|
|
|
Primeira corrida, e a cabeça doendo pra chuchu. Seriam mais cinco até o final do dia, e a cabeça doendo pra chuchu. Jardim Santo André até o Carrão naquele ônibus em cacos, depois do Santos ter levado três em pleno Morumbi; a festa toda pronta, Kaiser à vontade, certeza da Libertadores e deu no que deu: cabeça doendo pra chuchu. Na Avenida Aricanduva pediu parada um sujeito com cara de índio. Entrou e sentou-se no local reservado para os idosos e deficientes. O motorista nem se deu conta de que ele não cruzara a catraca. O carro estava vazio e aquela dor de cabeça... Robinho, caramba! Não fez nada. Quebrou o pedal... E subiu mais gente, velhos e deficientes, enchendo o reservado. O mestiço não arredou, ficou sentadinho como se não fosse com ele. Até que o cobrador bateu em seu ombro: – Ei, amigo... O estranho virou-se: – Sí? – Você precisa levantá. Tem deficiente no carro querendo sentá. – Como? – tornou a perguntar. – Deficiente. Velhos e deficiente. O senhor precisa cedê o lugar. – No comprendo. No hablo sú lengua. O cara não era brasileiro. O cobrador não entendeu nada. Pacientemente recomeçou: – Esse aí: baanco. – Baanco! – Sim. O baanco onde tu tá sentado é dele – apontando para um homem de muletas, que mal agüentava o sacolejo do ônibus e cairia a qualquer instante. – Del? Há, sí, el asiento és del? – É... – Ahora comprendo. El asiento és del discapacitado? “Discapacitado!?” O cobrador não entendeu bolufas e chamou o motorista: – Ei, Ricardo: o que é discapacitado? Que Diabo de pergunta: discapacitado? Sua cabeça estourando de dor e ele vinha com uma pergunta daquelas. Se limitou a responder “sei lá!” – É esse homem que fala enrolado todo. Tá falando discapacitado; que Diabo é isso? O estrangeiro voltou a se virar para frente, como se não fosse com ele. E o deficiente continuou cai não cai. O motorista continuou alheio, com a cabeça doendo pra chuchu. O cobrador insistiu: – Ei, amigo. Levanta! Dê o lugar para o deficiente... – No comprendo, no comprendo. No soy brasileño. O cobrador já estava perdendo a paciência. Gritou para o motorista: – Ô Ricardo: o cara tá se fazendo de boboca. E mais essa agora. Ele com a cabeça doendo pra chuchu e um infeliz se metendo a besta. Que hora pro Santos levar uma goleada... E o Paulo Almeida, hem! Deu o amarelo pro juiz. – O que foi? – Esse argentino não qué se levantá. – Argentino! Argentino da Argentina? – Não sei. O cobrador voltou para o estranho, que fazia que não era com ele: – Ei! Tu é da Argentina? – Si! – animado – Soy Argentino del Boca. Viva el Boca Júnior! – gritou alto vários vivas, o suficiente para que todos ouvissem, inclusive o motorista, santista fanático. Aqueles gritos aumentaram mais ainda a dor de cabeça. Sem pensar, meteu o pé no freio, estancando em plena avenida. A parada foi tão brusca que todos que estavam em pé ou mal colocados nos assentos, beijaram o assoalho. O primeiro a dar com a cabeça no estribo foi o deficiente, que estava cai não cai. – Que merda de “Biba el Boca” é esse? Vá tirá onda na casa do caralho, rapaz! Todos olharam espantados para o motorista, que tinha se posto em pé. – Ô Ricardo, calma aí pô! – apaziguou o cobrador. – Calma o cacete! Mande esse Boca pra trás, já! – voltando para o volante. O cobrador voltou para o Argentino, agora confirmado, que se refazia. – Ei, ouviu meu amigo: fica em pé. – No puedo... – Como assim? – Yo soy discapacitado. – Ô Ricardo: ele tá falando que é discapacitado. O que é isso? O ônibus já estava andando, e o deficiente continuava cai não cai; o motorista com a dor triplicada e o argentino fazendo que não era com ele. – Bota esse cara pra trás. – Mas ele não pode, é discapacitado. – E o que é isso? – Sei lá! – Ele tem a carteira? O cobrador voltou para o argentino, que já tinha sentado de novo, como se não fosse com ele: – Ei, tem a carteira? – Que? – A carteira da SPTrans? – Cartera? O cobrador fez o gesto com a mão, indicando o tamanho da carteira de passe livre. – Sí, la cartera... – Isso! E o homem tirou a identidade do bolso, aproximando dos olhos do cobrador. – Não, não. Não é essa. A de passe livre. – No? – Não. O senhor vai ter que pagá. Ô Ricardo: o cara não tem carteira. – Então paga! – O senhor vai ter que pagá. – Pagá? – É. Levanta, passa a catraca, vai. – No, no. No tengo plata. Dinero. – Ô Ricardo: o cara tá sem grana. E a dor que só aumentava. Mais essa agora, um argentino, do Boca, querendo viajar de graça no seu carro. – O quê! Brecou de novo, agora quando estava a uma velocidade acima dos quarenta, causando um impacto ainda maior que o anterior. O deficiente, que estava cai não cai, foi dar com a cabeça na catraca. Os passageiros que estavam nos últimos bancos foram jogados para frente: alguém bateu na traseira. – Desce! Seu argentino de merda. – Como? – como se não fosse com ele. – Desce já, seu safado! – Yo tengo cartera... – Não entendo sua língua enrolada – e agarrou o argentino pelo colarinho, que soube então que o negócio era com ele. – No puede acer así. Yo tengo cartera. Não houve tempo para mais explicações. Quando o argentino deu por conta, estava no meio da Avenida Aricanduva, cercado de buzinas. – E não me apareça mais aqui! O cobrador, que estava pasmo, tentou acalmar o amigo: – Ô Ricardo, calma aí, ô... – Calma uma ova, seu são-paulino de uma figa! E voltou ao volante, com a cabeça doendo pra chuchu. O argentino se reergueu, foi até a porta – que ainda estava aberta – levantou a blusa, exibiu a camisa número dois do São Paulo, e gritou em alto e bom português: – Seu santista filho da puta! O motorista voltou a frear de soco, jogando mais uma vez o deficiente, que estava cai não cai, para o chão. Saiu de trás do volante e dirigiu-se para a porta, a fim de pegar o argentino, que já não se sabia mais se era argentino ou são-paulino disfarçado. Mas o cobrador pulou em sua frente: – Ô Ricardo, não faz isso. Já tamu atrasado, no meio da rua... Dexa o sujeito pra lá. Mesmo contrariado, voltou ao volante. O cobrador voltou-se para o deficiente, que estava levanta não levanta, e disse: – Senhor, pode sentá em seu lugar – apontando para o assento vazio. Mas, inesperadamente, ele agarrou as muletas e como um raio tomou caminho de fora, como se fugisse de um demônio.
|
|
Clodoaldo Turcato |