![]() |
|
No parque o tufo louro, encarolado, pousado na grama. Deve ser uma peruca. Penso. Passo. A imagem não passa. Vai comigo na caminhada. Na volta, paro. Pego-a com cuidado, examino o reverso. Era a cabeça duma boneca. Desfigurada. Olhos furados, boca rasgada, face cortada. Torturada e depois decapitada. Procuro em vão o resto do corpo. Era uma segunda-feira. Com certeza o crime ocorreu no domingo. O parque lotado de crianças, adultos, cães idolatrados. Ninguém viu. E se viu não se importou. Boneca não é gente. E, em sendo objeto, concede-se ao possuidor o direito de vida e morte sobre a coisa possuída. Aos brinquedos não se atribuem sensações humanas. A dor é nosso privilégio, não é? E a violência também. Sento-me na grama molhada, alheia aos movimentos acelerados dos ciclistas, jovens joguistas, velhos lentos, contagem regressiva. Entre melancólica e enternecida, lembro-me da minha primeira boneca, que ganhei do meu pai. Boneca de pano, algodão cru, cabelos de fios cor-de-terra, que até hoje guardo, com devoção. Reflito sobre um passado manso de compreensão e afeto, mas a imagem da boneca estraçalhada se interpõe às lembranças, aos gritos. Corte profundo. Sou toda inquietação e presságios. Tenho dificuldades de imaginar o perfil da autora de tamanha maldade. Digo autora porque deve ser uma menina. Geralmente meninas brincam com boneca. Mas também poderia ter sido um menino, por que não? Desvio o pensamento da matéria. O sexo não está em questão. Nem tampouco o preconceito. Meu ou alheio. A raiva da criatura, sim. Por que a sanha destruidora? Tento desencavar motivos. Aventar hipóteses. Talvez a menina(o) sofra castigos terríveis em casa e, num ímpeto, revidou na boneca? Mas a teoria do background violento também não encaixa. Nem justifica. Na América do Norte o tema está desgastado. No fundo, todo esse rodeio deve estar ligado ao fato de que é difícil encarar que uma criança também pode ter um lado perverso. Que nem toda criança é anjo. Sabe-se lá de quantos pecadilhos são capazes certos querubins caídos? Sei não. E nem sei se quero saber. Só sei que saí fagueira para a minha caminhada matinal e, de repente, me vejo metida num dilema sem pé nem cabeça. A cabeça da boneca jaz por terra. Meu pensamento voa. Vou saindo do parque experimentando uma dor estranha. Nem física nem emocional. Meu umbigo palpita. Continuo andando. E pelo caminho vou encontrando os restos mortais da boneca. Pernas, braços, pés, mãos, tronco, peitos dilacerados, a vagina com um graveto pontudo, espetado. Sangrando. Suzi, Suzan, Suzete, ou como se chamasse a boneca loura, havia sido selvagemente estuprada. E ninguém tomaria providências. Brinquedo não é gente… Mas a barbárie, veio de gente. Grande ou pequena, veio. E isso não conta? – Conta, conta, queridona! Que cara é essa? O que te aconteceu? – perguntou Dorivan, a drag queen, que morava no apartamento ao lado. Ela abriu a porta quando eu ia passando pelo corredor. Notou o meu transtorno. Nada, nada, respondi, andando rápido. E nesse nada insincero e vago e displicente, continuei andando. Tinha acontecido sim. Alguma coisa terrível que eu não sabia como colocar em palavras. E se soubesse, talvez pensasse que Dorivan não entenderia. Subestimei a inteligência da outra. Meu pecado de arrogância. Quantos já não andei cometendo? – Conta, conta, queridona! Devia ter contado. Não contei. O que sucedeu depois tem a urgência da fatalidade. Das coisas planejadas em algum ritmo delicado/cruel, que nos foge à compreensão. O sonhado se concretiza. A coisa vã se torna dum realismo inconcebível. Foi. O desuso das horas. Do desatino. Do descaminho. Ou de qualquer outra nomenclatura que se queira. Ou não queira. Não há especificacão. É matéria virgem de qualquer ciência ou arte ou tecnologia. A coisa veio assim, com um furor que não se concebe. Nem de noite. Nem de dia. Desaba, de repente, sobre a cabeça do incauto. Esmagando corações, sentimentos, ideologias. Aconteceu o golpe inesperado. Ou o esperado, se eu tivesse sabido ler no prelúdio das notas fúnebres. Metafóricas, nem tanto. “Símbolos podem anteceder à consumação de certos atos. Há que se decodificar a mensagem”, dizia meu mestre J. Lobo. Neste caso tenho de concordar. Havia uma leitura premonitória do sucedido com a boneca. Eu devia saber que algo se tramava a nível humano. Tão horrendo quanto. Por isso me senti tão mal. Só agora me dava conta. – Conta, conta, queridona! Vontade tardia de perguntar a Dorivan. O que aconteceu? – Tudo, tudo – ela diria. Se pudesse. De onde estivesse. A foto risonha de Dorivan nas manchetes dos jornais. Encontrada morta no parque. Crime hediondo. A cabeça e o restante do corpo recolhido aos pedaços pelos policiais. No Instituto Médico Legal, reconhecida pela mãe, velhinha, mulher simples do interior, chorando e se lembrando de quanto o filho tinha sido um menino terno, sensível e que sonhava conquistar o mundo. Tinha se mudado para o Rio de Janeiro, aos dezoito anos, cheio de esperanças. Queria ser ator famoso, trabalhar nas novelas da Globo. Nunca soube exatamente como vivia. Recebia cartas maravilhosas do filho, reafirmando seu amor, acompanhadas de quantias modestas para ajuda das despesas. Ela orava por ele, o filho abençoado, que não a esquecia. E continuaria orando pela sua alma, embora não mais soubesse como chamá-lo. Seu nome de batismo era Rosário Augusto. E agora, depois de morto, Dorivan. Mas filho/filha, que importava? O amor não conhece essas diferenças, doutor, dizia dona Eulina ao delegado, enxugando as lágrimas. Nada disso conta. – Conta, conta, queridona, estás com uma cara… O que foi que você viu? – Tudo, tudo – eu responderia. Se tivesse percebido os fios da trama. Não percebi. Será que a exemplo da tragédia grega, o final de Dorivan já estava escrito? E não havia nada que pudesse mudar seu destino? Assim como Cristo tinha de morrer na cruz, e a traição de Judas já fazia parte dos planos divinos? Então Pôncio Pilatos não poderia salvá-lo, ainda que quisesse? Se é assim, eu, que nem de longe penso em me imiscuir nessa contenda bíblica, vejo que não tinha a menor chance de bancar a boa samaritana no caso Dorivan. Ou tinha? E não queria? Por preguiça, comodismo, preconceito? Vai lá se saber por onde anda nosso inconsciente nessas desoras vulneráveis? Sabe-se lá? O fato é que falhei redondamente no ato de interpretar sinais que salvariam a vida dum semelhante. Aí entra a agonia da culpa pela omissão, ainda que involuntária. Agonia indescritível. – Conta, conta, queridona, por que não me preveniste? Dorivan me interpela em meus sonhos, e eu acordo sobressaltada, um suor visguento a escorrer pelo meu peito, sufocando qualquer resposta. Se a tivesse. Mas não tenho.
Ninguém tem. Nem os homens, muito menos a natureza.
A relva do parque continua em seu verde profundo. Pássaros tecem ninhos de
gravetos e sonhos. Borboletas de vida breve assumem ares de eternidade. O
ontem não conta.
New York
|
|||
|
|
|
Tereza Albues |