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Parecia que eu entrava num túnel do tempo. Na fila do teatro, aquela senhora bem vestida, maquiada, e com ar autoritário, trazia-me a viva imagem de vovó. Olhava-a com tamanha insistência que ela chegou a levantar a cabeça num gesto como se perguntasse "por que me olha?" Era a vovó de minha adolescência, ainda com a pele lisa, no início de seu outono. Entrei no teatro, pensando naquela fase da minha vida. Revia vovó nos seus variados matizes... No decorrer da peça, me vi vestindo as fantasias que ela confeccionava, festejando os aniversários que ela preparava, sorvendo o licor de jenipapo que era sua especialidade. Ouvia também as suas gritarias quando se zangava, as discussões com bisa, Jarbas... E via suas lágrimas quando relembrava as jovens e lindas filhas que partiram num prazo de uma semana, vítimas de uma epidemia que assolou a cidade. Dor dilacerante, sem palavras que possam definir. Não me perguntem como foi a peça, nem sobre a interpretação dos atores. A peça foi a lembrança da vida de minha avó, e a influência que teve sobre a minha. A atriz principal era ela. Altiva, bela e mais viva que nunca.
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Acorda, Elza Maria! Lá fora faz um frio como há muito não sentíamos... Há casacões e boinas enfeitando as moças nas ruas. Chocolate quente é toda hora pedido nas casas de lanche. O clima propicia encontros amorosos, aconchegantes... Elza Maria, levanta dessa cama! Tudo é transitório. Reage! Essas dores passam, as cicatrizes tornam-se tênues. Não penses que é o fim. É uma etapa. Já viveste tantas lutas e talvez mais difíceis. Por que essa intransigência agora? Por que dizes não? Hoje fiz teus curativos e observei melhoras. A febre se foi... restou esse cansaço, bem sei. Trouxe um ramo de flores que deixei na sala e um tercinho, lembrança de bisa quando eu ainda era criança. Coloquei na mesinha ao lado da tua cama. Olha e vê como ainda parece novinho. Há olhos te espreitando. Olhos de amor, que te chamam para a vida! Priscilla logo chega e com ela tua estréia como avó! Acorda logo, Elza Maria! Sem ti estamos tão sós, a vida é tão sem graça... Sequer coloquei o mantô que comprei em Manhattan. Achei um desaforo fazer isso sem estares por perto. Sairemos juntas, em alto estilo! Coloca aquele que comprou em Paris. Acorda! Antes que venha o sol.
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Não sabia como usar as palavras, de forma a não chocar, na minha brusca iniciativa de romper um relacionamento de vinte e cinco anos. De repente parecia que havia nuvens dispersas em todas as áreas por onde transitasse. Uma sensação de inutilidade, de beco sem saída... A única explicação plausível estaria no enfraquecimento desse caso de amor. Havia perdido toda a essência. Insosso, sem ritmo, vazio. Então, fantasiei-me de lamúrias, deitei no sofá fingindo ânsias do que já não existia, para que desse o exato tom: provar que nada mais havia para que continuássemos naquele faz-de-conta. Ele me olhou fixamente, levantou as sobrancelhas e disse que ultimamente eu estava parecendo maluca, e disso ele andava farto. Ainda frisou que, a bem da verdade, não tinha mais nenhum tesão por mim. Pior é que o danado estava bonito! Naquela jaqueta importada... com perfume Calvin Klein... Fechou a porta, e através da janela ainda o vi dobrar a esquina. Seu cheiro impregnara o quarto, enquanto uma perplexidade incomensurável tomava conta de mim, sem nenhuma cerimônia.
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Dona Nara preparava o chá, enquanto conversava comigo. Costumo visitar essa amiga de quinze em quinze dias. Tem 87 anos. Sei que sente um prazer imenso com minha visita. Aproveito para declamar, ler textos de Clarice Lispector, que ela adora, e colocar o papo em dia. Ela também gosta de umas fofocas, e isso só consigo levando uma das revistas semanais que falam sobre a vida de artistas. Esta semana tive uma surpresa. Ela, sentada, tomava chá, e eu me deliciava com o bolo de chocolate e nozes que havia preparado para mim. Não aceita essa minha história de colesterol alto. Diz que ando cismada. De repente, quando ela começou a falar, percebi uma mudança em sua expressão facial; senti o tom da voz estranho, meio choroso... O que viria? Fiquei nervosa, esperando alguma notícia sobre doença, depressão, qualquer coisa ruim. O que ela contou pegou-me de surpresa. "Sou uma pessoa feliz, tenho meus filhos e netos. São presentes, amorosos. Meu companheiro já se foi, deixando uma saudade que nunca se extinguirá. Acredito no reencontro. Isso ameniza a perda. Ainda vejo seu sorriso, ainda sinto suas mãos, após quinze anos de ausência. Mas o que mais me doeu na vida não foi sua partida." E prosseguiu a narrativa. "Meus pais morreram cedo. Tinha sete anos quando um partiu após o outro. Um tio me adotou. Sua filha era da minha idade e brincávamos, éramos amigas, enfim, éramos crianças. Uma tarde, meu tio chegou em casa com um embrulho para ela. Quando abriu, vi quatro lindos vestidos trabalhados no peito com 'casinha de abelha'. As cores eram lindas! Azul, rosa, branco e verde. Claro que pensei que um dos vestidos fosse para mim. Mas qual! Todos foram para Julieta, que os vestiu sob o olhar admirado de meus tios. Não me olharam, esquecidos que ali estava uma criança carente, cheia de ansiedades... Foi o dia mais triste de minha vida. Até hoje tenho mágoa dele. Como pôde tratar uma criança daquela forma? Chorei todas as lágrimas naquele dia, vendo minha prima desfilar com os quatro vestidos." Fiquei ouvindo-a. Até que me restabeleci e disse: – Amiga, tudo era ignorância, ele não pensava que o fato pudesse gerar tanto trauma. Muitas vezes pequenas coisas deixam marcas tão profundas na vida da gente, mas como os outros podem pressentir isso? É claro que um dos vestidos deveria ser dado a você, porém se ele não teve essa percepção, que você consiga se livrar dessa mágoa. Já é mais que tempo! Ela, então, falou: – Nunca! É algo que está arraigado em minha alma. Levarei comigo. Tinha que contar a alguém apenas para me aliviar um pouco. E continuamos o chá. Comi metade do bolo, ela riu muito das fofocas que contei sobre os artistas. Na próxima semana, irei ao chá levando uma camisola azul-celeste, toda trabalhada com "casinha de abelha" no peito. Pedi a uma vizinha, que adora esse tipo de trabalho, para confeccioná-la na cor preferida de Nara. Quem sabe o presente consiga diluir um pouco essa mágoa tão insistente, tão abrasadora? Isso levou-me a refletir mais profundamente sobre a responsabilidade de nossos atos, de nossas palavras no dia-a-dia. Uma frase impensada, displicente, insensata, pode, de fato, levar a anos de profundas dores... Ou a dores eternas, como parece ser a de minha querida amiga Nara.
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