Ele sempre foi muito metódico. As mais remotas lembranças que guarda de sua figura, conduzem a isso, um ser metódico. Lembrava-se, quando pequena, que lhe contara que havia comido um abacate com caroço! Ele, pacientemente, explicou que era impossível. Mas ela insistia – é verdade, pai, com caroço! Para ele tudo havia que ser filtrado na ordem impositiva, do ponto final. Sua ação conduzia a isso, sem explicações ou outras elucubrações.


I

Pela ordem do pensamento paterno conheceu seu avô. Sabia que ele era alto, rosto ovalado, um italiano que havia escolhido o Brasil para trabalhar, para fazer fortuna. Ficou conhecendo muitas histórias de seu avô, pela boca de seu pai. Que havia enchido a banheira de água e molhado toda a roupa do filho mais velho, para que este ficasse de castigo. Que havia picado uma gravata com a tesoura, depois das reclamações da mulher, sua avó. Que esta mesmo havia, com suas severas observações, levado o marido, seu avô, a jogar uma melancia no quintal, espatifando-a. Que era, o avô, um homem probo, digno, trabalhador. Que, na volta de uma visita a Itália, havia trazido para a filha mais velha um piano, que hoje estava encostado à parede da casa de um neto. Tinha o avô um relógio, de ouro, que usava porque elegante era, com seu chapéu coco. Seria um dia, esse relógio, dizia seu pai, de um neto homem. Lidava o avô com armazém, tinha até torrefação de café. Sabia, em detalhes, como havia falecido seu avô. Seu pai dizia-lhe, de forma engraçada, que a tampa havia subido, a tampa da cabeça! Com pressão alta, recusara-se a colocar sanguessugas. Faleceu trabalhando, o avô, com 47 anos. Seu pai tinha um ano e meio de idade. Sempre ficou impressionada com esse fato, conhecia um avô pela boca de um filho que muito pouco conheceu o pai. Sempre foi assim, seu pai. Metódico nas lembranças, metódico na vida.


II

Em 1994, faleceu sua mulher; abriu para ela parte de sua vida documentada – rascunhos de cartas, cartas trocadas nos anos de namoro, bilhetes de trens utilizados para ver sua amada, dos idos da década de 40. Ela não teve a ousadia de olhá-los. Viu, contudo, em dedicatórias de livros, a grafia de um código – GV, sabendo que nunca iria descobrir, código secreto entre seu pai e sua mãe. Nomeou, o pai, em cidade próxima, algumas árvores com o nome de sua mulher – era assim, como essa árvore, quando a conheci; depois parecia com essa, com a chegada dos filhos; mais para lá, outra árvore, frondosa como a maturidade. Viu seu pai chorar sem lágrimas, viu seu pai dançar sem par, viu seu pai escrever um verso de reencontro pleno, sossegado, tranqüilo com sua mulher. Foi vendo seu pai, metodicamente, ir perdendo seu viço; suas leituras, substituídas pelo olhar vago na televisão; seu andar firme, com as costas retas, sendo convertido em trôpego e rastejante locomover-se; foi vendo os olhos de seu pai ficarem enormes, sempre atrás de seus óculos de pesados aros; foi vendo o caminho lento percorrido pelo garfo, do prato à boca, foi vendo o engolir de goles miúdos. Foi vendo o esforço do pai, que caia da vida, metodicamente, com dignidade, tentando chegar ao novo milênio.


III

Dormiu, dormiu em profundidade. E se desdobrou em duas personalidades, acordando, em sonho, de um único dormir, em peso e leveza, em sono leve, em sono pesado. A personalidade do sono leve evoluiu, então, saindo de seu corpo, fazendo-o sentir-se desoprimido e tranqüilo, como se no paraíso estivesse. A outra, objetivamente, definia a situação: não podia voltar a dormir, porque não conseguia – o que o levaria para fora do sonho – e não conseguia acordar. Eram as alternativas: acordar e sair do paraíso; voltar a dormir e sair do sonho. Eram as saídas que ele elaborou, contou o pai à filha, desperto do sono naquele quarto de hospital, no quinto mês do século XXI. E nesse ano milenar, foi observando seu pai, que parecia ir deixando de lado as lembranças. E nesse deixar, foi reduzindo seu espaço, de uma cadeira de balanço – de madeira e acento de palhinha – para o quarto – agora já desfeito, sem sua cama de casal de tantos anos – para uma cama hospitalar. Da cama, para a cadeira de balanço. Eventualmente, uma descida no jardim. Mas a delicadeza de espírito não se foi. Numa manhã ensolarada, recebeu de uma idosa vizinha, uma gardênia, colhida dentre tantas que perfumavam o jardim. Encontrou, a filha, a flor junto ao retrato de sua mãe. Pediu, o pai, então, dias depois, uma flor. Que fosse uma flor, somente. Levou-a, com o singelo significado da retribuição do afeto e atenção, à idosa senhora, no mesmo jardim de sempre. Do desfazer das lembranças, foi tentando se desfazer de tudo que pudesse desviá-lo da rota traçada, da sala ao quarto, do quarto à sala, nos tempos medidos, que pareciam imóveis. Disse o pai à filha que queria morrer. Uma vez, duas vezes. Brincou de se fazer presente no Natal. Riu, comeu, dormiu. E foi ficando pequenino, muito pequenino. Sua filha não conseguia mais ampará-lo pois o que ele precisava ela não poderia dar, a volta, simplesmente a volta.


IV

Vinte e dois, dois patinhos na lagoa. O pai assim cantava o número sorteado da tômbola, cartelinhas de papelão, laranja, amarela, azul, vermelha, com seus números pretos. Duo! Trintina! Quatrina! Cinquina! 2.002, e agora? Vê seu pai perguntando, pasmo por não se lembrar o que deve fazer. E agora? O que faço? Vê seu pai deixando de ser. Vê seu pai não voltando a ser. Vê seu pai indo, cotidianamente indo, indo.


V

O que pode quebrar a monotonia de um ser que se vai e que não sabe como e por onde? Lembranças... as de agora. Sentimentos...

– Você tem um barbante, uma linha?

– Para quê, pai?

– Para costurar os olhos. Estão ardendo.

Tantos meses enfileirados nessa corrente de 81 anos, completados no janeiro de 2003.

Pai! Abra o olho, pai! Que história é essa de ficar com o olho esquerdo fechado? Para que dois abertos? Estou descansado o olho, respondeu-lhe.

Pai! Pai, abra o olho!

Para que dois abertos? Um só é suficiente.

Minha alma está cansada...

No dia 4 de setembro de 2003 seu pai juntou forças. Falou quase nada, resistiu em comer, em beber seu vinho, em falar. Resistiu em olhar. E sua disposição cresceu. Convenceu-se da morte, morreu, metodicamente.
 

2000/2003
Adriana Gragnani

 


 

 
     

 

Adriana Gragnani
Paulistana, ativista da cidadania.
Uma assumida mulher da net.