Zé gemini era o favorito de todas as anfitriãs. Ele gostava de gente. Quanto mais gente, mais alegre ficava. Conversador maravilhoso e agradável, tinha um gosto delicado, era cheio de observações inteligentes, e seus cumprimentos eram obras-primas de cordial sinceridade. Em geral, mestre impecável em maneiras e em desembaraço social, ele mantinha as festas animadas em todos os sentidos.

Gostava de tudo em dobro – dois carros, dois apartamentos, dois diplomas universitários, dois idiomas fluentes, dois aparelhos de barbear, dois passatempos e dois amores.

Inquieto e elétrico, fazia várias coisas ao mesmo tempo: arranjava uma acompanhante para um amigo ir a uma recepção, fazia uma lista de compras, escrevia cinco cheques (uma de suas ocupações favoritas), telefonava para um fornecedor que se achava num iate no Caribe, enviava nove e-mails (para os amigos aniversariantes daquele dia), organizava as agendas semanais dos seus dois chefes, encontrava uma gravata azul que queria, anotava os endereços de lojas onde ele poderia encontrar um certo peixe tropical para o seu aquário, abria e lia as contas a pagar – tudo isso no espaço de pouco mais de uma hora.

Tinha que deixar tudo encaminhado e pronto. Estava com viagem marcada para Nova York, precisava repousar seu cérebro efervescente em algum hotel da 5ª Avenida. Com sua típica frieza emocional escreveu, em dois pequenos cartões em branco, os nomes dos seus dois amores. Precisava saber em nome de quem confirmaria a outra reserva no vôo. Colocou os cartões num pequeno saco onde guardava a caixa das lentes de contato, fechou os olhos enquanto os revolvia, num ritual de imparcialidade. Puxou um e sorriu ao ler o nome do namorado – Beto. Divertidíssimo nas viagens, bonito, inteligente e refinado. Seria uma ajuda valiosa quando fosse escolher o presente que compraria para Alice – sua namorada.

 
 


 
     
   
   

 

 

Tinha um domínio das imagens, e as expressava com tal intensidade, que era capaz de fazer com que os outros as sentissem também. Sua imaginação apreendia a alegria e o desespero, o horror e a compaixão, a tristeza e o êxtase, e as emoções se fixavam firmemente em sua memória. Breno era fotógrafo.

Sensível, cada experiência se gravava em seu coração e, não esquecia as lições que a vida lhe ensinava nem as que a História ensinou à humanidade. Reverenciava o passado e era um patriota de coração. Os personagens históricos o intrigavam tanto quanto seus ancestrais. Colecionava antiguidades, velhos tesouros e velhas relíquias e tinha uma curiosidade insaciável pelo passado. Era uma espécie de arqueólogo mental, sempre escavando em busca de fatos antigos interessantes. Era um conservador e suas roupas tinham um leve cheiro de naftalina, misturado ao dos fixadores das revelações dos seus filmes.

Depositário, fiel, das confidências dos outros. Um poço de segredos. Automaticamente, as pessoas confiavam suas intimidades a ele. Era um homem de uma compaixão profunda e intuitiva. Difícil haver um segredo que não descobrisse se o quisesse. No entanto, tratava-se de uma via de mão única. Jamais entregava os seus pensamentos secretos. Guardava seus sentimentos interiores cuidadosamente a salvo de olhares bisbilhoteiros.

Amava sua casa com um respeito que tocava as raias da reverência. Lá ele vivia, sozinho, amava, sonhava e se sentia seguro. Fora dali, só no seu barco. Era um marinheiro de fim de semana. Talvez, por ser tão sensível, a Lua e as marés o chamavam. Sentia-se um pouco Netuno quando estava andando no seu próprio convés, com os tênis que comprara ao se formar no segundo grau. Guardava tudo, num apego de colecionador. Para ele, era muito difícil livrar-se dos objetos de que gostava.

Numa noite de lua cheia resolveu navegar. Rumou mar adentro seguindo o rastro prateado na água. Quando achou que estava suficientemente longe da praia, deitou, ao comprido, no barco e ficou olhando a lua até perder a noção do tempo, do espaço e de si mesmo. Ao voltar do torpor era outra pessoa. Chegou em casa e fez uma faxina. Jogou fora tudo o que era velho, coisas colecionadas desde criança, coisas que pertenceram aos antigos da família. Vendeu o equipamento de fotografia, queimou os negativos de centenas de pessoas, penduradas, a vigiarem-no num olhar cego, trocou o barco por uma moto, tatuou uma lua no peito e foi embora.

Ninguém mais soube dele e a casa, entregue a uma corretora, não consegue ser vendida ou alugada. As pessoas que se interessam não se sentem bem com cheiro de naftalina que nenhum desinfetante conseguiu tirar.

 
 


 

 

     


 

 

Rose Pereira