Lá estava ela a refletir sobre os infindáveis e intricados porquês que lhe tiravam o sono. Sentia uma dor íntima e enroscava-se em seus pensamentos confusos, num turbilhão de idéias. Pobres idéias efêmeras que não preenchiam o vazio daquele momento. A respiração trancava-se por entre os lábios numa amarga e ressequida dor. Desgrenhados sentimentos de inutilidade que se avizinhavam. Sentia uma dor n’alma que mais se assemelhava a exaustão. Estava triste, uma tristeza vinda de onde ela não sabia... Procurava encontrar a resposta exata ao infindável cansaço que adormecia o corpo. Nada. Só o vazio de quem não aprendera com os erros e os acertos da vida. O que fazer então? Não tinha a resposta e de novo a dor vermelha e penetrante que lhe rasgava o peito. O coração batia em compassos descompassados. O corpo amolece e entrega-se. O tempo passa... A madrugada, como de quando em vez, vem gorda de agonias. O peso do tempo desatento ao ritmo, sufoca os mais leves pensamentos. Debruçada sobre si mesma, pesa-lhe a cabeça, e atônita olha o chão de pedra envelhecida e gasta, por um olhar já embaçado pelo amargo dissabor. Um gosto sem gosto. Desgosto. O que poderia mudar? Não sabia. Só sentia. Não compreendia, só percebia... E como percorrer este trajeto encorpado de folhas secas com se fossem mil existências perdidas. Quantas trilhas não percorridas. Quanto abandono dos sonhos de uma vida. Não se apaga o indelével. Como destruir o indestrutível? Tantos desencontros, e quantos fragmentos de falas incompreensíveis. Onde anda a verdade que sossega e o alento que acalma? Como sugar do chão seco a seiva da vida? O que fazer quando se perde o sentido e o significado do significante? Não sabia, pois ainda navega em mares revoltos. Busca a paz do infinito numa finita e pesada existência. Quem sabe, rasgue o pesado véu que impede de sentir o prazer da vida e encontrar o verde da relva, o brilho prateado das águas da cachoeira e banhar-se sem medos, desnudada pela alegria e possuída pelo prazer de viver.

 
 


 
     
   
   

 

 

O quarto escuro, as janelas fechadas e pouca ventilação. Deitado, ele se entregava ao desencanto da vontade perdida. A dor n'alma fragilizava suas forças. Lamentava-se... um longo lamento... falas de solidão.

Na mesa ao lado, um maço de cigarro e, no cinzeiro de um verde opaco, restos de cinzas. O cheiro era forte, não só da nicotina que impregnava o ambiente, mas o odor forte da desilusão, do desencanto de uma alma sofrida revelando um cenário marcado pelo sofrimento de quem desconheceu a ventura de ser feliz naquele instante.

Palavras de estimulo, de compreensão, de paciência eram ditas, mas João não conseguia entender. Mostrava-se atônito diante do próprio desengano e derramava o seu olhar perdido pelos cantos do quarto escuro.

A tristeza do ambiente assinalava o momento de angústia que assolara a porta do apartamento de Márcia. Aflita, ela se contorcia em dores infinitas pela certeza de sua incapacidade de prover esperança. Abraços, gestos trêmulos pelo medo de não compreender a angústia que tomara conta de seu amante. Tentava reconfortá-lo numa impensada ilusão.

Lágrimas afloravam aos olhos de João, que desalentado e empalidecido pela enfermidade d'alma, pedia ajuda... e assim, durante muito tempo, mergulharam na solidão do momento... aqueles amigos sequer se aproximavam, dando a impressão de que a dor assusta.

Foram longos dias mediados por penosas noites maldormidas. Márcia amparava João na tentativa de fazê-lo sentir-se vivo. Buscava em suas preces a fortaleza dos que têm a fé, tentava sustentar-se na leveza dos pássaros e recorria à força de sua vontade para propiciar momentos de amorosa relação.

Demorou bastante tempo.

Márcia, com João e os filhos, tributaram de amor os danos causados... muito embora ainda existam vestígios de um tempo marcado pela intensidade da dor revelada na solidão.

 
 


 
     
   
   

 

 

Meio-dia. O sol escaldante. O suor corria a cântaros. Sentada em um barranco, coberto por uma tábua de madeira, esperava o carro que viria me buscar. Naquele dia fui visitar uma amiga que morava num bairro da periferia. Estava doente. Lastimável situação. Ela me parecera tão debilitada e indefesa! Enquanto esperava, recordava a cena anterior.

Ao chegar à porta de sua casa, bati levemente. Sua irmã atendeu.

– Olá! O que deseja? – disse num tom frio, e, com um olhar desconfiado, abriu a porta. Já nessas alturas, sentia-me desconfortada pela seca recepção.

Sua irmã, uns dez anos mais velha, era quem cuidava dela. Denotando impaciência, ajeitou o avental azul, desbotado pelo uso. Não sei se foi impressão minha, mas achei que seu tom era de alguém irritado, ao dizer-me:

– Entre. Madá está no quarto. Cuidado para não pisar no fio do ventilador – alertou, apontando para o chão de cimento esverdeado.

– Obrigada, mas onde fica mesmo o quarto? Não conheço a casa – disse, constrangida pelo seu tom de voz.

– Dobre à esquerda logo aí, depois do armário – ela falou com frieza.

O armário a que se referia era um pequeno móvel de madeira escura. Chamou-me a atenção pelo detalhe de sua forma. Parecia uma arca antiga já desgastada pelo tempo.

Entrei no quarto. Sombrio. A cortina da janela basculante era improvisada com um esgarçado lençol azul-marinho, usado para evitar a claridade. Um cheiro de éter exalava por todo o aposento, impregnando as paredes, os objetos. Fiquei um pouco tonta. Geralmente odores fortes me incomodam.

– Oi, Madá! – dirigi-me a ela, observando seu semblante pálido, marcado pela dor.

– Olá! – respondeu fragilmente. Sua voz denotava um tom de desconforto.

– Madá, trouxe o retrato da turma, como você pediu. – E tirando-o da minha bolsa de couro, o entreguei.

Para sentar-se na cama, ela fez um esforço que me pareceu gigantesco, em face de sua debilidade física.

Continuei como se não houvera percebido.

– Veja, a Laura está grávida do segundo filho. Ela pediu que avisasse que da próxima vez virá. – Dizendo isso, passei minha mão direita em sua cabeça, afagando os seus cabelos, já escassos pela quimioterapia. Ela aceitou placidamente o gesto de ternura.

– Se houver oportunidade, pois estou muito fraca. Minhas pernas já não respondem ao meu comando, e minha cabeça dói continuamente. E essa dor no peito! – balbuciou baixinho, crispando seu semblante, outrora juvenil.

– Deixa de falar tolice, Madá – repliquei.

Foi quando, olhando mais fixamente, encarou-me expressando a sua dor e a noção de seu tempo:

– Não me subestime, Márcia. Espero que esta aflição não se alongue. A dor é insuportável! Não vale a pena sofrer inutilmente. Quisera poder fazer alguma coisa, mas não tenho ânimo. – Respirou com dificuldade e continuou: – Essa sensação me deixa perturbada. O jeito é a resignação. E tenho buscado isso na fé. Mas, como você bem sabe, sempre fui muito distraída!

Ao terminar de falar, suas mãos trêmulas procuravam um copo de água, colocado na mesinha de cabeceira. Pude observar rapidamente que tinha uma caixa de remédios, uma vela de sete dias, uma Bíblia e a foto que lhe dera.

De súbito, entrou sua irmã.

– Madá, está na hora da injeção! – E num gesto rápido afastou minha mão de sua cama.

– Sinto muito, mas é preciso, senão ela não suportará as dores. Você me permite?

– Claro – respondi meio desconcertada. Segurei minha bolsa e fui saindo do quarto. Foi então que ouvi sua voz quase inaudível:

– Márcia, abrace as meninas por mim. Sinto muito! – disse, desculpando-se por não poder dispor de mais tempo. Seus olhos marejavam e ela olhou-me como que dizendo adeus.

Saí. E, carregando a tristeza, sofri profundamente pela inexorável finitude humana.

 
 


 
     
   
   

 

 

Corpos que se enlaçam num abraço mudo... silêncio... infindáveis murmúrios. Corpos quentes, suados, sôfregos crepitando de prazer... Ah! O prazer do êxtase de quem sente o infinito. Nesse jogo paradoxal onde a ternura e a violência se diluem em gestos inconstantes, nos encontramos... meio que zangados mas enternecidos com o encontro. Os dedos ágeis se misturam na busca de cada canto e recanto de nossos corpos... O quarto, cúmplice silencioso, acolhe nossas buscas... cada vez mais insolentes. Ah! De quanta insolência o amor se veste e se descobre no desnudamento das nossas resistências! E, nesse instante de desvairado amor, ouvimos nossos sussurros cada vez mais inconvenientes se escutados fora da noite e do nosso quarto. Suados... cansados e intrépidos não paramos e nesse tempo circunstante de delírio, nos despedaçamos de amor, prolongando-se indefinidamente naquele momento. Nossos corpos desnudados se fartam em mil infinitos prazeres. Ah! Que espécie de graça nos oferece a natureza! O gozo... o encontro de quem faz amor e sexo sem censura. Percebo que o tempo, naquele momento, pára... eterniza-se num segundo e, então é que descubro a mortalidade do prazer sentido quando ele se desvanece.

 
 


 

 

     


 

 

Regina Lúcia Barros Leal da Silveira
Cearense, professora da Universidade de Fortaleza, UniFor, membro da Comissão de Avaliação Institucional dessa universidade. Membro da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil – Ajeb que estará lançando uma antologia nacional no dia 22 de Abril, da qual faz parte com uma crônica. Mestre em Educação. Escreveu artigos para revistas especializadas, livros e crônicas. Está com um livro no prelo.