Teço a teia dos dias
cumprindo o mágico rito,
tecedeira sem ter escolhido,
sempre calando
este grito.

Uno fios, tramas, te decifro,
conto noites, dias
e meço uma outra
linha, trilha
que te ensinei
no labirinto da ilha,
e não era esta
de Ítaca.

Teço a teia, a rota,
e em cada porto
te faço, te laço,
te prendo e do silêncio 
aprendo a falta
de tua estada 
em mim.

Teço a teia, reteço, 
refaço os nós
cortados em desatino.
Vou cerzindo sonhos
rasgados a cada manhã,
e me aqueço 
e quase te esqueço.

Teço a teia, tramo,
despedaço ícones,
e em segredo me deixo
no rumo de outra ilha, 
outro sonho,
que é ainda
meu sonho,
teu sonho.

E de mim me tens
não mais Penélope
nem Ariadne,
mas, te enovelando
na sapiência das teias,
e no aprendizado dos fios,
o teu desejo de Circe.
 

 
       

  

     
   

Times
[Para a Vi, porque tenho muita saudade.]

     
   



livros na barnes & noble
depois um café
expresso e caro
naquela mesa de canto
e rir da gente apressada
atrás dos yellow cabs.

a vida os sonhos 
os amores que foram
os que em seguida vieram
e begles com cheese 
ou um jantar francês no soho.

e então andar à toa
semear de espantos 
o velho central park
árvores, filhos, mistérios
aprender de novo o enredo.
e mesmo assim perder o rumo
no susto de uma vertigem.

você e eu, 
o times square
as luzes da broadway
e esta nossa mania 
de asas.
 

 
       

 
 
 

     

 

Liz Mercadante
É poeta de vez em quando, contista às vezes, editora sempre (inclusive do Caixote), já planejou, por enquanto sem sucesso, ser romancista. Brinca de arte cibernética, tem 9 gatos e é a red cat.