Houve um tempo em que precisávamos de heróis – vivíamos de sonhos. Grandes lendas e estórias foram criadas para ajudar o homem superar suas dificuldades. Líderes, libertadores de um mundo mágico, onde sempre existiu um final feliz. E assim, massas inteiras foram alienadas, conduzidas a esquecerem suas mazelas, cultuando a esperança de que, a qualquer momento, o cavalo branco surgisse trazendo um salvador que melhorasse suas vidas. O tempo passara e o cavalo não apareceu, despertando na população a necessidade de lutar pela sobrevivência, sem o herói, sem esperanças... de qualquer jeito.

De vez em quando ressurge o homem e com ele a esperança. Deposita-se toda a confiança, mas um impeachment leva tudo para o ralo. Fica a sensação de que sonhar com a honestidade é burrice. O heróis das pistas morre; o do futebol deixou filhos nus pelo mundo, tudo contribui para nosso desalento.

Como iremos viver? Tudo acabado, melhor nos entregar para os americanos!

O tempo passa e sem que saibamos, homens e mulheres, anônimos, montados em corcéis de pau, trabalham intensamente, a longo prazo, sem holofotes e horário nobre, para construir uma história de pequenos heróis, combatendo o mal com tamanha bravura que reencontramos o elo perdido. Pedro, Maria, José, Ana... nomes que não dariam uma capa, inda mais seguidos de Silva, Soares, Souza, Santos... nada mais comum. Esses anões andam derrubando a velhacaria centenária brasileira, com seus arquitetos de primeiro nível. Todos os dias a impressa divulga que mais um foi denunciado, indiciado, julgado, condenado ou preso. Mais um trabalho dos pequenos heróis.

O último herói brasileiro hoje é Presidente, levando consigo seus cavalariços, dispostos a mudar. Seus primeiros atos têm sido nobres, dignos do tempo em que esbraveja diante de milhares de metalúrgicos. Aprendeu com as dores e os tombos a malandragem da vida moderna, onde capa e espada acaba em the end.

Mas tenho a sensação de que esperamos pelo herói de ontem, bonitinho, galante, defensor dos fracos e oprimidos, que deixou na História um monte de fantasias e miséria. Monumentos, museus, viadutos e avenidas nos remontam ao tempo destes. Os pequenos heróis do cotidiano – garis, professores, pedreiros, policiais, médicos... – não são levados em conta. Mesmo assim estes derrubam aos poucos o conceito de que a honestidade acabara.

2003, um número feio, começou bem. Muitas coisas importantes acontecendo, realizadas por heróis fora das fábulas. Lula se transformou, matou o ídolo, para ser só Presidente; honesto, sério e realista, montando em seu projeto popular revoluções normais, necessárias, nada que engrandeça a História, mas que colocará comida na mesa e crianças na escola. O resto que fique para a ficção.

 
 


 

 

     


 

 

Clodoaldo Turcato
Nasci na cidade de Caibi, Estado de Santa Catarina. Desde jovem decidi viajar o Brasil. Com doze anos já estava no interior de Mato Grosso, quando o Estado ainda estava sendo colonizado. Daí mudei-me para Goiânia, Brasília, São Paulo e Recife; onde estou desde 1999.
Com oito anos de idade escrevi meu primeiro romance chamado Simples Ideais na Cana, ambientado em uma usina de açúcar. O detalhe é que eu nunca tinha visto o Nordeste, onde a narrativa transcorreu. Meus conhecimentos da região foram imaginados segundo o livro Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e leituras de João Guimarães Rosa. Naquele tempo não tínhamos as facilidades de comunicação que temos hoje. O filme Sargento Getulio me deu uma noção visual do que seria o Nordeste. Assim, com esses dados, escrevi. Hoje conhecendo pessoalmente o ambiente transcrito em meu livro, me surpreendo com a fidelidade deste.
A partir de então escrevi sempre, sobre todas as coisas. No ano de 2000 peguei gosto pela poesia e o teatro; conclui meu livro Poesias para quem não sabe ler, o qual publiquei eletronicamente pela I Editora. Tenho escritas as peças de teatro A conta e O homem que sabia mentir, que estou preparando para a publicação.
Profissionalmente trabalhei como cronista no Jornal do Commércio, Diário de Cuiabá e Folha do Estado, onde pude aprimorar minha forma de escrever e busquei encontrar um estilo próprio, fugindo das influências sofridas até então nas minhas constantes leituras. Outro fator que me levou para jornais foi o sonho de ser jornalista. Desde adolescente que desejo estar em uma redação. O jornalismo me fascina, bem como o cinema.
Estou com projetos para publicação do livro Poesias para quem não sabe ler e dois livros de contos.