Argemiro decide entrar em casa.

Levanta bem devagar, com imenso esforço, da cadeira de braços e plástico branco (que está em todos os bares da ilha), dá uma lentíssima meia-volta sobre o próprio corpo ancho, vacila, tenta dar os primeiros passos em direção ao pequeno portão.

Há difíceis obstáculos a vencer: cerca de um metro e meio de hall, dois degraus que dão acesso à pequena sala, dois a três metros, se seu destino for a mesa de refeições; alguns passos a mais, laterais à direita, se for o quarto, o mais provável à essa hora (perto de dez) da noite. Seu pequeníssimo bisneto lhe dá a sua mão de seis anos.

Insistimos, alguns dos que estamos no banco da rua das Flores, para que Curió, seu filho, vá até lá e o ampare. Há controvérsias sobre a necessidade, ou sobre a conveniência da ajuda.

Sinto uma espécie de frio, que desce-sobe espinha afora. Presumo que ele poderá cair, está muito fraco.

Por fim, Naglória e Curió vão ajudá-lo, o que não é tão fácil. São ritmos diferentes, passos entrecortados, corpos trôpegos em ziguezague, talvez o velho Argemiro desse mesmo conta sozinho de sua imensa tarefa.

O espírito de Fellini paira sobre nós, pelo canto do olho o de Jacques Tati observa.
 
 

 
   
   
   

 


Numa pausa do Terno de Reis, Madalena apropria-se, curiosa, da lanterna.

Comenta: “Pensava que era roliça... mas é sextavada...” Interessa-se, então, pelo microfone do videomaker, aproxima-o da boca, sugere movimentos, entre risos – dela e das demais –, senhoras de sessenta a setenta anos...

Alzira aproveita o momento prá reclamar que eu a fotografara com o pau do homem (a lanterna) na mão...

Conversa adiante, Madalena diz que tem oito anos que sua “aranha está quietinha”.

E conta: quando o ministro da Saúde, ano passado, promoveu gratuitamente o exame papa nicolau, ela não quis fazer: “Se ela tá quietinha, é melhor não mexer... Depois mexe... ela desperta...”

Diz que nem viagra resolve mais o problema, já está com a megasena acumulada, mexer é como se tivesse ganho na loteria...
 
 

 
   
   
   

 


Eládio tem oito camisas do Palmeiras, numeradas de um a oito. Ele as veste nos oito primeiros dias dos meses, em perfeita ordem: dia primeiro, a camisa 1, dia dois a de número 2 e por aí vai... Dia nove em diante usa camisas comuns, não mais camisa “de time”, até o dia primeiro do outro mês, quando recomeça sua torcida, sumamente organizada...

Eládio, por volta de 35 anos, é aposentado por invalidez, como “doente mental”, razão por que toma drogas pesadas, controladas. Elas é que permitem sua torcida metódica, bem humorada, singela e pacífica.

Há algum tempo deu pra manifestar sintomas do mal que o aflige, dia dois vestindo camisa 9, a seis no dia 5, a do goleiro apenas no dia 10...

Uma apuração mais detida revelou que havia pessoas comprando os remédios, a baixo preço, em sua mão.
 
 

 

 

     

 

Zeca