Uma fabulazinha vulgar

 
    Si vos sciences dictées par la sagesse n'ont servi qu'à perpétuer
l'indigence et les déchirements, donnez-nous plutôt des sciences dictées par la folie, pourvu qu'elles calment les fureurs, qu'elles soulagent les misères des peuples.

Charles Fourier

I am the Eggman!
They are the eggmen!
I am the Walrus!

John Lennon
 
   

 

 

1

Devo admitir que sou tomado por um grande sentimento de surpresa quando abro o jornal e descubro que o delegado Dr. James Person do segundo distrito policial de Fortaleza havia sido estuprado por um esturjão de um metro e oitenta e nove de altura. Aparentemente, o esturjão, demonstrando todo o seu sangue-frio, havia invadido o apartamento do delegado e, já nu e sexualmente excitado, aguardado a vítima na sua banheira. O delegado havia entrado no toalete com grande pressa, desesperado para se livrar da moqueca que havia degustado no jantar. Quando abaixou as calças e se preparava para sentar no vaso, o esturjão atacou, se acoplando à suas costas. O jornal continha a concisa declaração do delegado a respeito do ocorrido: “Foi horrível”. Ainda de acordo com o jornal, o esturjão, que havia sido apreendido, disse que queria mostrar “quem come quem por aqui”. O delegado se encontra em um hospital de Fortaleza, onde aguarda a retirada dos ovos nele depositados. Um médico não identificado atestou que o ultra-som acusou “caviar do tamanho de bolas de tênis” se desenvolvendo no intestino grosso do bom homem.

Leio a notícia perplexo, afinal não era época de esturjão cruzar. De qualquer maneira, minha boca saliva ao pensar na desova do Dr. Person. “Bolas de tênis”, penso.

De fato, o dia havia começado bizarro. As lâmpadas do meu quarto estavam novamente cheias de Coca-Cola, e eu sei que preciso drená-las antes que elas comessem a estourar. Três meses atrás eu havia tido preguiça e deixado as coisas como estavam. Foi um saco. As lâmpadas estouraram e tudo no quarto está grudento até hoje. É preciso drená-las, disto eu sei, mas agora não. O que eu quero mesmo agora é ir para a piscina vazia no quintal e fingir que estou dirigindo um Fórmula 1. Eu adoro. Sento no fundão com capacete e faço barulhos de aceleração com a boca. É divertido e qualquer um pode fazer: É só articular um beicinho e relaxar os lábios: BRRRRRRRRRRRRRRRRR.

Mas infelizmente não vou poder disputar o GP de Monza na minha Ferrari-Piscinão. Não, tenho obrigações a cumprir. Tudo em São Paulo ficou mais difícil depois que os japoneses patrocinaram o escoamento do Tietê e o conseqüente despejo de toneladas de suco de graviola no seu leito. Gente do mundo inteiro vem a São Paulo e passa dias de quatro nas margens do grande rio, bebendo do seu néctar. Estudos escandinavos recentes apontam as qualidades medicinais da graviola do Tietê. Isso tornou o trânsito ainda mais infernal. Sim, mais infernal ainda. Imaginem: os carros que agora saem nas ruas não dirigem sobre o asfalto, e sim sobre os carros que estão há anos parados no trânsito sobre o asfalto. Os motoristas térreos vivem das balinhas que a molecada vende naqueles saquinhos de plástico, esperando o dia em que eles poderão avançar em direção aos seus destinos. Existe até um nova seita que prevê que o Messias voltará como Engenheiro de Trânsito da CET. Estatísticas da Prefeitura prevêem um terceiro andar até o final do ano...

E eu sou muito ocupado, tenho muito a fazer. Vou a pé mesmo, porque afinal não tenho tempo a perder. A agenda está cheia, companheiros. A primeira obrigação é de natureza religiosa, como verão.


2

Como sabem, todos os cidadãos de bem do mundo livre devem diariamente fazer oferendas ao Grande Cu. O Grande Cu, símbolo máximo da religiosidade nos tempos atuais, é representado em São Paulo por um grande orifício que levita sobre a sede do Esporte Clube Corinthians Paulista. Todos os dias, tenho que me locomover até o Grande Cu, levantar uma latinha de cerveja e gritar:

– Supositório de Cevada! Ó Grande Cu! Supositório de Cevada!

Em seguida lanço com grande força a oferenda para o centro do buraco negro. O gemido monstruoso que constantemente emana do Grande Cu ao receber dezenas de milhões de supositórios ressona incessante por toda a cidade, e é garantia de que a cidade e o país serão poupados da ira do Grande Cu e da potência mundial que deu origem ao seu culto. É, portanto, de suma importância que o dia não passe sem que eu consiga fazer minha oferenda diária. Não quero ser o responsável pela retaliação massiva de um Grande Cu irado. Eu amo o Brasil! Amo o Brasil e não serei eu o culpado pelo santo cocô que seria derramado sobre nossas cabeças tupiniquins em caso de transgressão.

Existem divergências quanto à origem do Grande Cu. Por muitos anos, a esquerda defendeu que se tratava de um produto do capitalismo, tanto interno quanto internacional. Seria ele, nesta interpretação, a concretização de todos os erros e maus tratos à que a civilização Ocidental se submeteu ao perseguir abstrações que o acúmulo de capital providenciaria. Após a consolidação da hegemonia do culto ao Grande Cu, vozes dissidentes se calaram, e a esquerda achou outro alvo para suas reclamações (isso entre uma e outra louvação ao Grande Cu). Eu não li tantos livros assim, mas acho esta explicação simplista. Acho que o Grande Cu sempre existiu, de uma forma ou de outra. Hoje, após séculos de encubação (durante os quais ele foi nutrido e lubrificado pelas fibrosas cagadas que cometemos ao longo dos anos), ele vive sua Pax Anal e permeia todas as esferas da existência humana. Ele é a sombra que eclipsa o que a vida neste planeta poderia ser, mas que ninguém ousa contestar. Já sinto o peso da culpa recair sobre mim ao formar estas palavras. Estes pensamentos constituem a mais tenebrosa blasfêmia, e como meu cúmplice, você é tão pecador quanto eu.

Embarco, portanto, rumo ao cumprimento do meu dever cívico-religioso, munido apenas de duas latinhas de cerveja (uma reserva caso eu erre o primeiro arremesso, coisa que nunca aconteceu), um par de chinelos, uma ratazana morta para dar sorte, uma camiseta regata e um bermudão furado. É, amigo, a criminalidade permanece preocupante e não se deve sair de casa com nada além do necessário. Quem pouco tem, pouco tem a perder.

É cedo, mas o calor já é intenso. O ar de São Paulo tem a consistência de bolo de fubá e, de fato, a última telenovela fez um retrato comovente dos migrantes que vinham até a cidade comer os chamados bolinhos cinzas, que nada mais são que fatias do ar fétido que fermenta na atmosfera paulistana nos dias de verão em que o ar da cidade se encontra mais sujo. Muita gente chorou.

É um dia estranho, realmente. Minha longa caminhada em direção ao Grande Cu é abruptamente interrompida por três elementos vestidos de preto, sendo eles dois rapazes e uma mocinha. Os olhares negros que me lançaram fez com que eu sentisse um leve gelar nos meus testículos. Definitivamente estão vindo na minha direção. Seria uma daquelas tribos urbanas que degolam vítimas inocentes e bebem seu sangue? Seriam assaltantes? Testemunhas de Jeová? Metaleiros?

Pude de imediato reconhecer uma certa hierarquia no grupo. A menina deve ser a líder e a mentora, portando cabelo vermelho e um olhar existencialista parecia ser uma pessoa séria, e tinha uma certa aura autoritária. Os dois rapazes, muito parecidos, ostentavam uma fisionomia que mesclava Francisco Cuoco e Baby Doc e expressões pouco inteligentes. São, de fato, idênticos, se não fosse a diferença de peso. Um era redondo, o outro Marco Maciel. E eles falam:

– Somos os Pintões Negros!

– Pintões Negros! CARALHO!

– Que é que vocês são?

– Os Pintões Negros!

– Sim, os Pintões Negros! PUTAQUIPARIUU!

– Pin tosnegros?

– Pintões Negros!

– Pintões Negros! PORRRA!

– Por que?

– Por que nossas mães eram galinhas e ostentamos a cor negra do anarquismo! Viva a bandeira negra do anarquismo!

– Viva!

– Vocês são anarquistas?

– Sim, e filhos de umas galinhas!

– GALINHAS ESCROTAS! ESCROTAS PRA CARALHO!

– Eh... perdoe meu irmão. Ele tem síndrome de Tourette.

– Síndrome do que?

– Não importa. Reparamos que você tem duas latinhas de cerveja no bolso.

– CARALHOOO!

– Sim?

– Seriam estas cervejas para o Grande Cu?

– Seriam? Pro GRANDE CU DO CARALHO!

– Sim, seriam.

– FILHO DA PUTA!

– Nós somos os Pintões Negros e queremos que você se una a nós na nossa luta contra o Grande Cu. Jogue fora estas latinhas imediatamente.

– PORRA queremos ARROMBAR O GRANDE CU DO CARALHO!

– Ele está certo, nós os Pintões Negros, queremos arrombar o Grande Cu.

– Sei.

– Acho que ele não se convenceu da nossa luta PORRA.

– É, eu também tenho esta impressão. Você não vai se juntar a nós? Ou você está conosco ou está contra nossa luta.

– A quanto tempo vocês estão engajados nesta causa? Eu ainda não percebi nenhuma represália do Grande Cu...

– É porque começamos hoje.

– FILHO DA PUTA! De manhãzinha...

– Sei.

A menina, que até então havia permanecido calada sacou um maço de cigarros. Ela então produziu uma garrafa de álcool em gel, e banhou o cigarro no seu conteúdo. Ela ascendeu e fumou-o com um só trago. A fumaça rosa que ela soltou formou uma nuvem no formato de um Pikachu. Ela fala:

– Olhe amigo, somos contra o Grande Cu e vamos arrombá-lo. Está decidido. Queira você ou não vamos expulsar daqui este símbolo do imperialismo estrangeiro.

– E como vocês pretendem fazer isto?

– Junte-se a nós e descobrirá.

– Olhem, eu vou falar agora e quero que vocês prestem bastante atenção. Todos devem obedecer o Grande Cu. Certas coisas não se contestam. Vocês são jovens. É natural que queiram confrontar o Cu. Mas a medida que vocês forem ganhando vivência, vão ver que a vida ditada pelo Cu não é tão ruim assim. Trata-se de um exercício de paciência, de maturidade. Devem conformar-se com o Cu. Não lutem contra o Cu ou tudo será pior. Não imponha em tantos outros as tuas frustrações e ambições. Pensem que da sua decisão individual depende a vida e a felicidade de todo mundo, em toda a parte. Não seja egoísta – a solução para você não é a solução para mim, e eu não quero que nada seja feito em meu nome por ninguém. Somos todos diferentes e estas diferenças merecem respeito. Gosto da minha vida como ela é, independente da existência ou não do Grande Cu. Quero continuar vivendo para levá-la aos seus limites. Acho que nisso, a maioria está comigo.

A expressão da existencialista se manteve estática. Talvez os olhos dela, aquelas grandes bolas brancas de cera quente, tenham se liquidificado um pouco, ou talvez não. Talvez ela não fosse tão fria e calculista, afinal. Sei que sinto surpresa quando ela pega minha mão direita entre as dela e diz:

– Agora quem vai falar sou eu. Quando eu terminar, poderemos continuar a marcha juntos, ou podemos seguir nossos próprios caminhos. Até agora, estava disposta a arrancar-lhe na marra suas latinhas, mas não o farei. Você poderá sair com elas se assim desejar. Mas peço que você me escute, como eu te escutei. Basta um discurso como este que você acaba de fazer para eu me desesperar. Hoje em dia fala-se tanto em felicidade! Ela aparece na televisão contida por embalagens de pasta de dente, fraldas geriátricas, esmalte. Ela é gerada pelo motorzinho de liquidificadores, de maquinas de lavar. Viramos o rosto para a dor do cara que está a poucos metros da gente em nome da nossa felicidade, e a felicidade daquelas pessoas que conhecemos e gostamos. Não lhe parece errado que não conhecemos mais ninguém? Votamos em políticos que se apresentam da forma que convém para ganharem eleições, não sabemos o que eles pensam. Isto é um reflexo do caráter cada vez mais impessoal e absurdo que as nossas relações individuais e particulares estão tomando. Vivemos nossas vidas sem conhecermos nossos vizinhos, as pessoas que todo dia cruzamos na rua a caminho do nosso trabalho, as pessoas no trabalho... Somos inteiramente substituíveis. Você é mandado embora como se fosse uma peça de um grande maquinário, ninguém pára um instante e conversa com você para saber das suas idéias, dos seus sentimentos, da sua vivência para usar seu termo... Para subir é preciso se promover, se vender, se prostituir. E isto é o trabalho, que afinal é uma parcela grande do nosso cotidiano, é o ambiente em que passamos a maioria do nosso tempo, que nos mune de dignidade e ele está corrompido e desumanizado. Mas se fosse só isto, e o resto estivesse bem, ainda vai lá... Mas é impossível andar de carro na cidade, você sabe bem... E a segurança! Vi você tremer quando andamos na sua direção. Você discorda de mim quando digo que o estado da humanidade atualmente é muito precário? Você pode sinceramente afirmar que isto é vida? Que você é feliz? Que tem facilidade em encontrar amigos com quem pode ter conversas sinceras? Ou será que você sente, como eu sinto, estar sozinho numa cidade de quase trinta milhões de pessoas? Não lhe parece tudo errado? Você não sente que a civilização moderna falhou? Quando foi a última vez que você se apaixonou?

– Não vejo o que minhas latinhas tem a ver...

– Porra! Como assim? Tem um Grande Cu no céu sobrevoando tua cabeça e você me diz que está tudo bem? Você não quer fazer nada? Vai ficar esperando ele aumentar as suas exigências até que seja impossível cumpri-las para que ele cague em você, na tua mãe, no teu pai, em tudo que você conhece e aprecia? Que porra é essa? Você é tão covarde assim que a tua vida está preste a literalmente se tornar uma merda e você não faz nada a respeito? Você vai passar o resto da tua vida assim, comendo merda e dizendo que está gostoso? Você agüenta? Vai ignorar todas as opções que você tem na vida, toda a liberdade que é por direito sua, e se entregar? Cadê a tua dignidade? Tem um Grande Cu no céu, porra! Que mais você precisa para saber que algo tem que mudar?

– Você sabe qual é a represália imposta em caso de motim contra o Grande Cu? Ele vai confiscar o seu anus e cagar em todo mundo... Você viu como foi no Oriente, eles tão nadando na merda até agora...

– Eu e meus companheiros, ao fazer o juramento revolucionário dos Pintões Negros arrancamos nossos cus. Quem nada tem, nada tem a perder.

– Vocês não têm cus?

– Não.

– E como é que vocês fazem... Sabe?

– Damos um jeito. Um cu não é um negócio tão necessário assim.

– Tudo bem, mas e o mar de merda que será despejado na cidade?

– Olhe, já estamos na merda. Cheire.

Conduzido até o poste de iluminação, sou encorajado a fungá-lo. Realmente, fede a merda. Minha amiga fulva me aponta uns carocinhos que parecem milho preso entre as rachaduras do poste.

– Está vendo? É merda, merda pura, só o milho não é digerido. As construções, o asfalto, os carros, esta roupa que você está usando, as relações interpessoais, cheire e verá que é tudo merda...

– Mas é merda de quem? Quem cagou isto tudo?

– Ora, todos nós. Ninguém, nem mesmo o Grande Cu, tem a genialidade de transformar tudo que já foi bonito e perfumado em merda sozinho. É um negócio que foi acontecendo. É como se aos poucos o detrito do conjunto de nossas ações ultrapassasse nossas conquistas. A balança está para virar. E é por isto que temos que fazer alguma coisa. Lembra quando o mar era limonada e os leões caçavam para nos alimentar, e os leões-marinhos jogavam peixes do mar para que pudéssemos comer? Lembra quando o amor jorrava como uma hemorragia do centro da terra, e conseguíamos alcançar o equilíbrio necessário para se enxergar nos olhos dos outros, tirando grande felicidade das alegrias de estranhos? Tudo isto está no nosso alcance novamente, na verdade tudo isto sempre esteve ao nosso alcance. Basta ir atrás. Querer. Buscar de verdade. Ter raça. Concordo que existem coisas na vida que não críamos nem controlamos. A natureza, por exemplo... Mas ninguém está organizando um levante contra a natureza. Agora todas as outras coisas que fedem, o Grande Cu inclusive, que parece uma grande abstração, na verdade foi criado por nós. O Grande Cu, o Mercado, as coisas da vida– são criações nossas, frutos das nossas decisões. Podemos desfazer a civilização moderna, a hipocrisia que reina na vida marital, as relações de trabalho. Eu te digo e quero que você acredite, podemos desfazê-las todas...

Devo admitir que ela é bastante coerente. Muito mesmo. E agora, porra?

– PORRA! CARALHO! PUTAQUEPARIUUU!

– Controle-se, amigo.

– Desculpe, MERDA. Não posso fazer nada.

O que é que eu faço? Uma menina sem cu... Interessante. Pode ser uma oportunidade única. Mas o que estou dizendo? Isto se trata de uma decisão de ordem política importante. Merece toda a minha consideração. Mas por outro lado, quantas decisões de proporções históricas não foram tomadas porque um cara só queira dar umazinha? As bolas de cera que formavam seus olhos se derretem e escorrem pelo rosto dela, revelando os orifícios oculares... Aqueles orifícios oculares...

– Mas então suponho que vocês têm um plano para combater o Grande Cu?

– Temos... Mais ou menos.

– Como assim, mais ou menos?

– Queremos que o levante seja espontâneo, sabe? Como no dia da queda da Bastilha...

– A Bastilha?

– Sim! Um carinha saiu na rua e pensou: e se tomássemos a Bastilha? Então ele gritou “Para a Bastilha!” As outras pessoas gostaram da idéia e foram se juntando a ele, até que uma multidão decidida estava marchando em direção a prisão para derrubá-la gritando “Para a Bastilha! Para a Bastilha!” ...

– É este seu plano?

– Você está conosco?

Olho no vão daquela cavidade ocular e no fundo, além dos restos de cera derretidos, além das larvas que lá haviam se assentado, posso pressentir na irrigação sanguínea dos seus tecidos uma verdadeira vibração afetiva. Não resisto. Sinto novamente no fundo do estômago um sentimento de desespero e solidão que vem me acompanhando ao longo dos anos. Ela tem razão, está tudo errado e a mudança tem que começar em algum lugar. Lembro de um sonho que tive certa vez. Estava eu envolvido por um escuro e frio céu vespertino, ponteado de estrelas. Meus pés em nada se apoiavam, e minha pele registrava a sensação de ser tocada por veludo. O ar era tão delicioso! Descia pela garganta como um perfumado elixir, e meu corpo girava em torno de si mesmo ao som das minhas gargalhadas. Na distância, no vão entre um pontinho de luz e outro, tomam forma imagens de momentos passados na minha vidinha vazia. Eu me lembro de ter pensado que até vivenciei coisas bonitas, mas faltava tanto...
Juro lealdade a sua causa, e ela me abraça, serpentina de madrepérola chove do firmamento. O fluxo de vinho espumante que pipocava dos bueiros cobre nossos pés com sua bruma...

3

Sou um Pintão Negro. Minha agenda agora está vazia, e como todo Pintão tenho apenas um objetivo: esfolar o Grande Cu. Eu e meus novos companheiros temos muito a discutir e fazer. Proponho uma reunião de cúpula na minha casa, que afinal é logo ali, subindo a ladeira. Podemos nos sentar, tomar a cerveja que seria sacrificada e resolver qual será nosso próximo passo. Sabemos que o tempo é pouco. Depois da meia-noite, o Grande Cu perceberá que não cumprimos nossa obrigação e a retaliação diarréica será maciça. Ação! Precisamos agir imediatamente. Você diz:

– Calma amigo. Estamos no Brasil. Existe a possibilidade que o Grande Cu se contenha, que tudo não acabe em merda e sim em pizza.

Não, companheiro. Este é o Grande Cu de que estamos falando. Você age como se não lembrasse do que se passou no Oriente. Só acabará em pizza se for uma pizzona de guano, servida fria. Não, se prepare companheiro, porque não vai ser brincadeira. Vai acabar em merda, não tem outro jeito. Não são exageros os relatos que narram o ataque fecal do Oriente. Este é o preço de se envolver com um movimento que tenha as pretensões dos Pintões Negros. A revolução é um compromisso levado até a morte. Não por orgulho revolucionário, nem por uma ética pequeno-burguesa que frisa valores patéticos como a honra, ou o martírio. Não, quando você se opõe a alguma coisa da proporção do Grande Cu, você não espera que ela deixe sua rebeldia passar inconseqüente. É bom que se saiba que para mudar as coisas é preciso fazer sacrifícios, e às vezes, os sacrifícios são verdadeiramente custosos. O Grande Cu vai nos pegar. É bom que o revolucionário saiba disso. O Grande Cu vai nos pegar; o futuro que nos espera é escuro e cheira mal. Mas quando a hora chegar lidaremos com isso.

– Vamos, temos muito a discutir e pouco tempo.

– Como é que vocês se chamam?

– Eu sou Nida. Aquele é o Nassibson, o seu irmão é Sahidson. Tem alguém na tua casa?

– Talvez minha tia-avó esteja lá, mas não se preocupe. Ela é inofensiva. A propósito, eu sou Aengus.


4

Entramos na minha casa. Nida se fascina com um espelho antigo que temos logo na entrada, perto da porta.

– Como é bonito!

– Mas Nida...

– O que é?

– Posso te fazer uma pergunta?

– Você pergunta o que quiser. Eu respondo o que eu quero.

– Como é que você enxerga se... Você sabe...

– Como é que enxergo se não tenho olhos?

– É.

– Ora, olhos não são uma coisa tão necessária assim.

Minha tia avó elefantópode ainda está dormindo no seu quarto. Ela costuma fazer sua oferenda para o Grande Cu no fim da tarde. Nos sentamos na sala ao redor da ponta de seu pé inchado pela elefantíase, que se encontra coberto por uma toalha de mesa. Sirvo cerveja a todos, inclusive as que seriam sacrificadas para o Grande Cu. Tomar esta cerveja é nosso primeiro ato revolucionário. Nida fala, acentuando seu discurso ao trazer consecutivamente seu punho cerrado ao encontro do pé da minha tia-avó (nossa mesa). Ela nos relembra da Guerra do Oriente, e das táticas usadas pelos nossos precursores Anti-cus. “Não há nada mais nocivo ao Grande Cu que papel higiênico de botequim e pimenta da braba”. Nida acha que não teremos grandes dificuldades em conseguir juntar gente empenhada em combater o Grande Cu. Eu contesto. Ela explica:

– Se você parar para sentir, perceberá que estamos vivendo um momento crucial. E é bom que seja assim, porque agora que nos comprometemos com a nossa causa, não nos resta opção além de ir até o fim. Em breve o Grande Cu perceberá que realmente não temos a intenção de fazer mais oferendas, nem hoje, nem nunca. Ele começara a agressão, só que acredito que desta vez as pessoas não toleraram esta sorte de violência. Parece que de repente, algo dormente está para despertar nas entranhas do monstro de merda. As pessoas que, quietas e complacentes, foram perdendo tudo que dava sentido às suas vidas estão aos poucos percebendo que nada sobrou. Acho que dada à devida oportunidade, sairá a população em busca do Geist perdido.

– CARALHO! PORRA!

– Calma, Nassibson. O que eu e meu irmão queremos saber é o que vem agora. O que deve ser feito?

Nida volta seu olhar vazio a Sahidson. Com a consistência e coerência que lhe são particulares Nida não transmite nada além de obstinação e a certeza da vitória. Mas eu sei – lhe faltam idéias quanto à melhor forma de prosseguir. Durante este breve momento de silêncio percebo pela primeira vez que Nida não tem boca, mas não me manifesto. Afinal uma boca não é uma coisa tão necessária assim. Nassibson quebra o silêncio. Seria alguma idéia salvadora?

– CARALHOTAS!

Sinto o desespero se semeando ao redor do pé da minha tia-avó. São, porém, nestes momentos, quando tudo parece estar perdido que surge a redenção na forma de uma brilhante idéia. E eu a compartilho com os companheiros:

– Sei quem pode nos ajudar.



5

Todo mundo sabe que há muitos anos o Diabo fez de São Paulo sua residência oficial. Muito antes de São Paulo ser este inferno, tecnicamente já era o Inferno. Quando chegou, tudo aqui lhe agradou: as rebeliões na Febem, o PCC, os motoboys, brigas de torcidas uniformizadas, o trânsito, as enchentes quando chovia, os bispos que enriqueciam as custas dos fiéis, a poluição, os seqüestros relâmpagos e os nem tão relâmpagos assim. Sua residência estava localizada num bairro de classe média na Zona Norte da cidade. Talvez o fato de o Diabo optar por morar junto à classe média lhe surpreenda, afinal, sabemos que o Diabo facilmente poderia se integrar aos ricos e poderosos da cidade. Devo confessar que a mim, pareceu estranho. Mas também não li tantos livros assim. O Diabo é de fato um cara imprevisível. Certa vez me disse com sua voz tranqüila e viscosa: “Adoro a pequena-burguesia, Aengus. A classe média é fantástica. É infinitamente mais perversa que a burguesia, porque ela aspira toda a escrotidão que cerca os ricos e se frustra por não a ter. É a classe média que valida e perpetua tudo de podre que rola lá em cima, são seus desejos e sonhos de consumo que dão incentivos ao comportamento inescrupuloso e ridículo dos ricos. A classe média cria fantasias idiotas e sonhos fúteis, a classe alta os vive, e a classe média assiste na televisão, nas colunas sociais e nas revistas de fofoca. Não se engane, a pequena-burguesia é a responsável. É a minha gente”.

O Diabo foi muito feliz aqui, pelo menos no início. Exerceu por algum tempo a profissão de juiz no Tribunal de Alçada Civil, tendo passado em primeiro no concurso. O judiciário foi ótimo para que ele se mantivesse atualizado nas novas modalidades de malvadeza e sem-vergonhice, mas era só um passatempo. O business do Diabo sempre foi o comércio de almas, e em São Paulo encontrou oportunidades sem precedentes, mesmo para ele. Era incrível a quantidade de gente disposta a vender sua alma por besteirinhas, e inigualável o prazer de esmagar essa gente. Cada vez as coisas ficavam mais fáceis para o Diabo, que já quase não precisava fazer nada para manter seu negócio. O prazer do cotidiano se encontrava em convencer os indecisos, em profanar e perverter os inocentes. O Diabo foi se aperfeiçoando e sua vaidade lhe convenceu que era bom mesmo. O Diabo, facistóide que é, achava que faria de São Paulo seu reinado na Terra, cidade modelo das suas crenças e convicções. Ele estava muito bem. Andava pelo centro e via toda a beleza abandonada, o medo das pessoas e se deleitava. “Sabe”, ele me disse certa vez, “é disso que eu gosto. Gosto da decadência. O que me motiva é assistir a Perda. Se o mundo fosse inteiro mal, não teria a mínima graça. Gosto desta esperança que vocês têm, estúpida e teimosa, de sempre buscar melhorias, buscar a beleza, a felicidade (que porra, aliás, é essa tal de felicidade? Eu te digo; é a minha maior jogada de marketing. Você não pode nem imaginar quantas almas este sloganzinho mixuruca me rendeu.) – só pra cagar tudo no final. Vocês são uns cagões MESMO, mas continuam tentando. Vocês são egoístas, mas tentam se amar. A vida não tem sentido, e vocês tentam ter fé. Vocês nunca serão satisfeitos, mas procuram eternamente se convencer que se possuírem só mais aquela coisinha (ou aquela pessoa) tudo estará bem de uma vez por todas... Acho bastante divertido”. São Paulo naquela época representava bem isso, um ralo por onde escorriam centenas de milhões de frustrações. É improvável que existisse outro lugar no mundo onde tantos sonhos se quebrassem, onde tantas almas se desviaram dos seus caminhos, onde houvesse tantas barreiras entre um homem e seu vizinho. São Paulo era a cidade que tinha dado errado.

Conheci o Diabo no auge do seu poder. Estávamos ambos de férias em uma cidadezinha turística da Bahia, em pleno Carnaval. Chovia muito forte na noite em que o vi pela primeira vez. Eu estava abrigado embaixo de um toldo, e ele saiu da escuridão e da chuva, encharcado, andando calmamente na minha direção. Tinha os cabelos longos e crespos, os olhos vermelhos, a pele de tão azedamente branca era quase transparente. Vestia uma camisa do Vélez Sarsfield – sim, amigo, se Deus é brasileiro não tenhas dúvida de que o Diabo é cem por cento porteño. A despeito disso, falava português sem sotaque. Bastou uma palavra para eu perceber que ele estava totalmente embriagado:

– Xoxota.

– Como?

– Xoxotinhaaaaaa.

– ...

– Eu quero uma.

– Sei. Eu também.

– Pastel de pêloooo.

– É.

– Xoxotaaaa.

– Pois é.

– Xana.

– Sim, senhor.

– Xanaaa.

– Muito bem.

– Você tem um foguinho, aí?

– Não.

– Eu tenho.

– Que bom.

– Porque eu sou... Sabe quem eu sou?

– Na verdade, não.

– Sou o Tal. Sou o Senhor das Trevas.

– Não diga.

– Sou sim. Você não acredita? Dúvida do Senhor... dastrevas?! Quer que eu peide labaredas de fogo verde?

– Não, de forma alguma.

– Então me compra um capeta.

– Como é que é?

– Capeta. Quero tomar um. Quero que tome comigo. Vamos tomar um capeta.

– Um capeta?

– Um capetinha.

Andamos até uma casinha azul de teto e parede esburacados. Em cima da porta estava pintado em tinta verde “Pubi do Çeu Raimundinho – Chove lá fora, pinga qui dentro.” De fato. Sentamos em uma mesinha de ferro, daquele tipo que forma conjunto com cadeiras da mesma cor e material, com o logotipo de alguma cerveja na parte traseira do encosto. O Diabo tomou seu capeta e eu, licor de jenipapo. Aos poucos o Diabo foi se abrindo e descobri que no fundo ele era um cara legal. Nos tornamos bons amigos, virando a cidadezinha de cabeça para baixo ao espantar as moças (nativas e turistas) durante nossos devaneios embriagados. Ele tentou comprar a minha alma várias vezes, quase fechando negócio uma vez em que bebi um pouco demais (Minha alma por outra dose! gritei), mas aos poucos foi deixando esta idéia de lado. Foram boas férias, e o seu fim marcou o fim de várias coisas para El Diablo.

Quando voltamos para São Paulo, encontramos a cidade diferente. Um pontinho negro mal-cheiroso já era visível no céu da nossa janela, e o piloto do avião que nos trazia para casa teve que fazer uma manobra audaciosa para não tomar no Cu. O Diabo pediu que a aeromoça nua se levantasse do seu colo para que ele pudesse ver que porra era aquela, um Cu gigantesco no meio do céu laranja da cidade, rodeado de hienas-voadoras que riam histericamente quando as hiper-flatulências sacudiam a metrópole. O Diabo, como eu, não assistira televisão nem lera jornal durante sua ausência, e não conseguia entender a dimensão das mudanças que haviam se efetuado enquanto ele estava fora. Depois de compartilharmos um incrédulo silêncio, o Diabo falou:

– Por muito tempo compartilhei com vocês mortais a ilusão de que a existência se dava sempre no momento, no instante, no presente. Bom, o futuro chegou, estamos vivendo o futuro e ele é um Cu gigante...

Visitei o Diabo algumas vezes em São Paulo, mas estas visitas acabavam sempre por me deprimir. O Diabo era apenas uma sombra do demônio que conheci no Nordeste. Estava amargurado e sempre bêbado. A vitória do Grande Cu havia sido completa. A nova ordem por ele estabelecida não deixava lugar para pessoas com almas, e conseqüentemente todas as pessoas de bem se livraram das suas para não ter problemas, despejando-as de maneira displicente sobre a moribunda represa Billings. O Diabo era uma vítima da nova economia, era um mercador obsoleto, e dizem as más línguas que até ele fazia o ocasional sacrifício ao Grande Cu. O Diabo agora integrava o lumpenproletariat paulistano, e como tal, era excelente matéria-prima de Pintão Negro.


6

Fica combinado da seguinte maneira: Eu vou falar com o Diabo. Nida vai aos intelectuais e aos estudantes agitar para ver se consegue alguns recrutas. Os irmãos Son vão fazer alguma outra coisa. Nos encontramos diante da Catedral da Sé antes de escurecer. Lembrem-se de que temos pressa, não nos resta muito tempo.
 

 

 

 
     

 

Arno Schwarz
Cientista Político formado pela Brandeis University
Nascimento10/08/1980