Quando abriu a porta, o ruído se desfez em música...
harpas, avenas, violinos...
Tomou o café que esfriava e
ocupou a poltrona sempre vazia.

Um sol de verão se fez em pleno agosto.

Quando fechou a porta, o ruído ecoou absoluto
como um violino sem cordas
que se derruba acidentalmente ao passar.

Experimento o café frio,
sentado ao lado da poltrona vazia,
diante da porta que se fechou.

Um vento frio varre as folhas mortas em plena primavera.

 
 


 
     
   
   

Azul cobalto apagando-se no cinza:

nas minhas manhãs uma dor infinda

deslizam para tardes tão iguais.

O horizonte se avermelha um momento,

risca, uma luz, no escuro firmamento

imagem asinha que não volta mais.

Não volta. Volto os olhos para o infinito!

“Homem”, diz a noite, “cala teu grito,

acorda ao que deixaste para trás”.

 
 


 
     
   
   

Queria um verso leve
que comovesse velhos e crianças…
Não de uma comoção dolorosa, mas
suave catarse, doce epifania.
Suave e doce como a chuva que chega de mansinho
e nos convida a penetrar nela...
envolver-se...
diluir-se...
esquecer-se...

Queria um verso livre.
Livre a ponto de não precisar das palavras,
da palavra-conceito, da palavra-razão, da palavra-escrava.
Mas da palavra pura
quase onomatopéia,
que escorrega espontânea
como o marulho da águas ou a música do vento.

Queria um verso santo
a ponto de confessar os desejos mais inconfessáveis,
que soubesse purificar as ações
com a força da entrega absoluta
e da possessão mais completa.

Queria um verso louco
que suscitasse o infinito,
ousado bastante para ironizar toda condição.
Que fizesse tudo em ruínas
para exibir a milagrosa essência das coisas.

Queria um verso que te pusesse em pranto, sorrindo…
que valesse a vida e a morte…
que desse sentido às palavras…
e ao amor!

Queria… eu queria…

 
 


 

 

     


 

 

Dante Gatto
É professor da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e escreve poemas por força lírica das personagens que circulam seu universo ficcional..