Mamãe tinha um caderno marrom, de espiral, onde anotava contas, endereços, recados e, no meio de tudo isso, receitas que achava interessantes. Era aquele típico caderno "de cozinha", espelho da alma de muitas donas de casa, espécie de diário do quotidiano. Encontrei-o outro dia numa gaveta e pude refletir sobre alguns aspectos básicos de minha própria formação. Mamãe não gostava de cozinhar, o que se percebe pelas minguadas páginas do tal caderno, e isto me deixou como herança. Para ela, entretanto, o desgosto se tornou desafio, e ela acabou se especializando em alguns pratos de que eu muito gostava. Para mim, o ato de cozinhar continua sendo pura literatura e respeito profundo pelo talento alheio, talento este que, com certeza, poucas chances tenho de desenvolver. Assim, passo para o Caixote duas receitas curiosas – Cerveja Preta e Pipocas Deliciosas, – que nunca vi mamãe fazer, mas que certamente terão seu apelo aos que quiserem ousar, e duas mais comuns – a Carne de Vidro (na verdade Carne Louca) e o Panetone –, que mamãe fazia para o meu deleite de filha mimada.

 

 
   
 
     
 
   

 

Ingredientes

500 g de cevada
200 g de mel puro de abelha
50 g de lúpulo
200 g de gengibre cortado em pedaços
25 g [1 bastãozinho] de alcaçuz
2 kg de açúcar refinado
2 claras de ovos
¼ de copo de fermento para cerveja

Preparo

Deixa-se a cevada de molho por 3 dias, depois lava-se bem e deixa-se cozinhar durante 3 horas em 5 litros de água. Após, dá-se uma esmagada e junta-se mais 5 litros de água fervendo. Deixa-se novamente repousar por 30 minutos, depois coa-se em um coador de pano fino.
Em 5 litros de água fervente, junta-se o lúpulo e o gengibre, deixando-se cozinhar por 30 minutos, após coa-se e junta-se este líquido ao da cevada.
Em 1 litro de água fervente junta-se o mel e o alcaçuz, deixando ferver o tempo necessário para dissolver o bastão de alcaçuz; depois junta-se este líquido ao de cevada.
Queimar o quilo de açúcar até ficar bem escuro; após, juntar 2 litros de água fervente e mais 1 quilo de açúcar e deixar ferver por uns 10 minutos para que se dissolva o açúcar. Junta-se esta calda ao líquido da cevada.
Junta-se água fria que for necessária, a fim de perfazer 20 litros e deixa-se esfriar tudo muito bem.
Batem-se as 2 claras de ovo muito bem, até o ponto de neve; junta-se ¼ de copo de fermento de cerveja; dá-se uma mexida e despeja-se no líquido da cevada; mexe-se bem para que o fermento dissolva e a seguir cobre-se o recipiente com um pano; amarra-se e deixa-se fermentar por 48 horas, mas de 6 em 6 horas vai-se tirando a espuma que se vai formando em cima.
Após fermentada, filtra-se a cerveja e engarrafa-se, depois deixa-se em repouso durante 5 dias em lugar fresco. Estará então pronta para ser consumida.

Nota: ao engarrafar, usam-se sempre rolhas novas e bem fervidas no ato do engarrafamento.

Tempo de conservação: 15 dias, sem álcool; juntando-se 100 g de álcool puro 95 graus no ato de engarrafar, sendo isto a vontade do fabricante, conserva-se por mais tempo.

 

 
   
 
     
 
   

 

Ingredientes

½ kg de açúcar
½ kg de araruta
5 claras
1 colher (de sopa) de amoníaco em pó
1 colher (de sopa) de suco de limão

Preparo

Bata as claras em neve, com o amoníaco em pó, e junte o açúcar, o limão e a araruta. Amasse tudo muito bem e faça bolinhas bem pequenas, devido o seu grande crescimento. Leve ao forno quente para corar.

 

 
   
 
     
 
   

 

Ingredientes

1 ½ kg de lagarto
1 copo de óleo
1 copo de vinagre
3 dentes inteiros de alho
½ copo de água
4 cebolas
azeitonas

Preparo

Pôr na panela de pressão todos os ingredientes, menos a cebola e deixar ferver por meia hora. Retire a carne da panela de pressão e deixe na geladeira por algumas horas. Leve para fatiar na máquina em uma padaria. Com o caldo que ficou na panela, cozinhar as 4 cebolas, deixando-as até que amoleçam. Retire o caldo do fogo e coloque as azeitonas.
Em um vidro grande, como fazia minha mãe, ou em um pirex, alterne camadas de carne e de molho. Tampe e conserve em geladeira para consumir fria.

 

 
   
 
     
 
   

 

Ingredientes

5 xícaras de farinha de trigo
4 colheres (de sopa) de açúcar
1 colher (de chá) de sal
2 ovos
2 colheres (de sopa) de manteiga
1 colher (de sopa) de banha
50 g de fermento biológico
1 ½ xícara de leite
1 cálice grande de vinho do porto bom
100 g de passas grandes sem caroço
doce de laranja e de cidra em pedacinhos

Preparo

Dissolva o fermento no leite morno e amasse com a farinha de trigo. Depois vá juntando os outros ingredientes, menos as passas e os doces e amasse vigorosamente até formar bolhas. Junte então as passas e os docinhos. Coloque em fôrmas de panetone bem untadas com manteiga e deixe descansar por 2 horas. Leve então ao forno bem quente.

 

 
   
 

 

     


 

 

Liz Mercadante
É editora d'O Caixote.