Quando nasci tinha um irmão de sete anos chamado Mário. Quando completei um ano ele morreu. Fui crescendo, e volta e meia via minha mãe conversando com um gafanhoto verde, quase sempre pousado numa colherinha de açúcar. Não achava estranho que minha mãe gostasse tanto de gafanhotos verdes, pois eles também me fascinavam! Estavam sempre por ali e me faziam sentir felicidade.

Quando cresci, minha mãe, pai e tias me contavam histórias do Mário. Ele era profeta. Fazia previsões, falava coisas que ninguém entendia, mas, quando se referia a mim, sempre em tom de vaticínio, enchia a todos de curiosidade sobre meu futuro. Falava que veio só para me “encaminhar”.

No dia de sua morte, convocou a todos e os confortou, dizendo que sua missão estava cumprida enquanto avatar encarnado e que daqui pra frente, estaria presente sempre que necessário na forma de um gafanhoto verde.

A família católica achava tudo muito estranho e não se conformava com a morte do menino que parecia santo e era tão querido.

Desde a hora de sua morte até o enterro houve um enxame de gafanhotos, tanto em casa como no cemitério.

Assim, desde então eu sempre tive com quem conversar e a quem fazer perguntas e ser confortado nos momentos de angústia. Até hoje, nunca fui infeliz ou só. Nunca tive que negociar a dignidade ou sofrer algum ultraje. Nunca passei – nem por um minuto – fome ou sede. Já estive à beira de grandes acidentes e de todos escapei miraculosamente. As grandes injustiças não me alcançaram.

Por tudo isso, venho pela vida com uma urgência urgentíssima em ser útil. Em buscar e registrar a beleza onde quer que ela esteja. Vivo de beleza!

Tenho encontrado fontes de beleza até onde parece impossível! Sou um implacável caçador e colecionador de belezas... um filtro de nódoas, uma usina que processa incompreensões!

Sou feliz e fabrico felicidade. Sou pobre e rico ao mesmo tempo; mas feio, nunca!

Aos que acaso faço infelizes é por pura distração... peço perdão. Essa distração ocorre quando foco. O foco é ofensivo... por isso procuro estar quase sempre fora de foco!

Pulei da infância à idade adulta num passe de mágica, pois não tinha tempo nem guarida para adolescer. Assim, bem cedo tive que nortear meu futuro por conta e risco próprios, tomando decisões de grande importância e tendo que assumir inteira responsabilidade sobre meus caminhos.

Das grandes decisões que tive que tomar e medos que tive que vencer na vida, vou contar duas:

Certa feita estavam diante de mim dois caminhos, um à direita e outro bem à esquerda. Tendo inapelavelmente que escolher chamei meu gafanhoto. Ele me disse para pegar um dos caminhos e seguir sem olhar para trás. Pedi que me ajudasse na escolha, pois sabia que não podia errar. Ele se recusou, para meu desespero. Disse que a escolha tinha que ser minha. Porque senão o mérito e o ônus seria dele e não meu. Me senti abandonado, decepcionado e furioso. Implorei para que me desse ao menos uma dica. Ele então disse: "Pega um dos caminhos e quando chegar a hora que puderes olhar para trás, terás então a certeza... Se vires um deserto calcinado, o caminho estava errado. Se, por outro lado, vires um lindo jardim cheio de frutos, o caminho estava certo".

Noutra ocasião o gafanhoto me convidou para um passeio. A certa altura, nos deparamos com um pântano tenebroso e eu parei estarrecido. Então ele pegou minha mão e disse que tínhamos que atravessar. Hirto de pavor com a escuridão, o lodo e os sapos roçando minhas pernas, parei desconfiado. De quem era mesmo essa mão que me guiava por tão estranho caminho? Disse: "Não consigo ir mais além, tenho repugnância por sapos..." Aí ouvi um sussurro: "Se há muitos sapos aqui é porque não tem cobras".
Tomei a decisão de bendizer os sapos e seguir em frente. Aí o pântano simplesmente desapareceu.

Não acho que sou privilegiado. Creio que todos temos nosso gafanhoto. Basta achá-lo nas brumas mais claras da alma, onde o foco é apenas um dos aspectos na composição do quadro. Uma ferramenta na interpretação das vidas – interna e externa – e nunca o fim em si. Em si mesmo o foco congela tudo e não deixa fluir o rio de espelhos da nossa mente.

Agosto, 2003

 

 
   

 

 
     


 

 

Rui Faquini
Nasci em Morrinhos, estado de Goiás, em 1943. Isso era num tempo em que o acesso ao interior brasileiro era difícil e escasso. Assisti e participei da construção de Brasília. Morei em alguns países que me deram uma visão mais universal. Foram eles: Irã, Japão, onde me iniciei na fotografia, a antiga Iugoslávia, onde fiz minha primeira documentação fotográfica. Passei pela Suíça, Inglaterra e Itália onde me aprimorei em estúdios de fotografia. Voltei com a finalidade de documentar as particularidades da cultura e paisagem brasileira, especialmente nas regiões Centro-Oeste e Norte. Tenho um estúdio em Brasília, onde atendo diversos clientes na área de publicidade e mantenho o arquivo das imagens colhidas nos últimos vinte anos.



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