Menina, moça, mulher
moleca, sonhadora, irreverente.
Pergunto: o que mais ela quer?
Sorri: viver o que o coração pressente.

Olhar sincero, risonho, safado,
escancarado, sutil, aberto.
Fecha-se, percebo, ao pensar no passado,
o que temerá do futuro incerto?

Mulher, fêmea, amante.
Cedo a palavra à anciã,
para que à jovem acalante
e ensine a dominar seu afã.

– Menina, se extemporânea,
degusta o que te é ofertado,
Seja amiga, contemporânea,
deixa os sonhos no passado.

– Não vê, senhora, o quanto amor retenho?
Explode em mim paixão atemporal.
Se nele penso, nem ao tempo me detenho,
mesclo sonhos, passado e vendaval.

– Se me fosse dado uma palavra escolher,
que resumisse minha essência
seria ela o amor, recusando-se a fenecer.
Tanto mais cresce quanto maior a vivência.

– E a dor maior é saber-me extemporânea,
incomoda-me o relógio, que o tempo não detém,
impedindo-me da felicidade a façanha
quero ser abrigo e teto, alicerce de alguém.

– Menina, se ama e desespera assim,
nada aprendeu com o (a) mar.
As ondas, de cada recuo, enfim,
fazem novo ponto para avançar.

– Cansei da busca não embrenhada, senhora.
Mas eis que reconheci a quem sequer sonhei.
Triste, porém, saber-me fora de hora
quando na ilusão do sonho eu me escorei.

– Menina, atenha-se ao que é de fato.
Seja amor, sorriso, sonho e doação.
O tempo deu-me conselhos que acato;
um deles: quando amo, não ouço a razão!
 

 

 

 
         

  

     
   

 
           
         
     

Fui terreno árido, alheia;
foste estaca nele fincada.
Eu te quis mastro que alardeia,
e para ti, a terra era nada...

Fui água morna, revolta, profunda;
foste corpo nela mergulhado.
Eu te quis bóia que jamais afunda,
e para ti a água, só um nado...

Fui tufão, brisa e ventania ,
e tu, cata-vento incansável, girava.
Eu te quis tempo de calmaria,
e para ti o ar,corrente que libertava...

Fui cúmplice, fêmea, alada;
foste asa que a conduzia.
Fui, sim, sua mulher amada,
apenas eu não o percebia!

Alardeia, qual mastro que ostenta,
do terreno a conquista e propriedade.
Flutua, qual bóia meu corpo sustenta,
impede o naufrágio dessa verdade; 
areja a chama dessa paixão atenta,
liberta-me, prenda-me pela eternidade.

 

 

 
         

 

     
   

 
           
         
     

Assim o chamavam, e ele se ria,
pois o apelido não o incomodava .
Noite após noite, na bicicleta ia,
pela cidade pedalando, latas juntava.

Todos sabiam, a ninguém abordava, 
sentia-se incapaz de incomodar
a fartura, alegria que transbordava
nas mesas de gente a reclamar .

Escolhi para ele o nome de Júlio,
do real confesso não mais me recordar.
Bastante apropriado, pelo nobre orgulho,
com que à distância parecia só aguardar.

Julio, será esse seu nome,
com quem tanto aprendi.
A cada lata, menos fome,
um homem cuja alma sorri.

De um carro passante,
jogada em plena avenida,
outra latinha, e lá foi o vagante,
buscando-a alheio à própria vida.

Pedreiro, sofreu acidente,
desempregado, virou coletor 
garantindo o pão à sua gente,
terra transformava em flor.

– Sabe, moça, disse-me ele brincando,
antes ser chamado de homem da lata.
Ao menos não perdi meu coração virando
como tanta gente, homens todos de lata.

E ao vê-lo sair pedalando, em direção às matas,
tudo o que me vinha era um só pensamento:
antes um coração carregando milhares de latas,
a um coração de lata arrastando sofrimento!

Vai, Julio, vai as latas todas ajuntar,
o almoço de amanhã garanta à família;
a dignidade com que se abaixa ao catar,
um gigante conquistando da paz uma ilha!

 

 

 
         

  

     
   

 
           
         
     

     Minha face, meus olhos,
    Meu queixo, seu sax
     Seu sopro, meu respirar
      A cabeleira, seu corpo
       Minha boca, sua mão,
        A memória? Sou paixão...

        PS.: E ainda, em tempo,
          ao som flutua,
            êxtase da entrega,
              a fêmea, toda nua 
                Não a toque, busca a Lua
                  Traga-a em órbita, ao som do sax

 

 

 
         

   

           
     

De Passagem

 

Efêmera,
eterna,
calada,
eloqüente.

 

CONTRADITÓRIA.

 

Fluida,
obstruída,
prática,
druída.

 

SONHADORA.

 

Presente,
distante.
Ausente,
constante.

 

INQUISITIVA.

 

Que faz da vida assim?
Serei eu a conduzi-la,
ou dela sou busca sem fim?
De que me compõe essa argila?

 

PASSAGEIRA, USUFRUO,
A DÁDIVA A MIM OFERTADA;
PRIVILEGIADA, FLUO...
VIDA DE NÓS ATADA!
 

 

 

 
         

  

 

   

Ester K.
Formada em Administração de Empresas. Vive na Lua, embora insista em pousar em São Paulo. Sua maior paixão? A vida. Como se define? Reservada, tímida e, contraditoriamente, falante.