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O café quente com licor queimou a minha língua. Nada melhor para começar o dia do que uma bebida alcoólica quente disfarçada de desjejum. Até logo, seu porteiro. Vou ali, já volto já. Pode deixar que pego a correspondência na volta. Pode continuar a tirar meleca do nariz em paz. O negócio é o seguinte: hoje é o dia D. Tenho quinhentos mangos no banco, o que só me sustentaria até o final do mês que vem. Depois disso, só pedindo dinheiro pra alguém. O problema é que minha família é muito mais fodida que eu e mora longe. Voltar para o Mato Grosso é que não volto. De jeito nenhum. Então só me resta conseguir esse emprego de empacotador de supermercado. Paga mal pra caralho, mas me dará o suficiente para o aluguel e comida por mais um mês. Depois consigo outra coisa. Foda é trabalhar de empacotador perto da faculdade. Imagina se uma colega entra para comprar uma coca light, um pão integral e me vê lá empacotando requeijão? Nunca mais como ninguém daquela merda. Foda-se. Tenho que esquecer o orgulho. A situação não permite. Melhor não comer ninguém do que não comer. Puta que pariu. Olha o tamanho dessa fila. Parece que a cidade toda está atrás desse empreguinho de empacotador. Dei mole. Deveria ter me preparado melhor visualmente. Tá todo mundo olhando para mim. O que aquele cruzamento de playboy com hippie está fazendo na fila? Calma aí galera, também preciso arrumar um trampo. Minha sorte é que tá todo mundo fingindo ser quem não é, senão me expulsariam da fila com chutes na bunda. Mas tá todo mundo pianinho. Cada espécime de bigodinho, buço ridículo em cima dos lábios, que vou te contar. Ninguém tem barba nessa fila não, porra? Qual a idade desses moleques? Dezesseis, dezessete? Será que tem limite de idade? Porra, esqueci de trazer meu currículo. Mas eu não tenho currículo. Nunca fiz. Essa porra dessa faculdade de história que não garante estágio para ninguém. Eu deveria é dar umas aulas particulares para esses moleques da fila. Eles ainda devem estar na escola. Ou será que já largaram aquela merda de segundo grau. Pera aí, acho que eles nem chegaram ao segundo grau. No jornal estava que o grau de escolaridade para o emprego de empacotador era quarta série. Porra, essa fila que não anda. Ah, cacete, não pára de chegar gente. Todo mundo com camisa social estampada horrorosa, peito aberto e envelope de papel pardo na mão. Nossa, olha os sapatos daquele moleque. Têm umas cinco cores diferentes de mancha. Porra, o cara deve morar numa casa cheia de poças d’água pro sapato dele ficar assim. Quantas tonalidades de marrom será que existem? Dá para fazer um estudo só analisando o sapato do moleque. Não é que o de sapato marrom passou me encarando? Deve ter achado que eu tava tirando onda com a cara dele. Deixa pra lá. É melhor virar o rosto porque senão apanho. Não daria tempo nem de tentar contemporizar. Deve ter nego até armado nessa fila. Olha aquele ali com calça jeans e camisa larga para fora da calça. Aposto cinco centavos como ele tá com uma arma na cintura. Tá fazendo pose e tudo. Será que isso aqui também é fila para segurança de supermercado? Tem cada nego mal-encarado. Ih caralho, olha a Marcinha. Fudeu, ela vai me ver. Cala a boca, caralho. Não assobiem não que ela vai olhar pra cá e me ver. Parem de assobiar, porra. Ih, nem olhou. Passou andando rápido sem nem virar o rosto. Ignorou essa fila de homens como uma multidão amorfa. Logo ela que é toda oferecida na faculdade. O mais engraçado foi um neguinho que gritou, “ô gordinha, você é refeição pra uma semana inteira”. Não duvido nada que na faculdade ela vai contar essa história pra todo mundo. Aqui ela ignora, mas na hora de contar vantagem... Lógico que a Marcinha vai trocar o gordinha por gatinha. Aliás, onde o maluco viu gordinha na Marcinha? Ela não é esquelética, mas é uma delícia. Nada de gordinha. Comeria ela fácil. Refeição para uma semana inteira mesmo. Finalmente a porra da fila andou. Já tava com dor nas pernas. Quase uma hora aqui parado nesse muro, às vistas de quem passasse. Isso é muita humilhação. Senha 36. Quantas será que têm? Parece que vai vir alguém falar com a gente daqui a dois minutos. Tomara que seja em particular. Eu tenho que lembrar de ser bem humilde, porque esse cara superior que vai falar deve ser um empacotador sênior. Ó, não falei. Parece um clone mais velho desses moleques da fila. Só que em vez do buço um bigodinho mais cerrado. Gesticula como se fosse italiano. Tá com cara de nervosismo. Deve estar fazendo essa porra pela primeira vez. De repente tem até irmão mais novo, vizinho dele nessa fila. Porra, quatro vagas? Tô fudido. Até que o cara tem uma boa argumentação, apesar de não conjugar dois verbos certos seguidos. Pelo jeito como abotoa a camisa, quase engolindo o pescoço, deve ser crente, aspirante a pastor. Esse vai longe. Aleluia, irmão! Vamos ter um teste prático. Quase uma brincadeira. Mas é pra fazer sério, hein. Nada de gracinhas, o bigodinho avisa. Cada um vai assumir uma gôndola para empacotar com o supermercado funcionando. O bigodinho vai ficar olhando todo mundo e quem ele bater no ombro pode ir embora. Os quatro que ficarem conseguem o emprego. Concentração, caralho. Vamos lembrar o que a mamãe falava em Mato Grosso quando fazíamos compras. “Coisa de geladeira na mesma sacola que coisa de geladeira. Vidros pesam mais. Precisam de duas sacas para não arrebentar e cair no chão. Frutas amassam. Cuidado.” Grande sabedoria popular, mamãe. Se conseguir o emprego mando um dinheirinho pra você. Beleza, já saíram uns seis. Já estou na segunda compra. Compra grande dessa vez. Madame. Concentra. Putz, quase que esse vidro escorrega da minha mão. Saíram mais dois. Lá vem o bigodinho. Parou ao meu lado. Deve estar louco para me tirar. Não tenho o perfil dos empacotadores da empresa. Presunto vai na mesma sacola que queijo, o que mais será que coloco? Sabonete não, detergente não, alface não. Ah, beleza, lá vem a carne moída. Será? Vou arriscar. Pronto, o bigodinho foi embora, mesmo a contragosto. Rapaz, este treco de empacotar sob pressão é fogo. Tava ficando desesperado. Não podia fechar uma sacola só com duas coisas, nem começar outra antes de acabar a dos laticínios. Empacotar é uma mini-arte. Quem diria. Devem ter sobrado só uns oito. Levantei a cabeça rapidinho entre uma cliente e outra. Vi na hora que o bigodinho mandou o garoto do sapato marrom ir embora. Nossa, que olhar que o moleque deu. Fiquei até com medo. Espero que ele não fique puto e me espere na porta achando que a culpa de ele perder o emprego foi do “playboy” aqui. Não acredito. Isso é muito azar. A porra da mulher do tirador de meleca é a próxima cliente. Cheguei no fundo do poço. Ensacar as compras do porteiro do próprio prédio é piada de mau gosto. Cabeça baixa, ensaca sem chamar atenção. Quem sabe ela não te reconhece nesta situação esdrúxula. Pronto, tá acabando. Acho que ela não reconheceu. Vai minha filha. Paga logo em dinheiro e se manda. Ah, não. Nota de cinqüenta reais. Da onde essa mulher arranjou uma nota de 50? Não tem medo de perdê-la, não? É boa parte do salário do seu marido que a senhora carrega na bolsa à toa. Lá vem o gerente conferir se a nota de 50 é verdadeira. Agora ela vai reconhecer. Pronto. – Você...você não é...eu te conheço de algum lugar, não? – Não, senhora. Moro bem longe daqui e comecei hoje no supermercado. – Mas o seu rosto me é familiar. O seu também, dona meleca, mas cala a boca agora. Eu não posso falar com os clientes. Tem um cartaz enorme na minha frente dizendo isso colado bem nessa gôndola (embaixo, para apenas os empacotadores lerem). – A senhora está enganada. – Estou não – Está sim senhora (meleca). – ... Talvez. Pronto, compra ensacada, mulher do porteiro saindo do supermercado. Acho que dessa me safei. – Pode ir. – Mas por quê? – Falou com o cliente. Não pode. – Ela que falou comigo. Só respondi. E educadamente. – Vai embora, rapazinho. Você não pode responder a um superior ou aos clientes. Normas da empresa. – Mas é questão de educação. – Normas da empresa. E você não tem o perfil de empacotador do nosso supermercado. Nem adianta discutir. Já era. O jeito é voltar para casa e dormir. Escutei na fila que amanhã abre uma vaga para vendedor de colchão em uma loja no shopping. Talvez essa vaga tenha mais o meu perfil. Bom dia, seu porteiro. A correspondência? As cartas? Não vai me entregar não? Merda de melequenta. Me caguetou. Lá se foi meu respeito. – Eu não sou empacotador, não. Sou ator. Aquilo era uma pegadinha do Faustão. – É mermo? Vai passar quando? – Talvez nesse domingo, talvez no outro. Pode avisar para sua mulher. – Aviso sim. Neste domingo ou no outro? Ela nem percebeu. O senhor é bom mesmo. Olha as cartas aqui, doutô. Três coisas para começar a resolver amanhã: 1 – arranjar um emprego de vendedor de colchões, 2 – mudar de prédio, 3 – comer a Marcinha.
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A empregada de dona Teresinha, Aurora, uma mulata das mais escuras, fez campana na porta do edifício Primavera para convidar todos os moradores para a festa da patroa. A ocasião era especial, ela alertava aos condôminos, dona Teresinha, já velhinha e doente, coitada, iria se matar no dia seguinte. O argumento era forte, convenhamos, e todos paravam para escutar Aurora sobre a situação de dona Teresinha, velhinha bastante discreta que morava no 902. A patroa estava cansada, desenganada pelos médicos, que lhe davam poucos meses de vida, depressiva após a morte do marido e companheiro, Seu Adolfo, sujeito ainda mais calado e discreto. Não queria mais viver e anunciou sua morte para Aurora no dia 31 de outubro para quitar suas dívidas com a empregada. A data também era significativa, pois o dia seguinte, 1º de novembro, marcava a data do 50º ano que ela estaria casada com Seu Adolfo. Esta seria uma bela data para morrer, disse dona Teresinha a Aurora, assustando a empregada. A aglomeração na porta do edifício aumentava, todos penalizados com o sofrimento da vizinha, mesmo sem conhecê-la pessoalmente. Dona Teresinha deixaria de tomar os remédios que ingeria de duas em duas horas. Oito horas sem as drogas a matariam rapidamente, devido ao seu fraco sistema imunológico e problemas no coração e pulmão. Aurora conseguiu sensibilizar quase todos que entraram pela porta do edifício naquela manhã, com a maioria prometendo que estaria no apartamento 902 às 19 horas daquela sexta-feira. Era uma festa sem o consentimento de dona Teresinha, então nada de surpresas, pois a velhinha não tinha coração para tanto. A orientação de Aurora era para os vizinhos irem chegando aos poucos, trazendo comidinhas e bebidas, sem muito alarde ou pedidos para ela desconsiderar o suicídio. E assim aconteceu. A partir das 19 horas, batidinhas leves na porta aconteciam de dois em dois minutos, sempre com a desculpa de uma visitinha de cortesia dos vizinhos, até que a sala da dona Teresinha estava entulhada de gente. Aurora, na porta da cozinha, observava com os dedos cruzados a reação espantada de dona Teresinha. Por sorte, a velhinha reagiu muito bem. Tinha ficado deitada o dia inteiro e estava bem disposta para a festa. Parecia muito bem, diferente daquela que prometera para a empregada se matar no dia seguinte. Dona Teresinha não era boba. Logo na segunda visita percebeu que aquilo era obra da empregada, que deveria ter contado seus planos para os vizinhos. Não deu nem tempo de se importar, porque a cada minuto mais vizinhos chegavam para cumprimentá-la, entregar vinhos, salgadinhos, pastinhas, refrigerantes, bolos e sidras. Os grupinhos foram se formando, alguns chegavam e iam embora, prestavam solidariedade rápida e retornavam a seus problemas, outros ficavam conversando com dona Teresinha, sem tocar diretamente no assunto suicídio, mas tentando convencê-la de que só Deus poderia tirar a vida de alguém e e prosseguindo com todo o tipo de papo religioso. Dona Teresinha era só sorrisos. Desde a morte do marido não se permitia um sorriso. Minto, desde muitos anos antes já perdera a força e o desejo de sorrir com gosto. Mas sorria bastante naquela noite, animada. Confidenciava a um que iria se matar, mas que mudara de idéia e então tirava um comprimido do bolso e tomava. Sorrisos, cochichos para Aurora, e o vizinho satisfeito se retirava com a consciência do dever cumprido. Outra rodinha, outra promessa de que não se mataria no dia seguinte, outro comprimido e até um golinho de vinho. Dona Teresinha sorria, recebia beijos e carinhos de jovens piedosos, crentes descrentes, católicos com medo de morrer e tomava comprimidos. Bateram 22 horas no velho cuco de madeira e a festa acabou. Tarde demais para uma velhinha, que agora afirmava ter dia seguinte, estar acordada no meio de agitação tão grande. Aurora foi dispersando os vizinhos, mesmo alguns que tinham chegado há pouco, somente para comer o bolo trazido pela vizinha quituteira do 606, agradecendo e orientando a irem embora, que já eram horas. Por fim, ficaram sozinhas as duas. Dona Teresinha pediu para Aurora ajudá-la a deitar. Agradeceu à empregada pela festa, pela salvação, aquela algazarra a fizera perceber que ainda valia a pena resistir à doença e que a solidão não precisava ser tão grande. Pediu um copo d’água à empregada, ou melhor, vinho para celebrar, e tomou mais um comprimido, alertada por Aurora para não esquecer os remédios. Amanheceu morta, logicamente. Não foi o vinho nem a grande dose dos remédios, embora deva ter contribuído, mas sim o coração, que bateu forte demais e parou em um ataque fulminante enquanto dona Teresinha dormia. Na noite seguinte, ao voltarem do dia de trabalho, os moradores do edifício Primavera foram surpreendidos no elevador com o comunicado da morte de dona Teresinha, moradora do 902. O enterro seria no dia seguinte, na Capela 2 do cemitério São João Batista, às 9 horas. Ninguém apareceu.
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Flávio Izhaki |