“O mundo é um conjunto indivisível
em movimento fluente”

David Bohm

“Cada elemento do cosmos está positivamente entrelaçado
com todos os outros. É impossível seccionar essa rede para
isolar uma porção sem que ela desfie e se esfiape nas pontas”

Teilhard de Cardin

 

Os avanços científicos e tecnológicos sedimentados em nosso mundo contemporâneo trouxeram contribuições e benefícios significativos para a humanidade. Todavia, na medida em que os modelos da tecnociência foram sendo concebidos como estatutos únicos de verdade e passaram a exercer predomínio em nossa cultura, foram trazendo conseqüências danosas e ameaçadoras para o destino da humanidade.

A predominância da tecnociência em detrimento de outras dimensões da cultura e da vida (arte, subjetividade – sentimentos, emoções... –, mitopoético, espiritualidade etc.) foi instaurando processos destrutivos através de posturas mecanicistas, separatistas, rijas e excessivamente materialistas.

Nessa atmosfera, o ser humano foi sendo separado da Natureza, o sujeito do objeto, o coração da razão, o corpo do espírito, o feminino do masculino... Em todas as grandes tradições culturais e sabedorias da humanidade esses pólos são compreendidos como elementos interligados, interativos e complementares na formação da inteireza de nosso ser, de nossa relação com o cosmos.

As posturas separatistas tendem a mutilar e dilacerar a vida, as vidas do planeta, o próprio planeta Terra. O ser humano reduzido apenas ao plano da razão, da técnica, do lógico e do funcional perde sua sensibilidade, atrofia seus sentimentos e espírito de solidariedade e compaixão. Fragmenta-se, torna-se calculista e coisifica-se. Desfigura sua própria vida; desencanta-se.

Esse modelo de extremação da tecnociência, da racionalidade técnica superestimou o ter e subestimou o ser. Passamos volumosamente a ter papéis, poderes funcionais, coisas (alguns), e fomos deixando de ser humanos, de ser gente, indivíduos (não divisíveis).

Esses modelos uniformizantes que se autodelegam portadores da verdade, com sua lógica exclusivista, foram excluindo as diferenças de etnia, de cor, de credo, de idéias e valores estabelecendo a intolerância entre as diversidades culturais, religiosas etc., levando a guerras genocidas.

Desse modo, os recursos da ciência e da técnica foram sendo, em grande medida, utilizados para fins escusos, desprovidos de ética, maculando assim o rosto da humanidade. O ecossistema foi sendo esfiapado e destruído através de posturas político-econômicas imediatistas, explorativas e insanas. A Natureza foi sendo tão macerada que passou a gritar diante de tamanha estupidez. A destruição das florestas, dos rios, das fontes naturais de energia; o esgarçamento da sociedade, as mazelas político-econômicas, o efeito estufa, a destruição da camada de ozônio são algumas das marcas de um progresso movido, sobretudo, pela lógica da técnica funcional e consumista, esvaziada de valores humanos

Interpelada pelas catástrofes que esses modelos provocaram nas últimas décadas, a humanidade tem sido impelida (parece que a fórceps) à escuta dos seus gemidos agônicos. Relatórios, pesquisas e investigações profundas, experiências realizadas nas mais diversas áreas de saber e de práticas sócio-político-culturais nos alertam com contundência: ou mudamos com urgência nossos valores e posturas nas relações micro e macro com e no planeta Terra, ou seremos todos, indistintamente, vítimas de nossa cegueira e arrogância, de nossas atitudes suicidas com nossa “barbárie civilizóide”. Ou nos salvamos todos ou seremos todos naufragados.

Começamos a compreender que ao separarmos o dentro do fora, o coração da razão, o corpo do espírito, o masculino do feminino... mutilamos os sentidos primordiais da vida, destruimos a dinâmica viva do ecossistema onde tudo se encontra em relações interativas de interdependência. Quanto mais separamos e fragmentamos mais nos dilaceramos e nos destruímos, como também destruímos a todo o planeta.

No despontar do novo milênio uma “nova consciência” vai emergindo: precisamos religar o que desligamos, cuidar da unidade na multiplicidade, reconciliarmo-nos com a Natureza, com nossa própria interioridade para que possamos contribuir na construção de nosso destino comum buscando um mundo onde todos possam viver com dignidade e bem estar; para que envidemos a busca da Ética (o bem) e da Estética (o belo); a busca da felicidade. Religar os fios da teia que foram partidos para que os fluxos cósmicos de energia vital sejam reavivados e a vida possa assim ser renovada e reencantada.

A Física Quântica, a Teoria do Caos, a Epistemologia da Complexidade, a Psicologia Transpessoal, o Movimento Ecológico, a expansão da presença da Cultura e da Arte, a escuta da Subjetividade, o renascimento das Tradições espirituais, o desenvolvimento sustentável (além das demagogias) etc., são alguns dos sinais dos tempos que anunciam o estandarte da esperança dessa “nova consciência” e de novos modos de relações humanas e transhumanas onde a Ética da Solidariedade e a Fraternidade Cósmica, a “escuta sensível” vão inspirando nossas ações cotidianas.

As dores que afetam a humanidade, como as dores de um parto, apontam para (re)nascimentos, para transformações profundas em nossos modos de ser e de estar no mundo. Uma consciência mais alargada, sensível, crítica e criadora, eivada de sabedoria e de amorosidade poderá engravidar e partejar as mudanças fundamentais que podem conduzir a humanidade ao salto qualitativo que fecunda a dinâmica vívida de sua evolução.

Mediante a lógica da inclusividade, podemos, portanto, religar nosso dentro com nosso fora, nosso corpo com nosso espírito, nosso masculino com nosso feminino, nossa intuição com nossa razão, nosso coração com nossa mente, as diversidades de nossas culturas; religar nosso ser com a Natureza. Compreendendo assim que todos somos interdependentes e nos complementamos uns com os outros no sentimento originário da simpatia que pode reentrelaçar os fios da teia recompondo a “unidade perdida”, a sinergia bloqueada. A compreensão e a atenção à inteireza de nosso ser nos leva aos cuidados que dão mais sentido e boniteza às nossas vidas e às vidas de todo o ecossistema.

Desse modo, vamos nos reconciliando com a unidiversidade do universo, assumindo nossa tarefa como indivíduos singulares, mas que carecem dos outros para a composição da sinfonia cósmica, para cultivar a paz e sorver a beleza. Destarte, compreendemos que nosso destino é comum, e o que possibilita a afinação e a edificação desse destino é a expressão da energia integradora e criadora do Amor – mistério do imensurável que nos une quando aprendemos a romper os grilhões que nos amesquinham, a derrubar as muralhas de nossas intolerâncias, a rasgar as máscaras que nos separam de nós mesmos e dos outros.

Urge ousarmos ações educativas que primem pela formação dos valores humanos, da inteireza do ser mediante processos de autoformação e de ecoformação. Urge instituirmos um novo humanismo – o ecohumanismo – em que seres humanos e demais seres do universo se entrelaçam dialogicamente. Urge nutrirmos nossas trilhas e aventuras com o fogo da coragem e a seiva do amoroso nos tornando menestréis de uma nova ordem mundial que, no fluxo de seus movimentos abertos e expansivos, se cria e se recria incessantemente. Urge tecermos a teia da evolução da Consciência, da Era das Relações, do tempo de Religação!
 
 


 

 
     
   
   


 

““A morada do homem é o extraordinário.”
Heráclito

 


Consideramos como ordinário aquilo que se encontra meramente na esfera da ordem regular das coisas, embutido na roupagem do rotineiro, que é estabelecido de forma cristalizada e linear. O extraordinário se caracteriza como aquilo que transpõe essa ordem, que desarticula a sua regularidade/normalidade, fazendo emergir elementos e sentidos novos, na forma e no conteúdo da mesma, na movência do fluxo dinâmico da vida, das coisas.

Na ordem instituída do ordinário, as teias de aranha instalam-se diante do estado de inércia e de letargia a que as coisas são reduzidas. A ordem estática do ordinário, com a cadência decadente do mesmo, incide no emboloramento do ser das coisas, em que estas ficam, portanto, revestidas com o mofo esmaecedor e ofuscante de seu brilho.

O ordinário adormece, recalca os desejos que compõem nossa existência em suas dimensões mais subterrâneas e que aspiram rebelar-se na pulsação de seu movimento rítmico. A hibernação do ordinário esconde e retém o sol da vida, apagando as centelhas, a luminosidade das coisas, a cor das flores, descolorindo as paisagens do mundo. A rotina do ordinário cega e envelhece, entedia e entorpece.

O torpor da ordem instituída do ordinário infertiliza a terra de nosso ser, empacando sua fecundidade, impedindo-o de brotar, de alvorecer em auroras, mantendo-nos assim, obscurecidos na escuridão de suas catacumbas.

O próprio cosmos, com sua existência primordial originária, constitui-se de seres e de fenômenos que expressam as características do extraordinário. A natureza, em sua multiplicidade de formas, apresenta-se sempre movida pela qualidade da novidade, pela diferença, na flutuação de seus movimentos, de suas permanências e mutações. As árvores freqüentemente expõem flores, folhas e desenhos novos. O sol, a cada crepúsculo, manifesta sua beleza com matizes e traços diversos, extraordinários. São contornos, cores, formas e ritmos que estão constantemente se modificando, apresentando para nós aspectos extraordinários, admiráveis. O vento é sempre inusitado, surpreendente.

O extraordinário inquieta e vitaliza, com sua pulsão movente, fazendo rebentar o inesperado, o surpreendente, o novo que nos espanta com sua originalidade e fulgor. O espanto nos abre para o diferente, para outras possibilidades de sentir e de pensar, de fazer e de acontecer. O extraordinário desponta com a morte do velho já exaurido do ordinário, desembocando no nascimento, no renascimento da vida, fazendo-nos sentir o sabor do novo que emana vivificante, rasgando as cascas do ovo do velho. O viço do extraordinário proporciona mais encanto à vida, que, assim, se transmuta e se renova em sua dinâmica bailante.

O ordinário retém e cristaliza o fluxo sinuoso do movimento permanente que embala a vida tentando reduzi-la às prisões de sua imobilidade fossilizante; encurrala os seres humanos nas cercas da mediocridade através de normas, leis, padrões e comportamentos empedernidos que não se renovam e comprimem a ondulação das coisas.

O extraordinário se manifesta onde é cultivada a coragem e a ousadia do arriscar, do inventar, do transmutar.

O medo é uma expressão característica do ordinário. Ele reduz o ser humano às cavernas escuras e pavorosas que os impedem de enxergar e sentir a radiância, a dança e a beleza das coisas. O medo fecha, escraviza e encolhe. A coragem que move o extraordinário, abre, desafoga e liberta.

A postura ordinária limita a consciência humana a fronteiras estreitas. A postura extraordinária expande a consciência, dentro de seus limites, impulsionando-a a ultrapassar-se a cada aventura. O ordinário é sedentário. O extraordinário é nômade. O ordinário trilha os caminhos já conhecidos e retilíneos. O extraordinário persegue as trilhas do desconhecido, do tortuoso, nas veredas transversais dos labirintos do mundo. Perde-se para encontrar-se melhor no aprendizado de cada compasso vivido entre os sabores e os dissabores das travessias.

O ordinário repete circularmente a cantilena enfadonha do mesmo. O extraordinário inventa outras canções, versejando, na espiral do tempo, outros saberes e sentires. Os aromas do extraordinário nutrem a atmosfera do mundo, o corpo e a alma da vida, exalando contenteza e encantamento.

O ordinário desbota e murcha a sensibilidade humana. O extraordinário floresce e lapida a nossa sensibilidade para percebermos as sutilezas das coisas, em suas nuances e sentidos mais profundos. O extraordinário vai educando nossa sensibilidade para tecermos nossa relação poética com o mundo, com o cosmos. O ordinário se instala nas cascas. O extraordinário se aloja no âmago.

Tornar nossas vidas extraordinárias significa nascermos/renascermos a cada momento para a “eterna novidade do mundo”, sentindo/celebrando a vibração, a dança originária de cada parto, no mistério arrepiante de seus choros e risos, sorvendo os sentidos novos que cada broto de descoberta nos traz, na expansão das margens dos leitos de nossos rios.

Tornar nossas vidas extraordinárias é festejar a cada momento o sabor de cada aprendizado bordado na teia de nosso ser, a magia de cada vivência que nos transmuta na cadência da sinfonia cósmica e na vibração da fusão de nossas energias com as energias de todos os seres que constituem o universo pluriverso. É sentir a sintonia da coexistência de nossa alma e nosso corpo com a dança do todo interdependente.

O extraordinário é como a água que rebenta selvagemente doce das cachoeiras que se espraiam radiantes de beleza e de ternura, de pesura e de leveza. O extraordinário nos arrepia com sua força criadora, sua magia renovadora e sua originalidade visceral. Nos impulsiona e nos mobiliza, nos desconcerta e nos desconstrói. Nos instiga aos desafios pelos fios bambos do jogo do mundo.

“Carece de ter coragem” para navegar remando nos rios curvos e borbulhantes da vida, nas canoas do extraordinário, migrando das águas paradas da rotina do poço ordinário do mesmo.

As buscas e aventuras do extraordinário escavam os tesouros da alma fazendo reluzir as preciosidades que embelezam nosso ser. O extraordinário nos leva a descobrir a insustentável beleza do ser que eclode de nossas garimpadas nas montanhas de nosso cotidiano.

O extraordinário nos nutre e nos rega de boniteza e de vitalidade nos canteiros da vida, nos florescendo com as matizes do novo, cheio de sentido e vigor, e nas metamorfoses renovadoras de nosso ser, pelos vãos e desvãos de nossos destinos.

O ordinário nos esconde nos porões do mundo, nos desabita e despeja da morada do belo e do vivificante. O extraordinário nos põe nos palcos do mundo, nos torna habitantes da casa da beleza, da vitalidade do ser, e assim, acendemos as lareiras de nossa existência.

Os ventos do extraordinário arejam e tornam mais aprazíveis nossas moradas, sacodem e dissipam a poeira e o bolor que nos esmaece e nos mofa, embalando-nos no bailado de suas danças que nos tornam graciosos e radiantes.
 
 

 


 

 
     

 

Miguel Almir Lima de Araújo
É professor da UEFS e da UNEB. Tem diversos artigos publicados nas áreas de Filosofia, Arte, Cultura, Educação, Espiritualidade, desenvolvendo nas mesmas atividades teórico-vivenciais numa perspectiva transdisciplinar. Tem também alguns livros publicados. O último livro de poesia é Desvãos (2000).