tombaram pateticamente ilustres figuras públicas e madamas desprevenidas, com sérias contusões e fraturas em braços, pernas e outras partes consideráveis. E nada se podia fazer sem a autorização do criador que sistematicamente se negava – e continua se negando –, a permitir qualquer alteração que pudesse minorar o sofrimento e o desconforto dos usuários. Ainda bem que as residências, blocos de apartamentos e casas, não tinham a assinatura do nosso gênio, e isso nos permitia tocar a vida e a cidadania em paz e com dignidade, sem sermos submetidos à ditadura da forma sobre a funcionalidade, quando estávamos no que a Constituição chamava de “asilo inviolável do homem”, longe do ambiente do ganha-pão.
Salvo as palavras laudatórias de praxe, nunca ouvi
um só queixume dos usuários quanto à qualidade da existência que se levava
nos longos expedientes desenvolvidos naqueles edifícios. E isso sempre me
pareceu uma coisa intrigante. Até que me lembrei da ditadura imposta pela
Unanimidade Nacional, um costume tão nosso quanto Futebol, Corrupção e
Carnaval. O genial arquiteto era, e continua sendo, uma dentre as muitas
unanimidades desse país. Em seqüência, lembrei-me do decreto rodrigueano
que estabelece que “toda unanimidade é burra”. A última edição de 2002 de um dos nossos grandes semanários trouxe uma coletânea de frases marcantes pronunciadas no decorrer daquele ano por figuras notáveis e outras nem tanto. Entre elas havia essa pérola do Dr. Oscar Niemeyer, nosso gênio iluminado da arquitetura, primeiro sem segundo, cultuado aqui e no exterior (talvez mais lá do que aqui, possivelmente pela menor quantidade de projetos em terras estrangeiras), que disse o seguinte à revista americana Newsweek: “Eu não ligo a mínima para o cliente. Beleza e forma são os meus objetivos”. Em verdade, a versão original dessa obra-prima de sensibilidade humana foi uma declaração do tipo “estou obrando e andando para os usuários dos prédios que projeto”. O retoque fica por conta de tratar-se de uma publicação estrangeira. E a Nação inteira escuta isso em reverente silêncio, já que é estabelecido como dogma de fé a aceitação mansa e pacífica de tudo que venha da boca de qualquer privilegiado integrante da Unanimidade Nacional.
De mim sei apenas que o benefício da aposentadoria
foi extremamente saudável para a minha vida e minha saúde, desobrigando-me
do penoso convívio diário com aquela explosão de belezas e formas do nosso
genial arquiteto. |
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Luiz Berto |