acabaram-se as cervejas
mas eu continuo
não há nuvens e nem pássaros no céu

Larissa e Mariana comem maionese

estranhos invadiram a colheita de uvas
o guarda-noturno foi encontrado louco
asas de árvores nas cestas de lixos
morangos silvestres vagando no córrego


acabaram-se as cervejas
mas eu continuo

nuvens e pássaros no meu coração.

 
 


 
     
   
   

do meu poetar, retalhos de sentir
de sofrências. matizes e iluminuras
do meu poetar (gambiarras e azenhas íntimas)
de frágeis açucenas-brancas
do meu poetar, silêncio sem documento
de inventor do inexistente
eterno aprendiz da alma humana
plantador de sonhos atípicos
do meu poetar – vestígios de ausências
polindo poesilhas, asas, blues rueiros
e agnósticos espirituais tupí-davídicos
do meu poetar, conflitos com filtros
de esquizofrêmitos
crio salmos doentios e desabandono-me
resistindo – Sentidor do vinho-verbo
nesse tabuleiro do planeta húmus
como ovelha negra desgarrada de um hangar-mãe

Eu era feliz e não sabia

 
 


 
     
   
 

 


 
     
   
   

eu alertei os incautos e os insensíveis
disse-lhes palavras com medo de dizer
fui claro, sincero – injusto mas verdadeiro
e até apresentei minhas desculpas por estar no caminho das
vertentes
eu alertei-os, como pude
só não fiz sacar revólver ou ampulheta
porque violência não é do meu feitio
mas todos, tolos, estavam apressados
como monstros atrás de preços e modas
que eu tive nojo da vileza do consumismo deles
e candidatei-me, resignado, aos desígnios do anonimato
com nódoa
hoje vejo-os carregando traumas
renúncias, cicatrizes e frustrações
hoje vejo-os com os filhos perdidos imitando-os em tolices
e carências
mas eles ainda assim não se enxergam
porque acham que foram pais, e donos e vitoriosos
eles não sabem o que sabem
nem são aquilo que pensam que são
ou que pensam que pensam
votam mal
amam-se mal
perderam-se em esgotos de poses e em status de sítio
têm medo de pobres, de pretos, de prostitutas e comunistas
mas não se olham podres e piores do que realmente são
rejeitos da espécie
primatas pós-modernos
nesse nosso selvagem capitalismo-câncer
eu alertei-os, com poemas simplórios
mas eles estavam enfrentadores
como consumidores em potencial de berços esplêndidos
quando eu era apenas um rapaz latino-americano
tirando asas das algibeiras
escrevendo feito um obedecedor de verdades além do
ver-sentir comum
tenho pena dos filhos das plumas
dos órfãos da Canalha de 64
dos filhos bobos e rotos como os pais janotas boçais
talvez haja tempo ainda
talvez nem tudo esteja perdido
eu não sou visitador nem juiz
apenas escrevo feito um neo-escravo
com minhas indagações limites
e meus poemas como esparadrapos sujos de havência
eles ainda terão netos e ratos
continuação do que se revelaram
frustradas imitações de burgueses
e nem Deus terá piedade deles
eu alertei-os, como um trovatore terreal
mas eles estavam ocupados
lambendo-se de fósseis ocupações fúteis
e criando crias
eu alertei-os, confesso que alertei-os
mas eles eram surdas sepulturas mal-caiadas...

 
 


 
     
   
   

estamos todos presos na mesma cela
cada um com sua algema ou pílula
mas ainda apresentamos sinais vitais
e não nos detectaram fermento entre avenças
estamos todos presos na mesma cela
(a ogiva do fim pulsando tétrica)
mas ainda não temos total demência
porque nos parecemos iguais carcaças posudas
estamos todos presos na mesma cela
cada um escondendo sua identidade
o anjo recolhedor passa ouvindo
os nãos daqueles que se escolheram culpados

 
 


 
     
   
   

não acredite em tudo que você acredita
saiba a hora de ferir-se
ou de experimentar roupas de bailes

não há vencedores, nem vencidos
cada um é sua própria desculpa
quando se investe de recolhedor
não há honras no adeus
nem palavras de mando
sabemos nossos limites como asas
e nossas frustrações como erranças

há tempos de semeaduras
e a colheita contínua


nunca pertencemos a quem quer que seja
quando temos nossa própria maduração
viver é só um limite-aprendizado
que vai para muito além de uma lição

 
 


 
     
   
   

todos os poetas enxergam no ex-gótico

no ex-cloro
eu, por mim, sou pouco disciplinado
por isso mesmo careço de enfrentações
todos os poetas são desencarrilhados
sem-camisas
eu, por mim, tenho a técnica dos peixes
e isso pode não significar alhures
todos os poetas são cadafalsos ubres
como escombros
eu, por mim, sou como quartzo róseo no cosmos
e escrevo resquícios de poesilhas como um badame

 
 


 
     
   
   

hoje eu estive, um pouquinho, à sós comigo
sentei-me espreguiçadamente
e até assuntei-me num cismar
num canto ermo, tosco, sem qualquer sombra
quedei-me aéreo, anônimo
com minha intimidade paredemeia
olhei-me de uma forma que nunca olhara
senti-me um velho pelicano
depois esfreguei presenças em mim
surpreendi-me comigo mesmo; o reencontro
que desconhecido eu era?
tive medo daquele quase intruso
como estou Outro – como sou diferente
daquele piá vindo de Itararé
tão puro, inocente, simples e humano
achei-me ermitão sovado de endoenças
batido de sofrências íntimas
quase irreconhecivelmente estrangeiro
não tive pena, ódio, só desesperança
contemplei-me então transido
a resignação, o desígnio, o albatroz
depois entrevei-me num presépio-breu
quase vi minha identidade
na cédula célula-mater do meu não-Ser
(pobre de mim que me resto exílio
nessa dimensão sem gambiarras
escrevendo acontecências em polimentos
Deus tenha piedade de minha lavra
– blues, espirituais agnósticos –
e do que me resto sendo transfigurado)

HOJE EU ESTIVE A SÓS, UM POUCO COMIGO
E, CONFESSO: NÃO ME ENCONTREI EM MIM

 
 


 
     
   
   

QUANDO EU ME ILUMINO
DEIXO ATÉ DE EXISTIR
E NA POESIA QUE ESPIO
VEJO A HAVÊNCIA FLORIR
(ACHO QUE SOU ESSA LUZ

QUE NO ESCREVER SEI SENTIR)

 
 


 
     
   
   

onde os anjos guardam suas trombetas santas
senão nos píncaros da glória?
(acho até que os vi polindo várias espadas de luz
como se preocupados com babilônicas ogivas humanas)
onde os anjos afinam suas harpas cíclicas
senão nos píncaros da glória?
(acho até que os vi polindo espirituais em sânscrito
preparando celestidades para as honras do arrebatamento)
onde os anjos recitam seus sais de eclesiastes
senão nos píncaros da glória?
(acho até que os vi polindo sóis para amargedons
como se fossem treinados resgatadores de ceifas)
onde os anjos ornam suas angelicais grinaldas
senão nos píncaros da glória?
(acho até que os vi polindo açucenas sem babéis
como se preparassem entronamentos de reinos terreais)
onde os anjos decoram suas falanges aurorais
senão nos píncaros da glória?
(acho até que os vi polindo sacros blues rueiros etéreos
como se acostumados a rituais de inusitadas evacuações)

(onde escondem Missões de ocasionais colheitas entre nós
senão nos píncaros da glória?
– acho até que temi pelo fim da espécie-continuação
e me recolhi. desgarrado. ermitão urbano em poemas-asas.

 
 


 

 

     




 

 

Silas Corrêa Leite
Poeta, educador, jornalista. Pós-graduado em Literatura, Comunicação, Relações Raciais e Inteligência Emocional. Autor de Trilhas & Iluminuras, poemas, Editora Grafite (RS), 1995. Autor dos e-books (livros virtuais) Ele está no meio de nós e o pioneiro, de vanguarda e único no gênero chamado O Rinoceronte de Clarice – onze ficções fantásticas com três finais cada, um feliz, um de tragédia e um politicamente incorreto, (mais de 60 mil downloads), ambos no site www.hotbook.com.br/int01scl.htm
Site pessoal: www.itarare.com.br/silas.htm