“... já não existo em alguns lugares”
Danilo Bueno

 

 

unha de cachorra
azulejo branco
                   sucumbe a trincas

embalagem vazia de mini cassete
                   abandonada sobre o móvel



mordida
ai!!

         anta
                 tapir
         anta
                 tapir

rato com fome
                   roendo o destino
rato com fome
                   roendo o disco do sol

anta tapir

tapete voador com traça
                   poeira de séculos escondida
                   traço trinca tapir

anta
        ata
táta
        tato
tapir

tudo está contido em tudo.

 
 


 
     
   
   

I

a fábrica
numa tarde
                   imensa
tijolos vermelhos

jaziam quarenta ventos
em postes iluminados
                   (vaga-lumes?)

trouxe-lhe um buquê de rosas
                   vermelhas
(na verdade era uma só)



falaram todas

um anel de uma pedra
                   a aliança se guardou
louças brancas no jantar

II

olha
embotado
                   (de sangue?)
o chão da fábrica

labirinto
de ladrilhos gastos e sujos

brinca
com os dentes expostos
                   encanamentos sobre a parede
                   qual vegetação

onde estão os brincos de ouro
o ouro das jaquetas nos dentes
ouro outro que luzia os seus olhos
teias de aranha
poeira secular
                   goteiras no velho telhado
a fábrica vazia
assim vazio o meu corpo
tal qual copas
no baralho aberto

o último suspiro
                   supera

retábulos
          rótulas
                   ritos

cruzes que se atracam
nuvem no céu escuro

dê-nos
o que não tem
                   a paz


III

a secura de teus olhos
não me olham
porque entre as pernas
tens um diamante
                   (rubi?)

eu preciso lançar-me em braços
quebrar todos os protocolos
                   mesas e cadeiras

dar-me ao duro corpo
“um copo de cólera”

dar-me ao mesmo duro dia
o nome de um dia

a semana passa
devastada de seus dias

                   balanço a cabeça

Nemo nunca se encontrou
mesmo o duro golpe
um gole de vinho

já te encontrei
outros dias
o gozo antecede
                   o medo

já te tive
como mulher tantas e outras vezes

sempre parece a primeira
sempre é tímido o corpo
sempre a minha senhora

dulcemente
envolver meu rosto
com seus cabelos

                   em espanhol seriam
                   sus pelos

 
 


 
     
   
   

1

haviam
tantos/todos
daqueles meninos
com luzes nos olhos



flores de laranjeiras
                    espinhos/arames farpados

muitos não tinham
para onde ir

outros menos pudicos
eram ali mesmo

era incenso
mirra e mel
carnaval/canavial

outros não

2

tudo
imaculadamente limpo
impiedosamente branco

outro arame
das cercas
cercanias anunciadas

água e sangue
tinto o linho/cânhamo/algodão

cheiro de álcool e éter

3

cheiro de terra
úmida
urina

balõezinhos
outrora noite
luzes de inverno

 
 


 
     
   
   

espirais cobrem meu corpo
despencam helicoidais
ideogramas/nanquim/pincéis
tatuagens
não breves sinais

rufar de tambores
febre cerebral/enxaquecas
furor
humor e tumor
dores fatais

não sei quanto tempo
sentado na praça
contando cachaça
bebendo desgraça

sem você
sou vazio e sem cenho
criança sem colo da mãe

me lembro quando amar
não doía
pérola na língua
vermelho carmim

agora carrego um olhar flutuante
choro lendo hai-kais

chuva sobre bambuais

tensão de garoa
uma lata vazia flutua no ar

um dia ouvi alguém que esqueci
sussurrou

em japonês
amor
se diz – ai –

 
 


 
     
   
   

1

orelha
de xícara asa
fino cristal porcelana

branca sobre a mesa
pequeno filete dourado

dourado o chá
o cheiro de erva doce
e bolo

perfume/manhã interrompido
chama e cigarro

2

cigarras cantam no jardim
sinfonia de cascas de árvore
bétulas e romãs
cinco anos sob a úmida terra
a pele antiga rompida/abandonada

nuvem de gafanhotos passa na janela

3

a terra/pedra cozinha no cadinho
metal incandescente e líquido
lavada com água tridestilada
a asa de corvo
alma luz polarizada

negro bloco de ébano
flor incrustada em pedra basáltica
gárgulas lanças de ferro/terra

fornos ardentes eternos
fogo contínuo
por mil anos queimando
                    almas e enxofre

4

água/ácido/sulfonados
destila nos beiros
água sulfúrica
sob chão de tábuas
pranchões lisos
chinelos de dedo pisam suaves

operários sem medo
percorrem alameda sem luz

5

por fim acordar assustado
para se perceber
ainda dentro do pesadelo

mosquito
zumbindo a noite
picando dentro da orelha

 
 


 

 

     






 

 

Edson Bueno de Camargo
Nasceu em Santo André – SP, em 24 de julho de 1962, mas suas raízes estão na cidade de Mauá – SP, onde mora desde seu nascimento.
Embora sua produção seja muito grande é um poeta praticamente inédito. Publicou em 1981, um pequeno livro em forma de fanzine intitulado Cortinas, com poesias suas e de Cecília A. Bedeschi. Poemas do Século Passado é sua primeira publicação individual. Mais recentemente, participou da antologia poética As Cidades Cantam o Tamanduateí que Passa, da Prefeitura do Município de Mauá com o poema “O Rio”. Publica junto com os amigos escritores da Oficina Aberta da Palavra, grupo de Mauá – SP, o fanzine aperiódico Taba de Corumé.
Foi membro do Colégio Brasileiro de Poetas, um grupo de poetas mauaenses, entre o final dos anos setenta e início dos anos oitenta. Ganhou o segundo lugar no 9º Epom, Encontro de Poesias de Mauá – SP, com o poema “Pequeno Poema de Amor para Cora Coralina” e menção honrosa no Concurso de Poesia Falada de Varginha – MG, com o poema “Tiro na Noite”.
No presente momento participa de projetos elaborados a partir da Secretaria Municipal de Educação Cultura e Esportes da Prefeitura de Mauá – SP, em especial do Núcleo de Literatura e da Oficina Aberta da Palavra – Inventário Poético da Cidade de Mauá.
www.secrel.com.br/jpoesia/ebcamargo.html
www.paralerepensar.com.br/link_edsoncamargo.htm