Os cães ladram...
em agradecimento a ti,
formosa e bela,
cantada em versos
pelo nosso poeta maior.

Mas não ladram
os latrocidas
que de ti suprimiram
e assassinaram
a eloqüência
e o desejo ardente
de gozar a volúpia da expressão.

Os cães ladram...
Porque em ti encontraram
afeto, palavra amiga
e compreensão.

Mas na surdina ficam
os infames caluniadores,
que até isso te negaram,
exilando-te por décadas
nas masmorras do silêncio
qual verdadeiros empatas,
interrompendo o coito
com teu apolíneo verboso.

Os cães ladram...
pois são teus verdadeiros
e fiéis amigos;
de ti nunca se afastarão
e sempre te esperarão,
mesmo que um dia
transites em outras esferas.

Porém não te deixes abalar!
És Alberã!
Estás acima de todos eles,
os verdadeiros “hilstéricos”
cães raivosos.

... e a caravana passa.

 
 


 
     
   
   

Asas abertas
pontas com pontas
entrelaçadas.
Delta, na penumbra,
rósea quase prata.

Omoplatas
sob peitoral,
externo
sobre cervical,
equilíbrio axial

De bico em forma,
dominada a presa,
sorve leve a jugular
em surdos grunhidos,
como um reverbero
de abafados gritos.

É o carnal pouso
do guerreiro
sobre protuberantes cumes,
onde na caverna,
em fortes jatos,
sacia a sede
e em suaves bicadas
mata a fome.

 
 


 
     
   
   

Não percebi
o molhado monte
como se Vênus
estivesse a se banhar
em um lago do Olimpo.

Também não percebi
o pulsar
quase quasar
da esferóide
no vértice superior
labial,
dissonante
e descompassado
da canção.

Perceber, pelo menos,
deveria: contrações
e estremecimentos
em que a tensão escoava
e havia uma relaxação
no gerador de pulsos
devido à proximidade
necessária à execução
de cada difícil
evolução.

Teria que perceber, se atentasse
para aquele embaçamento de íris
onde as loucas meninas,
em movimentos frenéticos,
tentavam saltar dos globos.

Ou ainda se sentisse
minha jugular quase a se rasgar
num premer de unhas
como se um vampiro
preparasse um desfecho final
do sorvo de todo o meu sangue.

Como um galante tolo,
utilizava a técnica
da mordida de lábios,
na inútil e cavalheiresca tentativa
de evitar o volume
que se me aumentava nos baixos.

Enquanto os baixos
no baixo, em minha mente,
soavam como explosões
de granadas dilacerando corpos.

Qual idiota recruta
que se preocupa
em não errar o passo,
mantinha a mente
ocupada com o metrônomo:
dois pra lá...

De posse da deusa do baile,
indiferente ao seu rubor facial,
continuei dançando
e ela,
gostozando...

No último acorde,
contente com a performance
e distraído, nem sequer a beijei.

Só então percebi...

As dores agudas
nas vulcânicas partes
que ardorosamente ansiavam
expelir as flamejantes lavas,
só me deixavam a alternativa
do covarde gesto solitário
em que, na teatral fantasia,
tinha como apoteótica cena,
um dionisíaco baile.

Então,
ao som de gritos e gemidos
das desnudas coadjuvantes de Baco,
danceeeeeiiiiii!!!

 
 


 

  

     


 

 

Ronaldo F. Cavalcante
Mora em Salvador – BA. Tem 45 anos. É funcionário público, engenheiro civil, com especialização em Educação e mestrando em Engenharia Ambiental na UFBA. Ex-professor da Escola Técnica Federal da Bahia (CEFET) e Universidade Federal da Bahia. Tem um livro de poemas em edição: Gritos Contidos.
www.geocities.com/rfcavalcante