| Entre o passado e o presente |
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Enfim chegamos ao século XXI, ao contrário do esperado por muitos adeptos das profecias de Nostradamus. Mas que século será este? Aquele propagado e cantado pelos hippies dos anos 60/70, bem representados pelos filmes Woodstock ou Jesus Cristo Superstar, ou o soturno e tenebroso Blade Runner? Eis uma bela encruzilhada! Vejamos o caso brasileiro. Observam-se em nosso país, ao longo do último quarto de século, intensas transformações na composição de sua sociedade. Mudanças que abarcam os mais variados campos, como por exemplo, o crescimento populacional, o incremento do número de mulheres no mercado de trabalho, os comportamentos e valores adotados pela população, o cotidiano de seus habitantes. No que se refere ao crescimento populacional brasileiro, ao contrário dos anos 60/70, quando as mulheres em período fértil – de 14 a 45 anos de idade – possuíam em média 6,7 filhos, hoje a mulher brasileira apresenta uma média de 1,4 filhos, o que significa estar apenas repondo o contingente populacional. Mesmo com essa baixíssima taxa de natalidade, similar às nações desenvolvidas, o Brasil continuará a apresentar incremento populacional nos próximos 30 anos, em face do grande contingente de jovens nas faixas etárias entre 15 e 35 anos de idade. Ademais, o número de jovens mães na faixa etária entre 14 e 17 anos continua sendo expressivo em nossa sociedade. Outro ponto importante a ser considerado com relação às alterações ocorridas na população brasileira é a diminuição da taxa de mortalidade. Hoje, a expectativa de vida do brasileiro aumentou em todas as regiões, com ênfase na região Sul, onde a média da expectativa de vida gira em torno dos 74 anos de idade. A projeção para as próximas décadas é o Brasil passar a ocupar a sexta posição entre os países de maior contingente populacional pertencente à terceira idade. Ao mesmo tempo, o processo de urbanização acelerou-se a ponto de termos hoje mais de 70% da população vivendo nas cidades. Cidades que nem sempre apresentam condições satisfatórias de abrigar a população residente. A construção de casas permanentes consideradas rústicas no Brasil, diminuiu de 5,4% para 2,7% nos últimos dez anos. A coleta de lixo apresentou uma melhoria na cobertura dos lares brasileiros, alcançando 84,4%. Até mesmo o sonho da casa própria, apesar de todo a crise econômica pela qual passa o país nas últimas décadas, não deixou de persistir no ideário da população brasileira. Se a população cresceu nesse período, os valores e costumes também acompanharam de certa maneira os acontecimentos. O ingresso à universidade continua sendo o anseio maior dos jovens brasileiros, ainda sob a influência maligna de possuírem maior probabilidade de serem aceitos socialmente, se obtiverem o título universitário. Com isso as instituições de ensino superior privadas apresentam crescimento vertiginoso nas últimas décadas. Entretanto, resta uma dúvida: o número de egressos do segundo grau é suficiente para a manutenção dessa diversidade de instituições de ensino superior? E o ensino oferecido é condizente com os sonhos acalentados por essa juventude? Um dos sinais demarcatórios na mudança da sociedade ocorre a partir da década de 90, quando a Internet, até então restrita a um reduzido número de instituições comerciais e educacionais, torna-se o canal mais importante na troca de informações entre os indivíduos, atingindo todos os rincões do mundo. Infelizmente, a Net traz em seu bojo um efeito perverso, a nossa velha conhecida: a desigualdade social existente na sociedade real. Agora, sob novo verniz temos, de um lado, aqueles que entendem e têm acesso à Grande Rede e, do outro, os que não têm direito à gama de informações propiciadas pela Net. Uma outra tendência detectada é a despersonalização dos indivíduos, creditada ao processo de globalização, que paulatinamente impõe um modelo de socialização dos indivíduos, massificando-os a ponto de transformar o seu modo de pensar, agir, vestir etc. em algo uno e pasteurizado. Exemplo clássico é hoje não mais ser possível distinguir, por um simples olhar, um grupo de jovens segundo a sua nacionalidade, pois todos vestem os mesmos estilos de roupas, ouvem os mesmos estilos de música e comem as mesmas junk food (vide MacDonald’s). Finalmente, não podemos esquecer que o crescimento das urbes brasileiras – e aqui estamos nos referindo especificamente à cidade de São Paulo – trouxe consigo não só a deterioração física do espaço urbano, como também a deterioração social. E dessa, o aumento da criminalidade é marca indelével. Mais contundente, porém, do que o próprio crime, temos a emergência de um novo problema: o medo dos cidadãos em circular pelas vias públicas. As percepções negativas sobre a cidade e, em alguns casos, sobre o próprio bairro em que se vive, trazem conseqüências concretas para a vida dos moradores, traduzidas em mudanças de comportamento e em medidas específicas destinadas a uma maior autoproteção. Essas medidas, em geral, consistem em prestar mais atenção às pessoas, andar mais atento, evitar certos lugares, ou, ainda, a atitude extrema de não mais sair à noite. Devemos, entretanto, salientar que tais atitudes preventivas, à medida que cresce a sensação de insegurança, podem vir a dar lugar a comportamentos mais ostensivos de caráter repressivo e/ou reativo, que só farão agravar o quadro já complexo da segurança pública. Exemplos dessa situação: o acelerado crescimento dos serviços de segurança privada e monitoramento por satélites de veículos, o porte de arma (legal ou ilegal), a reação violenta a situações adversas do cotidiano. A motivação para a adoção de tais medidas possui um fundamento de ordem subjetiva, associado ao sentimento generalizado de insegurança, presente em todos os segmentos sociais, embora também corresponda à existência de ameaças reais. É importante salientar que o sentimento de insegurança não é destituído de fundamento; no entanto, nem sempre é possível estabelecer uma correspondência imediata entre os locais de maior incidência de crimes e os locais avaliados como mais violentos pela população. As medidas de autoproteção, em geral, são tomadas por conta própria e estão relacionadas principalmente com o descrédito em relação à atuação dos órgãos de segurança pública. Coloca-se aqui mais uma vez a necessidade de se analisar e se buscar soluções para o grave e recorrente problema do envolvimento de policiais civis e militares em atividades criminosas, corroendo enormemente a legitimidade destes órgãos junto à população. O medo da violência somente tenderá a diminuir a partir do momento em que houver: – um fluxo confiável de informações da polícia para a comunidade (uma análise dos dados sobre os padrões e tendências da criminalidade local e quais as medidas mais adequadas para preveni-las, supondo assim maior capacidade de autoproteção da população); – um maior empenho por parte dos órgãos de segurança pública em mudar a percepção da população quanto à atuação policial, de modo que sejam vistos pelos pelo cidadão como instituições legítimas e confiáveis, o que desemborcaria no incremento da obediência generalizada à lei, inclusive por parte dos policiais que a violam.
Enfim, acreditamos que questionar, refletir,
apontar e exigir soluções é a forma de contribuirmos para minimizar o
processo de individualização em nossa sociedade, apontado, na encruzilhada
deste início de século, para a construção de um mundo mais humano, digno
de se viver. |
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David Morais |