o corpo veste a alma
velho casaco de carne
como sentimento guardado
este amor por você

talvez continue acordado
ou há muito já durmo

não sei se a insônia mais tarde
não sei mais das minhas verdades
da rua molhada lá fora

da chuva inclemente
que cai

as fotos branco e preto na gaveta
amarelecendo

talvez minhas lágrimas exibam
o meu verdadeiro eu

saberei ainda
de seu beijo no escuro
da minha mão em seu sexo de novo
do cheiro de excitação

talvez volte a ser menino
corado de vergonha
aninhado que estou entre suas pernas
minha cabeça sobe seu ventre

quero ficar imóvel
o quanto agüentar

quero beber o fel com o vinho
e comer
o pão que sua mão amassou

 
 


 
     
   
   

quarenta vasos de louça
barro da terra lavrados
da morte e do caos nascido
argila e caulim trabalhados

quarenta anos se passaram
um novo século se rompeu
há muito se passou na aurora
a virada de saturno, o himeneu

quarenta tramas se emendaram
da fibra mais forte e reta
a vela da nau se completa
argonautas do novo horizonte

calado no cimo do monte
cismado do céu e da terra
quarenta anjos abrandaram
de Deus sua ira e cólera

quarenta corcéis cavalgando
em tropel, terra e poeira
quarenta trombetas soando
anunciam o início de nova era

 
 


 
     
   
   

sol que se cobre de sombra
nuvem borrão
cinza sobre a testa
vestido de humilde
de saco rasgado
imago do caos

esquecidos
ao seu tempo
homens perambulam sob o carregado céu

insones ambulantes
cabisbaixos em seu fadário

acho que já escrevi isto um dia
algum dia e outro dia
novamente agora
neste dia quase novo

olhando o próprio umbigo
como se este fosse o omphalos do universo
rezingando em autocomiseração

como quem busca
pelo próprio fim

 
 


 
     
   
   

bicho
lagartixa grudada no céu
de límpido cristal
parece

escamas de fogo
salamandra mítica/mística

globo ocular de fogo
órbita translúcida
vórtex no firmamento

nebulosa à noite
alaranjado/iluminado

olhos de rubi/rósea gema
impacto de lava
sulfúrea incandescente/granito

caldeiras de chama estrutural
ardem o fruto do ventre da terra
cozinha primordial/bestial

velocidades inflamadas do ar
dragão chinês a me fitar
carboniza, ouro e caos

no tombo da pedra/minério/granito
o fumo iridescente

coração de Maria
de amor a queimar

 
 


 
     
   
   

esta manhã
rompi com a chuva
libertei meus pecados/pedaços
de suas obrigações

(fugiram, nem olharam para trás)

esta manhã ainda
marchei para a guerra
como que não houvesse
qualquer direção
para a paz

teci o tecido mortalha
com o linho branco
da luz da imensidão

de uma lua amarela
tingi meu olhar
carreguei em meus braços
meu eu
morto no mar

as palavras da morte
escrevi em meu peito
sobre meu coração

 
 


 
     
   
   

bosque de abandonos
sol/sal da primeira hora
rugir do mar
onda no rochedo

camisa branca a refletir
a radiação luminosa
repele o mirar

Deus está com tédio neste dia
nenhum milagre, nenhum castigo

zoar de pés descalços
sentado no gramado

terçãs febris
turíbulos
fumaça/perfume

no céu lilás de marte
um sol carmim salmão
se despede

 
 


 
     
   
   

arqueia
torta/torre
sustento nobre
até que não sobre

sobre a rima
nada se pode fazer

fantástico fantasiado
pancake na cara
palhaço/palácio
picadeiro/tropel

rasga-se o véu
(novamente este verso repetido)

tulipas num copo
impressionismo absorto
retrato amarelo

remédio amargo
comprimidos de cabeceira
jazem no criado-mudo

o livro abandonado
a visão já não pode (pobre)

 
 


 
     
   
   

aberto o campo
verde
verte lágrimas

santo óleo e sal

santuário
iluminado ardente
reparo
soslaio

ossos brancos
ao léu
esquecimento

relicário natural
bandeiras
verdes e vermelhas,
procissão imperial

fitas azuis claras
aragem tropical
moldura do céu

 
 


 

 

 


   

 

     


 

 

Edson Bueno de Camargo
Nasceu em Santo André – SP, em 24 de julho de 1962, mas suas raízes estão na cidade de Mauá – SP, onde mora desde seu nascimento.
Embora sua produção seja muito grande é um poeta praticamente inédito. Publicou em 1981, um pequeno livro em forma de fanzine intitulado Cortinas, com poesias suas e de Cecília A. Bedeschi. Poemas do Século Passado é sua primeira publicação individual. Mais recentemente, participou da antologia poética As Cidades Cantam o Tamanduateí que Passa, da Prefeitura do Município de Mauá com o poema “O Rio”. Publica junto com os amigos escritores da Oficina Aberta da Palavra, grupo de Mauá – SP, o fanzine aperiódico Taba de Corumé.
Foi membro do Colégio Brasileiro de Poetas, um grupo de poetas mauaenses, entre o final dos anos setenta e início dos anos oitenta. Ganhou o segundo lugar no 9º Epom, Encontro de Poesias de Mauá – SP, com o poema “Pequeno Poema de Amor para Cora Coralina” e menção honrosa no Concurso de Poesia Falada de Varginha – MG, com o poema “Tiro na Noite”.
No presente momento participa de projetos elaborados a partir da Secretaria Municipal de Educação Cultura e Esportes da Prefeitura de Mauá – SP, em especial do Núcleo de Literatura e da Oficina Aberta da Palavra – Inventário Poético da Cidade de Mauá.
www.secrel.com.br/jpoesia/ebcamargo.html
www.paralerepensar.com.br/link_edsoncamargo.htm