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O acontecimento em si não o perturbava particularmente. Nunca buscara a explicação, o motivo, a origem do fenômeno. Nunca entendeu e nunca fez questão alguma de entender! O que o atormentava era não lembrar o exato momento em que acontecera pela primeira vez. O lapso, o esquecimento em sua memória daquele instante de vida, apagado por capricho de tramas eletroquímicas em seu cérebro, essa era sua questão. O fato é que toda vez era assim: a compulsão, o desejo atordoando a cabeça e o tesão estrangulando o pau; a boca seca, coração disparado e suor nas mãos. Após alguns minutos de máxima expectativa, a explosão e o alívio. Em lugar do sêmen, letras eram cuspidas pelo seu pênis. Quanto mais longa a ejaculação, no lugar do esperma branco e viscoso, poderia sair o suficiente para formar palavras inteiras. Seduzido pelo fenômeno chegava a tocar uma punhetinha só para ver o efeito daqueles caracteres cuspidos, saindo como se puxados por um fio invisível, em fila indiana. A primeira letra carregando a segunda, esta a terceira e quantas fossem mais. Rebeldes e caprichosas, em vez de obedecerem à gravidade do planeta e caírem ao solo em inexorável atração, as letras esvoaçavam como se à procura do lugar mais apropriado possível, onde se grudavam. Era estranho, mas gozado e lúdico, acompanhar a desordenada levitação do enxame de letras até o seu destino, onde se ordenavam disciplinadamente, formando legível escrita gráfica. Decidiu não contar para ninguém, com medo de que o tomassem por louco. Nem mesmo procurou um médico. Sobretudo receava que, em ambiente com situação controlada, monitorada, o efeito não se repetisse, fortalecendo para qualquer um que, de fato, ele era um doido varrido. Assim, calou-se. Logo nas primeiras tentativas de remover as inscrições percebeu que, ao contrário da gosma masculina, as palavras não saíam facilmente dos locais em que se grudavam. Manchavam e permaneciam como tinta. Bem que tentou: cândida, solvente, soda cáustica... Nada adiantou. Retinta, a impressão ficava, indelével, sobre a superfície: intacta. Seduzido pelo vôo mágico, pelo inusitado, pela curiosidade ou simplesmente porque não queria furtar-se à sua compulsiva e solitária busca de satisfação, deu de ombros a cada nova pichação, fosse lá onde quer que fosse... Assim a casa passou a ser ocupada por consoantes e vogais, em uma diagramação arbitrária, porém não aleatória. A princípio, eram inscrições desconexas, palavras inacabadas e soltas em um canto qualquer. Mas aos poucos se tornavam compreensíveis à medida que se completavam.
As palavras tornaram-se fragmentos de frases, por
sua vez também incompletas. Mas, em algum momento da “constelação de
alfabeto” que se formava, percebeu um princípio qualquer de sentido nas
palavras soltas e frases ou parágrafos em construção. As escritas multiplicavam-se sobre toda superfície interna da casa. Seios, ancas largas; magras, bem torneadas; negras e novas, mulatas, brancas e velhas. A história em dias avançava, em outras horas não. Todo o kama sutra em devaneios. Harém virtual, possibilidades inexploradas... Mergulhou na floresta de significados e formas e relato que o seu esperma ia construindo, de certa maneira alheio à sua vontade. Era uma história sem pé nem cabeça, de um sujeito igual a ele, que soltava letras pelo pau. Passou a conhecer daquele estranho íntimo os traços da vida: sabores, desgostos, alegrias, esperanças perdidas, vilanias cometidas, os medos, grandeza, pavores, pequenos prazeres, descobertas, angústia: a lembrança de imorredouro pôr do sol em um dia na infância, cujos detalhes permaneciam preservados, banhados de luz... Como de estalo, em sua mente clareia aquele instante que tanto buscara, a partir do qual, ele próprio, passara a ejacular palavras. Nesse momento, levantou a cabeça, olhou em volta e percebeu a casa limpa das inscrições, como se nunca houvessem estado ali.
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A sala começava a ficar pequena para o número de parentes, amigos, conhecidos, vizinhos e um ou outro curioso da redondeza que, vendo a movimentação, entrava para verificar do que se tratava. Também enchendo a casa os sussurros, os cochichos, as conversas a meia voz; o aroma moribundo das azáleas, cravos, jasmins, rosas e coroas; os ares compungidos e as lamentações, os cumprimentos pesarosos e os lugares-comuns. Amortizada, feito alma deslizando entre os cômodos e corpos, paredes e memórias, passou da cozinha para a sala e subitamente, como se fosse resolver algo muito urgente, dirigiu-se ao quarto do irmão. Em sua mente detalhes de todos os preparativos do funeral e de como acolher, ao menos com um cafezinho, os mais íntimos da família. Sonâmbula, perdida em minúcias exigidas pela situação, abriu a porta do armário. Nada de prático a levara até ali. Havia escolhido de antemão a roupa que o morto vestia, sua melhor camisa, sua gravata preferida, seu mais novo terno. O cheiro das lembranças escapou das gavetas, escorreu das prateleiras, despencou dos cabides e invadiu-lhe as narinas. Tomou em suas mãos lenços, camisetas, peças íntimas e os aproximou de seu rosto. Escancarou a porta, abraçou os paletós pendurados, que tremelicaram, sacudidos por silenciosos e desvalidos soluços.
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Luiz Fernando Santos |