| poema gravado | |||||
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gravei
palavras em cada centímetro da
tua pele, para
que não fossem esquecidas. fiz
de ti o meu livro. não
houve gesto que
não se transformasse em sílaba. não
houve suspiro que
não pontuasse a frase. gravei
em letras a descrição detalhada
de cada ato, para
que ardessem em tua memória. gravei
cada centímetro meu em
ti. em
ti desnudei-me de
toda a escrita e
fui apenas a carícia lenta
nos teus cabelos, o
corpo entregue para
o amor. o
riso , a música, a
confiança. gravei
em ti a minha história nua
de estratégias. o
único modo que conheço de
amar. |
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| poema sem título | |||||
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é
de alguma sabedoria e coragem que depende entregar
o coração aberto ao afeto. da
determinação de ser feliz e
não apenas respirar a calma pacífica dos dias. são
dias sempre os mesmos. e
permanecerão assim depois que não mais estivermos. o
que os diferencia para nós? o
que torna importante o perfume no ar, afora
o prazer inspirado ? o
poema que o pretende eternizar e
desliza cada pétala à procura? eis
aqui um coração aberto. quero-o
assim até o fim dos dias. sou
ambiciosa. não
me bastam o perfume e a flor. quero
o poema, as mãos espalmadas, o
corpo que vibra, o
beijo. a
emoção que transgride essa
lei irônica que
nos reduz a sobreviventes. quero
o bailado flamenco, as
notas mais pungentes do cello, todas
as rosas vermelhas, o
desmaiar da entrega e as tuas mãos no meu corpo. |
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| Por que dormes? | |||||
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Deitas
a tua cabeça no meu colo e
é exangue o teu rosto. Meu
filho, filho meu, em
que guerra, estupidez
dos homens, morres? Homens
nada entendem de
uma criança a mover-se no
ventre feliz de uma mulher. Ou
da boca faminta no seio túrgido, a
alimentar-se livremente. E
depois, tão
pouco tempo depois, a
face lívida da minha dor. A
ferida aberta da
carne assassinada. Do
sangue do
meu menino cujo sorriso é
esgar, silêncio e
imobilidade. São
minhas as lágrimas derramadas. Não
há consolo. Apenas
essa voz lancinante, a
voz da perda. Por
que dormes, meu filho, e não respondes? |
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| incontestável | |||||
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nas
pontas dos pés eu,
bailarina toco
de leve a corda sobre
o abismo. equilibrista, os
músculos retesos atenta
a cada gesto ínfimo; que
não me atire, não
me mate, não
incida íntimo e
amargo no
meu peito e
abaixo dos meus pés. voam
meus olhos a olhar as asas, voam
este vôo sem retorno, nas
asas de todos os desejos. no
tênue tecido destes versos, navegam
oceânicos pensamentos, imagens,
memória e canções. breve,
cuidadosa dos meus passos, no
peito o
sonho irresistível, na
alma o sonho incontestável, toco a sapatilha nesta corda. |
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| quisera | |||||
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ser
pluma, estar
no rio desaguado ao
fio da corrente, sem
angústia, nem
protestos. deixar
deitar a alma e
não ver. não
escrever. ser
apenas o grafite, a
ponta aguda do lápis. -
não haverá porquês na
atlântica distância que
me esperará sempre. – é
por isso que choro? ah
não... choro
porque tanto de mim é água, é
mar, é
líquido, e
no entanto, inquietude. |
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se eu soubesse |
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soubesse
eu dos dias verdes em
que a música é tão distante e
o mar rebelado; soubesse
eu do que me esperava, enquanto
escrevia palavras, com
a boca a servir de paleta e pincel em
desenhos perdidos em
ti; soubesse
eu do vendaval que havia de vir, depois
daquelas horas nas quais corremos soltos pela
relva na
felicidade sem palavras com palavras de
um amor desmedido; soubesse
eu de todas as coisas que
ainda hoje desconheço, e
não fosse um rio a desaguar no oceano e
não tivesse olhos glaucos e crédulos num
corpo que navegava livremente; soubesse
eu que certas coisas tu não sabias e
do vasto porto mar a avistar-se de santa luzia; teria
dado os exatos mesmos passos, entregues
ao vermelho da paixão. |
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Silvia
Chueire |
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