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Uma fabulazinha vulgar |
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Si vos sciences dictées par la
sagesse n'ont servi qu'à perpétuer l'indigence et les déchirements, donnez-nous plutôt des sciences dictées par la folie, pourvu qu'elles calment les fureurs, qu'elles soulagent les misères des peuples. Charles Fourier I am the Eggman! They are the eggmen! I am the Walrus! John Lennon |
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1 Leio a notícia perplexo, afinal não era época de esturjão cruzar. De qualquer maneira, minha boca saliva ao pensar na desova do Dr. Person. “Bolas de tênis”, penso. De fato, o dia havia começado bizarro. As lâmpadas do meu quarto estavam novamente cheias de Coca-Cola, e eu sei que preciso drená-las antes que elas comessem a estourar. Três meses atrás eu havia tido preguiça e deixado as coisas como estavam. Foi um saco. As lâmpadas estouraram e tudo no quarto está grudento até hoje. É preciso drená-las, disto eu sei, mas agora não. O que eu quero mesmo agora é ir para a piscina vazia no quintal e fingir que estou dirigindo um Fórmula 1. Eu adoro. Sento no fundão com capacete e faço barulhos de aceleração com a boca. É divertido e qualquer um pode fazer: É só articular um beicinho e relaxar os lábios: BRRRRRRRRRRRRRRRRR. Mas infelizmente não vou poder disputar o GP de Monza na minha Ferrari-Piscinão. Não, tenho obrigações a cumprir. Tudo em São Paulo ficou mais difícil depois que os japoneses patrocinaram o escoamento do Tietê e o conseqüente despejo de toneladas de suco de graviola no seu leito. Gente do mundo inteiro vem a São Paulo e passa dias de quatro nas margens do grande rio, bebendo do seu néctar. Estudos escandinavos recentes apontam as qualidades medicinais da graviola do Tietê. Isso tornou o trânsito ainda mais infernal. Sim, mais infernal ainda. Imaginem: os carros que agora saem nas ruas não dirigem sobre o asfalto, e sim sobre os carros que estão há anos parados no trânsito sobre o asfalto. Os motoristas térreos vivem das balinhas que a molecada vende naqueles saquinhos de plástico, esperando o dia em que eles poderão avançar em direção aos seus destinos. Existe até um nova seita que prevê que o Messias voltará como Engenheiro de Trânsito da CET. Estatísticas da Prefeitura prevêem um terceiro andar até o final do ano...
E eu sou muito ocupado, tenho muito a fazer. Vou a pé mesmo, porque afinal
não tenho tempo a perder. A agenda está cheia, companheiros. A primeira
obrigação é de natureza religiosa, como verão. – Supositório de Cevada! Ó Grande Cu! Supositório de Cevada! Em seguida lanço com grande força a oferenda para o centro do buraco negro. O gemido monstruoso que constantemente emana do Grande Cu ao receber dezenas de milhões de supositórios ressona incessante por toda a cidade, e é garantia de que a cidade e o país serão poupados da ira do Grande Cu e da potência mundial que deu origem ao seu culto. É, portanto, de suma importância que o dia não passe sem que eu consiga fazer minha oferenda diária. Não quero ser o responsável pela retaliação massiva de um Grande Cu irado. Eu amo o Brasil! Amo o Brasil e não serei eu o culpado pelo santo cocô que seria derramado sobre nossas cabeças tupiniquins em caso de transgressão. Existem divergências quanto à origem do Grande Cu. Por muitos anos, a esquerda defendeu que se tratava de um produto do capitalismo, tanto interno quanto internacional. Seria ele, nesta interpretação, a concretização de todos os erros e maus tratos à que a civilização Ocidental se submeteu ao perseguir abstrações que o acúmulo de capital providenciaria. Após a consolidação da hegemonia do culto ao Grande Cu, vozes dissidentes se calaram, e a esquerda achou outro alvo para suas reclamações (isso entre uma e outra louvação ao Grande Cu). Eu não li tantos livros assim, mas acho esta explicação simplista. Acho que o Grande Cu sempre existiu, de uma forma ou de outra. Hoje, após séculos de encubação (durante os quais ele foi nutrido e lubrificado pelas fibrosas cagadas que cometemos ao longo dos anos), ele vive sua Pax Anal e permeia todas as esferas da existência humana. Ele é a sombra que eclipsa o que a vida neste planeta poderia ser, mas que ninguém ousa contestar. Já sinto o peso da culpa recair sobre mim ao formar estas palavras. Estes pensamentos constituem a mais tenebrosa blasfêmia, e como meu cúmplice, você é tão pecador quanto eu. Embarco, portanto, rumo ao cumprimento do meu dever cívico-religioso, munido apenas de duas latinhas de cerveja (uma reserva caso eu erre o primeiro arremesso, coisa que nunca aconteceu), um par de chinelos, uma ratazana morta para dar sorte, uma camiseta regata e um bermudão furado. É, amigo, a criminalidade permanece preocupante e não se deve sair de casa com nada além do necessário. Quem pouco tem, pouco tem a perder. É cedo, mas o calor já é intenso. O ar de São Paulo tem a consistência de bolo de fubá e, de fato, a última telenovela fez um retrato comovente dos migrantes que vinham até a cidade comer os chamados bolinhos cinzas, que nada mais são que fatias do ar fétido que fermenta na atmosfera paulistana nos dias de verão em que o ar da cidade se encontra mais sujo. Muita gente chorou. É um dia estranho, realmente. Minha longa caminhada em direção ao Grande Cu é abruptamente interrompida por três elementos vestidos de preto, sendo eles dois rapazes e uma mocinha. Os olhares negros que me lançaram fez com que eu sentisse um leve gelar nos meus testículos. Definitivamente estão vindo na minha direção. Seria uma daquelas tribos urbanas que degolam vítimas inocentes e bebem seu sangue? Seriam assaltantes? Testemunhas de Jeová? Metaleiros?
Pude de imediato reconhecer uma certa hierarquia no grupo. A menina deve
ser a líder e a mentora, portando cabelo vermelho e um olhar
existencialista parecia ser uma pessoa séria, e tinha uma certa aura
autoritária. Os dois rapazes, muito parecidos, ostentavam uma fisionomia
que mesclava Francisco Cuoco e Baby Doc e expressões pouco inteligentes.
São, de fato, idênticos, se não fosse a diferença de peso. Um era redondo,
o outro Marco Maciel. E eles falam: – Pintões Negros! CARALHO! – Que é que vocês são? – Os Pintões Negros! – Sim, os Pintões Negros! PUTAQUIPARIUU! – Pin tosnegros? – Pintões Negros! – Pintões Negros! PORRRA! – Por que? – Por que nossas mães eram galinhas e ostentamos a cor negra do anarquismo! Viva a bandeira negra do anarquismo! – Viva! – Vocês são anarquistas? – Sim, e filhos de umas galinhas! – GALINHAS ESCROTAS! ESCROTAS PRA CARALHO! – Eh... perdoe meu irmão. Ele tem síndrome de Tourette. – Síndrome do que? – Não importa. Reparamos que você tem duas latinhas de cerveja no bolso. – CARALHOOO! – Sim? – Seriam estas cervejas para o Grande Cu? – Seriam? Pro GRANDE CU DO CARALHO! – Sim, seriam. – FILHO DA PUTA! – Nós somos os Pintões Negros e queremos que você se una a nós na nossa luta contra o Grande Cu. Jogue fora estas latinhas imediatamente. – PORRA queremos ARROMBAR O GRANDE CU DO CARALHO! – Ele está certo, nós os Pintões Negros, queremos arrombar o Grande Cu. – Sei. – Acho que ele não se convenceu da nossa luta PORRA. – É, eu também tenho esta impressão. Você não vai se juntar a nós? Ou você está conosco ou está contra nossa luta. – A quanto tempo vocês estão engajados nesta causa? Eu ainda não percebi nenhuma represália do Grande Cu... – É porque começamos hoje. – FILHO DA PUTA! De manhãzinha...
– Sei. – E como vocês pretendem fazer isto? – Junte-se a nós e descobrirá.
– Olhem, eu vou falar agora e quero que vocês prestem bastante atenção.
Todos devem obedecer o Grande Cu. Certas coisas não se contestam. Vocês
são jovens. É natural que queiram confrontar o Cu. Mas a medida que vocês
forem ganhando vivência, vão ver que a vida ditada pelo Cu não é tão ruim
assim. Trata-se de um exercício de paciência, de maturidade. Devem
conformar-se com o Cu. Não lutem contra o Cu ou tudo será pior. Não
imponha em tantos outros as tuas frustrações e ambições. Pensem que da sua
decisão individual depende a vida e a felicidade de todo mundo, em toda a
parte. Não seja egoísta – a solução para você não é a solução para mim, e
eu não quero que nada seja feito em meu nome por ninguém. Somos todos
diferentes e estas diferenças merecem respeito. Gosto da minha vida como
ela é, independente da existência ou não do Grande Cu. Quero continuar
vivendo para levá-la aos seus limites. Acho que nisso, a maioria está
comigo. – Não vejo o que minhas latinhas tem a ver... – Porra! Como assim? Tem um Grande Cu no céu sobrevoando tua cabeça e você me diz que está tudo bem? Você não quer fazer nada? Vai ficar esperando ele aumentar as suas exigências até que seja impossível cumpri-las para que ele cague em você, na tua mãe, no teu pai, em tudo que você conhece e aprecia? Que porra é essa? Você é tão covarde assim que a tua vida está preste a literalmente se tornar uma merda e você não faz nada a respeito? Você vai passar o resto da tua vida assim, comendo merda e dizendo que está gostoso? Você agüenta? Vai ignorar todas as opções que você tem na vida, toda a liberdade que é por direito sua, e se entregar? Cadê a tua dignidade? Tem um Grande Cu no céu, porra! Que mais você precisa para saber que algo tem que mudar? – Você sabe qual é a represália imposta em caso de motim contra o Grande Cu? Ele vai confiscar o seu anus e cagar em todo mundo... Você viu como foi no Oriente, eles tão nadando na merda até agora... – Eu e meus companheiros, ao fazer o juramento revolucionário dos Pintões Negros arrancamos nossos cus. Quem nada tem, nada tem a perder. – Vocês não têm cus? – Não. – E como é que vocês fazem... Sabe? – Damos um jeito. Um cu não é um negócio tão necessário assim. – Tudo bem, mas e o mar de merda que será despejado na cidade?
– Olhe, já estamos na merda. Cheire. – Mas é merda de quem? Quem cagou isto tudo?
– Ora, todos nós. Ninguém, nem mesmo o Grande Cu, tem a genialidade de
transformar tudo que já foi bonito e perfumado em merda sozinho. É um
negócio que foi acontecendo. É como se aos poucos o detrito do conjunto de
nossas ações ultrapassasse nossas conquistas. A balança está para virar. E
é por isto que temos que fazer alguma coisa. Lembra quando o mar era
limonada e os leões caçavam para nos alimentar, e os leões-marinhos
jogavam peixes do mar para que pudéssemos comer? Lembra quando o amor
jorrava como uma hemorragia do centro da terra, e conseguíamos alcançar o
equilíbrio necessário para se enxergar nos olhos dos outros, tirando
grande felicidade das alegrias de estranhos? Tudo isto está no nosso
alcance novamente, na verdade tudo isto sempre esteve ao nosso alcance.
Basta ir atrás. Querer. Buscar de verdade. Ter raça. Concordo que existem
coisas na vida que não críamos nem controlamos. A natureza, por exemplo...
Mas ninguém está organizando um levante contra a natureza. Agora todas as
outras coisas que fedem, o Grande Cu inclusive, que parece uma grande
abstração, na verdade foi criado por nós. O Grande Cu, o Mercado, as
coisas da vida– são criações nossas, frutos das nossas decisões. Podemos
desfazer a civilização moderna, a hipocrisia que reina na vida marital, as
relações de trabalho. Eu te digo e quero que você acredite, podemos
desfazê-las todas... – Controle-se, amigo.
– Desculpe, MERDA. Não posso fazer nada. – Temos... Mais ou menos. – Como assim, mais ou menos? – Queremos que o levante seja espontâneo, sabe? Como no dia da queda da Bastilha... – A Bastilha? – Sim! Um carinha saiu na rua e pensou: e se tomássemos a Bastilha? Então ele gritou “Para a Bastilha!” As outras pessoas gostaram da idéia e foram se juntando a ele, até que uma multidão decidida estava marchando em direção a prisão para derrubá-la gritando “Para a Bastilha! Para a Bastilha!” ... – É este seu plano?
– Você está conosco? – Como é que vocês se chamam? – Eu sou Nida. Aquele é o Nassibson, o seu irmão é Sahidson. Tem alguém na tua casa?
– Talvez minha tia-avó esteja lá, mas não se preocupe. Ela é inofensiva. A
propósito, eu sou Aengus. – Mas Nida... – O que é? – Posso te fazer uma pergunta? – Você pergunta o que quiser. Eu respondo o que eu quero. – Como é que você enxerga se... Você sabe... – Como é que enxergo se não tenho olhos? – É.
– Ora, olhos não são uma coisa tão necessária assim. – CARALHO! PORRA!
– Calma, Nassibson. O que eu e meu irmão queremos saber é o que vem agora.
O que deve ser feito? O Diabo foi muito feliz aqui, pelo menos no início. Exerceu por algum tempo a profissão de juiz no Tribunal de Alçada Civil, tendo passado em primeiro no concurso. O judiciário foi ótimo para que ele se mantivesse atualizado nas novas modalidades de malvadeza e sem-vergonhice, mas era só um passatempo. O business do Diabo sempre foi o comércio de almas, e em São Paulo encontrou oportunidades sem precedentes, mesmo para ele. Era incrível a quantidade de gente disposta a vender sua alma por besteirinhas, e inigualável o prazer de esmagar essa gente. Cada vez as coisas ficavam mais fáceis para o Diabo, que já quase não precisava fazer nada para manter seu negócio. O prazer do cotidiano se encontrava em convencer os indecisos, em profanar e perverter os inocentes. O Diabo foi se aperfeiçoando e sua vaidade lhe convenceu que era bom mesmo. O Diabo, facistóide que é, achava que faria de São Paulo seu reinado na Terra, cidade modelo das suas crenças e convicções. Ele estava muito bem. Andava pelo centro e via toda a beleza abandonada, o medo das pessoas e se deleitava. “Sabe”, ele me disse certa vez, “é disso que eu gosto. Gosto da decadência. O que me motiva é assistir a Perda. Se o mundo fosse inteiro mal, não teria a mínima graça. Gosto desta esperança que vocês têm, estúpida e teimosa, de sempre buscar melhorias, buscar a beleza, a felicidade (que porra, aliás, é essa tal de felicidade? Eu te digo; é a minha maior jogada de marketing. Você não pode nem imaginar quantas almas este sloganzinho mixuruca me rendeu.) – só pra cagar tudo no final. Vocês são uns cagões MESMO, mas continuam tentando. Vocês são egoístas, mas tentam se amar. A vida não tem sentido, e vocês tentam ter fé. Vocês nunca serão satisfeitos, mas procuram eternamente se convencer que se possuírem só mais aquela coisinha (ou aquela pessoa) tudo estará bem de uma vez por todas... Acho bastante divertido”. São Paulo naquela época representava bem isso, um ralo por onde escorriam centenas de milhões de frustrações. É improvável que existisse outro lugar no mundo onde tantos sonhos se quebrassem, onde tantas almas se desviaram dos seus caminhos, onde houvesse tantas barreiras entre um homem e seu vizinho. São Paulo era a cidade que tinha dado errado.
Conheci o Diabo no auge do seu poder. Estávamos ambos de férias em uma
cidadezinha turística da Bahia, em pleno Carnaval. Chovia muito forte na
noite em que o vi pela primeira vez. Eu estava abrigado embaixo de um
toldo, e ele saiu da escuridão e da chuva, encharcado, andando calmamente
na minha direção. Tinha os cabelos longos e crespos, os olhos vermelhos, a
pele de tão azedamente branca era quase transparente. Vestia uma camisa do
Vélez Sarsfield – sim, amigo, se Deus é brasileiro não tenhas dúvida de
que o Diabo é cem por cento porteño. A despeito disso, falava português
sem sotaque. Bastou uma palavra para eu perceber que ele estava totalmente
embriagado: – Como? – Xoxotinhaaaaaa. – ... – Eu quero uma. – Sei. Eu também. – Pastel de pêloooo. – É. – Xoxotaaaa. – Pois é. – Xana. – Sim, senhor. – Xanaaa. – Muito bem. – Você tem um foguinho, aí? – Não. – Eu tenho. – Que bom. – Porque eu sou... Sabe quem eu sou? – Na verdade, não. – Sou o Tal. Sou o Senhor das Trevas. – Não diga. – Sou sim. Você não acredita? Dúvida do Senhor... dastrevas?! Quer que eu peide labaredas de fogo verde? – Não, de forma alguma. – Então me compra um capeta. – Como é que é? – Capeta. Quero tomar um. Quero que tome comigo. Vamos tomar um capeta. – Um capeta?
– Um capetinha.
Quando voltamos para São Paulo, encontramos a cidade diferente. Um
pontinho negro mal-cheiroso já era visível no céu da nossa janela, e o
piloto do avião que nos trazia para casa teve que fazer uma manobra
audaciosa para não tomar no Cu. O Diabo pediu que a aeromoça nua se
levantasse do seu colo para que ele pudesse ver que porra era aquela, um
Cu gigantesco no meio do céu laranja da cidade, rodeado de hienas-voadoras
que riam histericamente quando as hiper-flatulências sacudiam a metrópole.
O Diabo, como eu, não assistira televisão nem lera jornal durante sua
ausência, e não conseguia entender a dimensão das mudanças que haviam se
efetuado enquanto ele estava fora. Depois de compartilharmos um incrédulo
silêncio, o Diabo falou:
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