Não se pode mais sofrer do fígado como antigamente. Querem mudar as regras do jogo.

Durante anos ouvi minha mãe queixar-se de incurável boca amarga, naturalmente devido ao fígado, ou, por questão de vizinhança, à vesícula. Como ela sabia? Aprendeu com minha avó que aprendeu com sua mãe. O fel do fígado se combate com o amargo da erva. Por isso, mantinha, junto ao filtro d´água, uma infusão de boldo ou losna para ser tomada aos goles, durante dias ou semanas. Podia não curar, pois fígado é assim mesmo, mas melhorava inevitavelmente. Muito lógico!

E minha tia? Tão nova e tão entupida. O intestino funcionava mal, mas tudo se resolvia, pelo menos temporariamente, com um colagogo indicado por farmacêutico formado: epagogo ou eparema. Coisa estranha essa palavra colagogo. Cola e gogo. A cola deve ser por causa da bile viscosa e colante que a gente vomita na crise de fígado. O gogo ninguém me explica. O caso é que o remédio resolve o problema. Quer prova maior do que essa, de que se o fígado ou a bile vão bem, os intestinos também irão?
Meu pai, coitado, era censurado por tomar seu aperitivo na hora do esperado almoço do domingo, pois o castigo por tal prazer seria uma enorme dor de cabeça e má digestão. Dor de cabeça de fígado, bem entendido. Prova disso é que só melhorava quando se deitava em quarto escuro, depois de deixar-se aplicar uma necroton ou xantinon ou acrosin, todos tradicionais e sagrados antitóxicos do fígado. Nada como um antitóxico para perdoar esses pecadilhos da mesa domingueira.

Enfim, qualquer família podia sofrer do fígado, de pai para filho, desde 1822, sem que isso causasse sobressaltos às vítimas. Tão importante quanto ter um viçoso pé de guiné para proteger as finanças domésticas, era manter cuidadosamente um pé de boldo ou losna ou jurubeba para as urgências hepáticas.

Agora dizem que não é mais assim.Tudo funciona separado. Doença do fígado é vírus. Doença do intestino chama-se colo irritável. Vômito é refluxo.

Enquanto estou na sala de espera, centenas de folhetos ficam à disposição, revelando minhas verdadeiras doenças. Dividiram minha barriga em duas partes: do umbigo para cima tenho refluxo, do umbigo para baixo colo irritável. Com direito à endoscopia em ambos os andares.

Mas, se eu me queixar do fígado, como sempre fez minha família, o doutor vai me pedir exame para o vírus C e me presentear com uma das alternativas, hepatite, cirrose ou câncer. É o que diz o folheto. Radicalizaram. Então, do fígado não me queixo mais, e vou escamoteando meus sintomas.

Quando fui à consulta, resolvi optar pela doença mais simples e menos perigosa e entrei logo no assunto.

– Tenho refluxo.

– Quem fez o diagnóstico?

– Eu mesmo, conforme as informações do folheto aí na sala.

– O senhor não pode fazer diagnóstico com tudo que lê. Isso não é assim – bronqueou o doutor.

– Quer dizer que o folheto está passando informações erradas?

– Não. O senhor faz as queixas e eu o diagnóstico.

– Então pra que o folheto com o nome da doença, instruindo as queixas e o diagnóstico?

– Vou explicar.

Não explicou porque não tinha tempo, mas me deu uma segunda chance, apesar disso. Aproveitei.

– Na verdade, doutor, eu sofro do fígado.

– O senhor tem hepatite C ou B?

Calei-me. Se minha mulher viesse comigo, ou melhor, minha mãe, eu não teria sido tão desconsiderado. Desinteressei-me da consulta devido ao desacordo entre o doutor e eu. Saí pior do que entrei.

E agora? Quem vai cuidar da minha boca amarga, do verde que me colore a pele quando vomito bile e derreto o fígado?

 

 
   

 



 
     

 

Heitor Rosa
Nasceu em Urutai (GO) e reside em Goiânia. Médico, professor titular de Gastroenterologia na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás. Residiu alguns anos na Europa (Londres e Paris), onde fez pós-graduação. Foi colunista do Jornal da Associação Médica Brasileira (SP), para o qual escrevia crônicas sobre a vida universitária. Seu primeiro livro foi Histórias agudas e crônicas: do apêndice ao avião (1996). A seguir publicou Os ossos do coronel Azambuja e outras mentiras (1997), pela editora Fábrica do Livro, com prefácio de Moacyr Scliar. Em 2000 publicou O enigma da Quinta Sinfonia, pela editora Escrituras. No prelo, pela Prêmio Editorial, encontra-se o último livro Memórias de um cirurgião-barbeiro.