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Mamãe tinha um caderno marrom, de espiral, onde anotava contas, endereços, recados e, no meio de tudo isso, receitas que achava interessantes. Era aquele típico caderno "de cozinha", espelho da alma de muitas donas de casa, espécie de diário do quotidiano. Encontrei-o outro dia numa gaveta e pude refletir sobre alguns aspectos básicos de minha própria formação. Mamãe não gostava de cozinhar, o que se percebe pelas minguadas páginas do tal caderno, e isto me deixou como herança. Para ela, entretanto, o desgosto se tornou desafio, e ela acabou se especializando em alguns pratos de que eu muito gostava. Para mim, o ato de cozinhar continua sendo pura literatura e respeito profundo pelo talento alheio, talento este que, com certeza, poucas chances tenho de desenvolver. Assim, passo para o Caixote duas receitas curiosas – Cerveja Preta e Pipocas Deliciosas, – que nunca vi mamãe fazer, mas que certamente terão seu apelo aos que quiserem ousar, e duas mais comuns – a Carne de Vidro (na verdade Carne Louca) e o Panetone –, que mamãe fazia para o meu deleite de filha mimada.
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