I
Dolorosos

 

O Bar está ali há tanto tempo que nem importa saber sua idade. Surgiu com a cidade. Discretamente, de um ângulo privilegiado da praça, frente à porta lateral da igreja, a tudo observa. As paredes, grossas de sucessivas pinturas, contam a cada camada histórias de diferentes épocas e proprietários. Duas portas de madeira carcomida, fechadas respeitosamente diante de incontáveis enterros e procissões, deixam entrever o interior escuro e abafadiço.

Assim que os olhos do visitante se acostumam à penumbra, revela-se um enorme balcão, igualmente sem idade, estendido junto ao fundo e a uma das paredes laterais. Ao longo da outra parede, cinco ou seis mesas bambas com suas cadeiras descoloridas. A parca iluminação não esconde o pó e o bolor das prateleiras, repletas de um amontoado de garrafas e copos engordurados. Atrás da máquina registradora, uma pequena imagem de Nossa Senhora Aparecida e o pôster do Palmeiras Campeão Paulista de 1976 disputam, lado a lado, as homenagens das flores de plástico dentro do copo.

Sentado numa daquelas mesas, protegido pelo lusco-fusco, um observador atento poderia fazer a crônica diária da cidade: qual beata está adoentada e não compareceu à missa das sete; que cidadão tem negócios a tratar na capital e embarcou no ônibus do meio-dia; quanto tempo durou a confissão da mulher do prefeito; qual será a próxima geração de boêmios que flana agora pela praça, matando as aulas; todos os casamentos, batizados e enterros. E, quando as pequenas corujas deixam a torre do sino, os incautos casais que trocam trêmulos beijos nos desvãos das paredes da igreja.

É ali, instalado na última mesa, que Dozinho resiste. Só ali a tranqüilidade para olhar e, ultimamente, para escrever. Os humores de Aracy começam a atrapalhar seus pensamentos. Os deles, mesmo, e os dela, própria. Aracy delira. “Quanto será que custa um sino de bronze da Itália, Dozinho?” Ora, veja... “Quanto você acha que vale o terreno do Bar, Dozinho?” Tem cabimento? Deve ser a idade. Deve ser porque não tivera filhos. Útero seco, o dela. O dele, não. O dele é um útero quente e fértil: aquela mesa.

Dozinho se integra ao ambiente pela cor mortiça, descolorido pela constância dos dias que no Bar se perde, bambo como as cadeiras por ingestão alcoólica que lhe faz, ainda, embotado na conclusão do romance com o qual a todos diz que ganhará a notoriedade literária.

Dozinho só desprega o olhar das páginas que trazem a inutilidade dos seus pensamentos para o copo ou para um evento ou outro, muito raros por sinal, que traga maior movimentação à praça.

Tantos projetos perdidos no achado de Aracy; num casamento que o levara parte da vida ao caminhar entre as duas monotonias, da casa e do bar. Casa e bar? Mas se foram tantas às vezes que se confundiram sobre a melhor ou pior acolhida.

Histórias perdidas em soluços de embriaguez. Confusas histórias intermináveis, assim como sua própria vida que lhe parecia não vir a ter desfecho. E a obsessiva curiosidade de Aracy aos valores que nada lhe diziam.

Temia vir a se tornar uma figura folclórica da cidade, como a Maria Benzedeira ou o João do Sebo, este por alguns confundido como dono do açougue e, na verdade, dono da papelaria, onde, a um canto, amontoavam-se volumes desprezados, com suas páginas consumidas mais pelos cupins do que pelos olhos de seus antigos donos.

Havia, como dona Adelaide Maria, misto de mulher letrada e do lar, um ou outro que não aceitavam vulgos que não se enquadrassem aos hábitos e costumes daquela pequena cidade interiorana e para os quais João era João, sem o Sebo. Mas isso é uma outra história que não desmerece o folclore que abundava a região, enriquecido pelos ditos, benditos e malditos do que aqui vai narrado.

Já não eram mais perguntas, mas verdadeiro martírio a curiosidade de Aracy. Aquilo o desconcentrava e, na linha que estivesse, por ali parava. E não voltava ao texto, posto numa acumulação de calhamaços, fruto da perda da tranqüilidade que imaginara encontrar na mesa do Bar, seu quente útero, já agora nem sempre fértil, ainda que úmido pelas garrafas esvaziadas à sua frente.

Dali se distanciava ao final de cada tarde, respondendo aos cumprimentos com um toque no chapéu desabado como sua própria vida.

A crença de Dozinho na fama que conquistaria pelas letras levava-o a imaginar-se numa estátua ou mesmo que fosse num busto de bronze como o de Graciliano Ramos, próximo ao palanque de onde vinham os sons nas domingueiras na praça, trazendo junto os perfumes das senhoras e senhoritas no ir e vir pela calçada em frente ao Bar.

Mas para tanto, dizia, duas coisas teriam que ser terminadas, ambas de desfechos imprevisíveis: o romance e sua própria vida.
Próximo de poder ser titulado autor e lá vinha o massacre de Aracy: "Dozinho, quanto terá custado o funeral de seu Sidônio?"

E mais uma vez interrompia a página do romance, ainda que chegando às letras como o personagem que alimentou essa história.

 

 

II
Gloriosos

 

– Dozinho!!!

O grito ecoa no quarto como um trovão. Abre um olho e lá está Aracy a sacudir a folha de papel. Abre um olho, já que os dois seria impossível pela carraspana da véspera.

– Levanta homem de Deus... Finalmente chegou a resposta da editora, junto com o contrato.

Ora, isso lá é jeito de acordar alguém? Contrato, que contrato? Mas Aracy estava ali sacudindo a folha de papel qual bandeira agitada no estranho festival... Quem dissera isso? Ah, sim, Orestes Barbosa, em “Chão de Estrelas”, tantas vezes tocada na máquina de moedas no fundo do bar. Lá fora, na rua, a notícia já chegara e um grupo aguardava na porta sua aparição.

– Vá lá Dozinho, dê apenas um aceno para eles. Não imagina o que isso vai representar para a nossa cidade. Quem sabe seu romance vira roteiro em Hollywood? Não viu o Paulo Coelho?

Mas como? De pijama?... Cabelos em pé, nem mesmo os dentes escovados e aquele gosto de guarda-chuva na boca... Ah, coisa mais idiota, como se alguém já o tivesse chupado.

A menção do Paulo Coelho encheu-o de brios. Comparar o seu romance aos do autor de O Alquimista era não reconhecer seus méritos literários. Que se danasse Hollywood... Qual obra de Machado de Assis merecera as atenções dos produtores e diretores hollywoodianos? Jogou por cima do pijama o paletó de tantos invernos e quase empurrado por Aracy chegou à janela. Lá estava Alaíde Camargo, mulher faladeira, Antônio Dentinho, Maruê Lagartixa, tido como dos melhores no pau de sebo das quermesses, sem falar na fina flor da boemia local, espantosamente sóbria puxada pelos vivas de Chico Bolha. Era de se esperar que a glória chegasse, tantos foram os repasses dados a obra.

– Dois milhões, Dozinho, ouviu bem, dois miiiiiiiiiiiiilhões.

Os milhões na boca de Aracy se tornavam maiores ainda. Havia, finalmente, embarcado nos delírios dela! Sabia que chegaria o momento em que, sendo o inimigo mais forte, se renderia a ele – Corrumpunt bonos mores colloquia mala, latinou, capitulando. E como lhe pareciam reais aquelas fisionomias conhecidas, ao pé de sua janela. Não seria também real o jacaré que morava embaixo da cama de Chico Bolha e que o recebia todas as madrugadas, na volta da esbórnia? Tudo é possível, tudo é plausível, tudo é real, até aquelas pétalas que o pequeno grupo lhe atirava.

Recuou três passos e imediatamente se arrependeu. Melhor estava encarando a platéia que as chispas verdes dos olhos pequeninos de Aracy. Claro, ela sempre soubera, o talento dele era insofismável (caprichava nas palavras, a bruaca); fizera bem em contrariar o pai e casar-se com ele (arrependia-se de não ter ouvido o sogro – é minha filha, mas é uma megera); finalmente a honra e a glória que ele merecia (até babava-se de tanto gosto, a vaca).

Alisou a gola do paletó e extraiu do fundo de sua inapetência as palavras jamais escandidas:

– Aracy, eu vou ao Bar.

Esfregava-lhe na cara uma redondilha maior, vingança suprema de tantos anos em que ela, alexandrinamente, lhe atirara, certeira, seu nome de solteira – Aracy Aparecida Gomes da Cruz.

– Claro, vamos, sim, meu... meu... meu imortal!

Voltou à janela, magnânimo, acenou, deu as costas e desceu as escadas, casaco puído e calças de pijama (ora, já não havia saído nu da cintura pra baixo do quarto de Isolda Bela Puta em tempos de vou-tirar-você-deste-lugar?)

Recuperava um pedaço de si mesmo a cada passo vencido entre a casa e o Bar. Atrás dele, a “turba ímpia e nojosa” e, no meio dela Aracy, com agilidade de menina, organizava uma ação entre amigos para a compra do fardão da Academia.

Mas como fardão, se nem candidato se lançara?

– Dozinho, quanto deve custar o fardão?

Nem mesmo a futura imortalidade o poupava da curiosidade de Aracy com relação a custos, fossem do que fossem. Nos tempos de Sarney na Presidência da República ela ganhara fama a perguntar sobre preços, imbuída da condição de “fiscal”... Ah, sim, Sarney, agora seu futuro companheiro dos chás de quinta-feira... E aumentaram-lhe os suores na lembrança dos chás. Refrescou-se com duas cervejas, em sucessivos brindes do Chico Bolha. Agora já não eram os chás quintafeirinos que o aqueciam, era a idéia do fardão de casimira.

– Levanta homem e larga de vagabundagem... O sol está quente lá fora e você enrolado nesse cobertor.

Dois olhos abertos, chegou-se à janela. A praça vazia pelo sol causticante abrigava o sono de Chico Bolha em um dos bancos do jardim.

– Aracy, eu vou ao Bar.

 

 

III
Gozosos

 

É noite, novamente. Dozinho espia por entre a escuridão do Bar o movimento da praça – Sexta-Feira da Paixão, logo a Procissão do Senhor Morto iria serpentear pelas ruas da Cidade, as velas enroladas em celofane colorido teimando em espalhar espermacete nas delicadas mãos das Filhas de Maria; a matraca alternando o silêncio.

O dia todo ali, refugiado, sem pronunciar palavra. Não ousava dizer mais nada depois da frase proferida pela manhã. Percebia agora a inutilidade de todas elas, todas as palavras careciam de sentido, tudo já estava escrito, tudo havia sido dito. Sem sequer abrir a boca tinha-lhe sido servida a bebida de sempre, garantira a mesma conversa recortada – o levantar de uma sobrancelha era o suficiente.

O dia todo ali, pregado àquela mesa. Não comia, não falava, não escrevia, não mijava – e isto era verdadeiramente espantoso, levando-se em conta as garrafas de cerveja que se acumulavam no canto da parede. Havia, finalmente, voltado à sua condição intra-uterina, boiava em meio ao burburinho, cenas fortuitas eram percebidas de relance, como o olhar pasmado de Chico Bolha ao testemunhar o apelo inédito e impensável de Aracy, pousando a mão em seu ombro – “Vamos para casa, Dozinho”. Deu de ombros para o companheiro, fixou-se no bater dos saltinhos baixos da mulher esquadrinhando com passos curtos a volta de um caminho nunca dantes percorrido.

O dia todo ali e, subitamente, uma voz o arrancava de seu torpor. O trabalho de parto, iniciado pela manhã, agudizava-se. No púlpito improvisado em frente à Matriz, Verônica canta, rosto encoberto. Uma odalisca, essa Verônica – ensaiava uns passos da dança do ventre entre um “o Vós omnes” e outro, o véu escorrendo face abaixo. Quebrantado pela lengalenga, levanta-se e segue o chamamento. "Eloì, Eloì, lema sabactàni?"

Entra na igreja, altar desnudo, santos cobertos apaixonadamente de roxo, o cheiro do jejum, do fracasso, da tristeza e do silêncio. Abstinência da palavra, porto da palavra, liturgia da palavra, das sete palavras. Bruxuleava.

Da porta principal vê entrar o corpo do Senhor Morto, ladeado de todas as mulheres que fazem fila para lhe beijar os pés. Atrás da coluna espera que chegue a vez de Alaíde Camargo e precipita-se após o ósculo. Embriagado pelas velas e pelo silêncio, longamente “beija o beijo, não os pés”.

Não estivesse o Senhor Morto, nem mesmo ele escaparia do sobressalto diante dos repentinos arroubos de Dozinho, atracado, a pespegar beijos obscenos na faladeira Alaíde Camargo, que passou de flecha a alvo sob os olhares de mais de centena de fiéis e outro tanto de infiéis, todos agora testemunhas de uma paixão por tantos anos mantida em segredo.

Todos não. Menos Aracy, fulminada por colapso, morta na fila do Senhor Morto.

Dozinho, transfigurado, é tirado dos pés de Cristo sob o ronco de trovões que desciam dos céus, pragas e “te esconjuros” das beatas que a essa altura se acotovelavam na nave para testemunhar tamanha heresia. Instalara-se a balbúrdia na noite sacra, coisa nunca vista.

– Está tomado por satanás...

A frase passava de boca a boca, seguida de “cruz credos” e “benza Deus”, algumas já em aconselhamentos de que fosse coberta a cabeça de Cristo. E motivo havia pra isso.

Fechava-se assim o romance da vida de Dozinho, em gozos de embriaguez, naquela sexta-feira de dupla paixão – e morte – ampliado ainda mais por dona Afrodite Augusta Nogueira, mulher de Chico Bolha, que disse ter visto o Senhor Morto a piscar para Dozinho.

 
 


 
     
   
   

 

 

Com ele as coisas antecipavam-se: caminhara aos sete meses, acordava sempre antes, precipitava-se em suas alegrias, adivinhava as falas, antecedia as desilusões, sofria precocemente. Na hora certa, exata e aprazada, somente o petardo: nem antes, nem depois – certeiro e justo.

"Pé de Anjo" era como o conhecíamos, entre os gritos de "passa a bola" ou "chuta logo". Rápido como o vento, disputava carreiras com os veículos, perdendo todas metros adiante, pondo a culpa no fôlego que lhe faltava, arquejante e sorridente.

Nos altares da minha infância, sempre o via com asas nos pés nos incríveis dribles das peladas da rua. Verdade que negros, não os encontrava barrocos entre tantos outros louros que adornavam a Matriz.

Nunca ninguém soube seu nome e a nós pouco importava que tivesse. "Pé de Anjo" era "Pé de Anjo" e só. Arquejante e suarento, sentava-se ao final de cada partida no chão de terra batida e sonhava um dia transpor o tapume que delimitava o campo, junto à entrada da geral do Maracanã, em final de obra.

Assegurava a todos que um dia, do lado de fora, ouviríamos os gritos da torcida do seu time, a incentivá-lo nas arremetidas em direção ao gol. Não sei onde foi arrumar as chuteiras velhas que calçava, meio desequilibrado. Mas os protestos foram tantos da molecada descalça que não mais as usou. Onde já se viu pé de anjo calçado?

A mãe, negra gorda que recomendava as boas marmitas que fazia, não cobrava mais que suas carreiras na entrega do sustento. De instrução, muito pouca. O futuro do negrinho estava mesmo nos pés.

O pai morrera de tísica, garantia. Certo mesmo é que jamais o tivera. Mas isso pouco importava a "Pé de Anjo", superior na qualidade daquilo que mais gostava de fazer: correr uma corrida inútil e sempre perdedora contra tudo que se locomovesse a motor ou deixar caídos para trás os moleques do time adversário.

Um dia, "Pé de Anjo" sumiu. E com ele o aroma da carne assada, banhada no feijão, que a mãe mandava para a freguesia, deixando um rastro de sabores que sinalizava a hora do almoço.

Nessa noite, ele antecipa e dormem os outros – Minguinho, Trolha e Zé Baião; Cafuné, Orelhinha e Delson; Joãozinho de Irene, Índio, Nonato e Mangueirinha.

Entre o sono de Nonato e Manguerinha, a sua vigília.

De costas, mãos cruzadas sob a nuca, sorri quando ouve o primeiro canto de Trasontonte, o único macho que com ele disputava os sorrisos de sua mãe. Conta os regulamentares doze segundos e ouve o galo de D. Arlinda cantar, seguido de outro e de outro ainda mais. Sabedor de que “um galo sozinho não tece a manhã”, espera que os cantos se confundam e entreteçam a aurora.

O canto estridente do galo cede vez ao despertar com o rádio bem baixinho na esperança de ouvir uma palavra de Jaguaré. Cedo demais. Um passo pra fora e recolhe os uniformes do Leão de Ouro, as meias ainda úmidas. Alisa as camisetas, os calções, arranja no saco de estopa, ganha a rua.

Cinco quarteirões até o campinho. O ar morno, o compasso de seu coração e o cheiro da dama-da-noite acabam por chamar seus companheiros: Ademir Menezes o alcança na primeira esquina, chuta a bola para defesa de Barbosa. Riem os três, já sabendo do que acontecerá naquela manhã, o Leão de Ouro levando a Taça do Campeonato de Várzea, com dois gols irretocáveis de “Pé de Anjo”.

No quarteirão seguinte Jair bate uma falta e junta-se ao passo gingado do grupo. O sol já se denuncia, bola vermelha alçada ao céu. Se alegria tem nome e jeito, ele sabe que deve ser isto que sente agora e mais o cheiro de couro das chuteiras que traz na sacola a tiracolo. Carrega-as e não mais as calçara desde o protesto dos meninos, embora os pés as reclamassem. "Pés de príncipe!", ria-se dele a mãe, nos poucos momentos de rir.

Tesourinha e Heleno surgem no último quarteirão. Elogiam as camisas improvisadas, passam os dedos na faixa preta, lambuzam a cruz vermelha e borram-se nas tintas vagabundas. Ri com eles, nem se importa. Amigos, daqueles de passar a mão na bunda em sinal de apreço. Sabe que alcançado o campinho suas brincadeiras não mais existirão, suspensas até a madrugada do domingo seguinte.

Na segunda-feira, a caminho da obra, disputaria com o bonde de São Januário uma boa arrancada – perderia, é claro, qual ser movente poderia encarar a máquina no cio, ladeira acima? Mas acenariam lá de dentro todos os operários – “Pé de Anjo”!, “Pé de Anjo”!, assim como gritam agora em dia de descanso, à beira do campo de várzea, quando ele, enlouquecido, arranca novamente desmantelando a zaga adversária.

Os anos correram mais que "Pé de Anjo" e nunca ouvimos a multidão gritar seu vulgo no Maracanã. As notícias chegavam pelo vento. Diziam que era dono da cantina próximo ao campo de várzea, onde o consumo da bebida se tornava cada vez maior; outros afirmavam que era técnico do Leão de Ouro, cobrando velocidade dos seus jogadores, só satisfeito quando todos resfolegavam ladeira acima, ladeira abaixo, no campo ao pé do morro.

– Pois é, doutor, teve jeito não... A pereba não curava e o jeito foi cortar o pé mesmo. Não sei para onde meu pé foi...

Não fosse o sorriso alvo, não o identificaria pelas têmporas grisalhas e as profundas rugas, marcas da vida e do sofrimento.

Silenciosamente afastei-me e me dirigi ao Serviço de Patologia. Lá estava ainda o pé. Por momentos, tive a impressão de vê-lo com asas...

 
 


 

 

     


 

 

Teresa Melo
São-paulina, tieteense, educomunicadora. Mezzo italiana, mezzo caipira. Mãe de dois, avó de uma. Sem perfume, nenhuma grife. Truco, MPB, naïf. Levaria o Henfil pra uma ilha deserta. Como assim, morreu? Então, iria sozinha mesmo.


 

     


 

 

Fernando Carlos de Andrade
Como Fernando Carlos de Andrade, sou mercenário, tendo trocado o jornalismo pela atividade de marchand de tableaux, que abrasileirado quer dizer mercador de arte e não só de quadros, como possa parecer. Mas, hematologicamente falando, corre-me nas veias o sangue do Jornalismo. Daí, faço incursões, vez por outra, no Jornal do Brasil, emitindo através de croniquetas minhas opiniões, que não devem valer muito, pois nada recebo. Isso posto, sou carioca, descendente direto de Julião Rangel, o Moço, capitão da conquista do Rio de Janeiro e ajudante de Salvador Correa de Sá na fundação da cidade, e nada indica que deixarei de ser, malgrado a violência já existente àquela época por terem os índios devorado um meu ascendente por afinidade, dito Bispo Sardinha, naufragado nas águas da Bahia. Ora, reportando-me ao naufrágio, como poderiam os índios terem devorado o Sardinha senão pela pesca? Portanto, crime mal elucidado, como de resto o são os cometidos pelos colarinhos brancos, já que pretos, bem sabemos, são devidamente justiçados.
Já como Antero do Quintal, honra-me ter sido encaixotado, esperando, contudo, enterrar o Antero no quintal e fazer do sepultamento a minha ressurreição como Fernando Carlos de Andrade, contista por vezes aparceirado.
Para contradizer-me, coloco meu:


à disposição dos que honestamente me achem um meliante das letras.