Um momento

   

   


 
Era ele um ser rastejante

Com um sentimento tão pungente

Invadindo seu corpo e sua mente

Naquele momento, num instante.

 

Mesmo que nele houvesse pane,

O mínimo indício de fome

Vem um arcanjo que a alma lhe come

Mesmo que alguém ainda lhe ame.

 

Não sabes a quantidade que gemes

E o medo que tu sabes que temes

Nem há libido que te reclame.

 

Com a psíquica coisa que sentes

Mexe todo o fundo da mente

Revertendo o fluxo do sangue.
 
 

 
       

  
 
 

   
   

A diálise das coisas

   

   


 
Retire-me todo este urbanismo
Qu'eu vá ao chão e seja purista
Sem esta tal norma fascista
E sem os conceitos: Futurismo.

Purifique-me
Na diálise das coisas.
Enterre-me
Embaixo das rosas.

Asfalto, asfalto.
Quem me dera em teu assalto
Ter levado uma morte digna.

Asfalto, asfalto.
Nunca vira em teu retrato
Alguma coisa em ti divina.
 
 

 
       

    
 
 

   
   

Esperança

   

   


 
Espero que o sol desça do céu
Até onde possa queimar-me
Até onde possa me pôr
Em um profundo estado de alarme.

Também vejo as pessoas
Como se aos poucos me matasse
Como se todos me fossem escárnio
Que da vida eu esquivasse.

Calo no silêncio dos homens
Que há tanto se cansaram
Que aos poucos distanciaram-se
Pois em vida se mataram.
 
 

 
       

 
 
  

   
   

Onde eu moro

   

   


 
Onde eu moro fica lá depois do pântano,
Depois de Cristo, da estrada, do fim.
Periodicamente quem me visita
Antes de chegar à porta afunda na lama.
Periodicamente os corpos
Entopem a foz do rio.
Rio este em que banho meus cavalos,
Só os ossos, bem polidos.
Escutam-se os corvos, os dragões
E as garotas sempre estupradas no escuro.
Vêem-se as árvores, a lama, os corpos
E as sombras.
Vê-me também tecendo alguma coisa
Talvez uma corda.
 
 

 
       

 
 
 

   
   

(Sem título)

   

   


 
As crianças recitam
Teorias filosóficas.
Um bom mundo eu cito
A que não pertencem os hipócritas.
A mentira irritante
Não nos pertence mais agora,
A paz tão gritante
Em toda parte, a toda hora.
 
 

 
       

 
 

João Marcelo Pontes Ferraz
Pôs algumas de suas poesias no período dos 14 aos atuais 17 anos (não em ordem cronológica). Defende que a poesia precisa ser recitada, precisa ser ouvida. Crê no desdobramento da gramática, na re-utilização ou re-esquartejamento da forma, querendo dar nova força à poesia, mostrando que há além do pós-moderno. Talvez ele ainda não tenha atingido a sua meta, mas esforça-se a cada verso para transcender os conceitos.