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A tensão que vinha sentindo no corpo começou a se dissipar e, fechando lentamente os vítreos olhos amarelados, se deixou seduzir pelo pensamento de que o fim da fúria que o havia carregado mundo afora num semestre de libertinagem desvairada se aproximava de maneira recatada, mas decidida. O vento seco e fresco acariciava o rosto que ardia com a Febre, embalsamava o lábio que rachara diante do ardor do sol. Os dedos da mão macia, que ao longo de sua vida não fora empregada em um dia sequer de trabalho braçal, faziam na areia aveludada pequenos buraquinhos circulares. Respirou profundamente, e resolveu abrir os olhos. A noite estava exuberante na sua discrição. A Lua, sempre a lua, amarelada e parcialmente desnudada trazia a luz que tudo banhava em Prata. O ar vibrava com uma intensidade que invoca Um Silêncio (aquele que segue a badalada de um sino gótico do alto de uma extinta catedral). Cristalino, o céu lhe confiava sua profundeza, desdobrando-se em camada após camada de cianóticas transparências. As estrelas resplandeciam como uma infinidade de lágrimas espelhadas, suspensas no ar como que por obra de intervenção milagrosa. A água da pequenina lagoa que protagonizava este oásis refletia o firmamento de maneira tão efêmera, que se aproximava mais na sua natureza essencial de um perfume doce e passageiro. Os olhos de âmbar voltam a se cerrar, e os pensamentos surgem das trevas do ser para turvar o silêncio negro em que ele havia se retirado. Haviam sido brutais, verdadeiramente, os últimos seis meses. Já tendo fugido do seu lar cosmopolita nos trópicos brasileiros, não se contentou saciando sua sede de Europa. Poucas semanas na escuridão barroca dos subterrâneos parisienses, na companhia de gatos negros e senhoritas de contestável reputação e entre vapores asiáticos e preparados de anis cor-de-esmeralda, bastaram para que ele percebesse que não se encontrava nem em Rimbaud nem em Baudelaire a resposta para a inquietação que lhe rasgava reincidentemente a alma. Partiu, então, para o Norte do planeta, onde viu Deus fazer do céu um vitral intensamente colorido, e da terra uma amplitude própria unicamente para o viajar do Pensamento. Desgostoso com o frio e a escuridão Invernosa, saiu em direção ao Oriente, chegando em tempo de presenciar o anúncio da primavera na forma de uma linda manhã, que se aproximava junto às flores de lótus a bordo de um plácido rio Cor de Alvorada. Tomado então pela obsessão de conhecer na terra uma paz e serenidade que tragicamente existia apenas na sua imaginação hipertrofiada, rumou para o Deserto. Aqui ele encontrou algo. Não sabe ainda se é o que buscava, mas o distanciamento com que consegue agora pensar nas pessoas que constituíram sua vida não pode ser nada além de uma sorte de conquista. Estavam todos tão longe, suas memórias atacadas pela imaginação da mesma maneira que cupins atacam madeira velha. Lembranças de lugares e pessoas se expressavam nas Cores e Curvas dos cartazes em estilo Art Noveau que haviam servido de ímpeto para noites de violentos excessos no passado próximo. Já não sabia mais o que era sentir na nuca o hálito frio da adorável catalana que conheceu em Montmartre, nem os amigáveis tapas nas costas dos seus companheiros cariocas (muitos deles amigos desde a infância), tampouco o abraço acolhedor de um familiar. A beleza da vida enchia seu peito e lhe fazia querer Gritar. Mas as pessoas da sua vida, estas sufocavam seu grito e sem necessitar de nada além de um momento compartilhado no passado conseguiam encher-lhe de tristeza e Desespero. Ele abre os olhos. Talvez tenha sido necessário vir até aqui para sentir na Alma, entender realmente, que nada se repete. Estaria ele agora menos só do que antes?
(ele fecha os olhos, e, no sussurrar do vento que
desamassa a água e no ruído dos grãos de areia que escorrem entre seus
dedos, uma pequena sinfonia começa a lhe encher os ouvidos.)
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