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Depois de ter acordado às quatro da manhã e não ter conseguido dormir mais, resolvi vir mais cedo para o trabalho. Nunca tive problemas com horários; aliás sou do tipo pontual saudável, ou seja, nem muito antes, nem muito depois e se necessário, exatamente na hora combinada. No caminho, olhando o trânsito e o relógio, percebi que chegaria antes mesmo que a porta de entrada estivesse aberta. Ainda estava escuro e fiquei pensando em como deve ser a vida das pessoas que entram muito cedo no trabalho. Felizmente, sempre tive a sorte de morar perto dos lugares onde trabalhei e sempre eram empregos de horário comercial. Fiquei feliz ao imaginar que poderia encontrar uma vaga para estacionar em frente ao prédio e não precisaria andar como nos outros dias. Cheguei quinze minutos antes do horário de abrir e para minha surpresa um grupo de, pelo que pude contar, vinte pessoas aguardava em frente à porta. Enquanto estacionava, não exatamente em frente, porque é proibido, fui identificando entre o grupo quem eram os outros funcionários que já estavam lá. Como fazia frio e o grupo ocupasse todo o espaço coberto, decidi permanecer no carro esperando e me perguntando como eles agüentavam ficar naquele lugar que todo mundo dizia ser usado como banheiro público durante a noite, tanto que sempre chego driblando mangueiras, baldes e piso com sabão. Em vários anos de trabalho, nunca tinha visto como e quem abre o prédio pela manhã. Mesmo quando chego às sete e meia, tudo já é uma grande agitação. Apareceu a moça dos serviços gerais que tinha a chave e o grupo entrou coeso, lembrando aquelas cenas de entrada e saída de fabrica que se vêem em filme branco e preto de programa do horário político. Quando cheguei ao meu setor, uma funcionária já se encontrava em sua mesa folheando uma revista, um segundo assinava o ponto e a terceira, que geralmente faz o café, ainda não tinha chegado. Como sempre fico na escala do café na parte da tarde, achei que seria gentil fazer nessa manhã. Coloquei água para ferver e percebi que faltava a parte do coador que encaixa na garrafa térmica. Procurei, pensando em como é que uma coisa pode sumir em um local tão pequeno como aquela copa. Passei na mesa da funcionária que olhava a revista e perguntei se todo dia era daquele jeito, com as pessoas esperando em meio ao cheiro de urina, e ela respondeu que isso só acontece quando as pessoas que têm a chave se atrasam, nos demais, eles passam depressa para evitar o cheiro. Perguntei ao outro funcionário que não bate cartão, se ele ficava ali também todos os dias naquela situação. Ele confirmou e perguntou se do carro eu escutara o que ele tinha dito sobre aquele absurdo. O dia foi passando, as situações e problemas foram se apresentando, e a imagem da portaria de fábrica ia e voltava no meu pensamento, acrescida agora da imagem do funcionário discursando sobre o absurdo da situação. No final da tarde, concluí que algumas pessoas têm síndrome de peão de fábrica. Quando era criança ouvia que se devia estudar para não ser peão de fábrica. Era o tempo em que trabalhar nas fábricas ainda não tinha o status de ser funcionário das grandes montadoras de carros. Ser peão era só fazer o que era mandado ou que era da função, era não ter conhecimento do porquê e da totalidade do trabalho que realizava; era estar alienado. Concluí que não importa o local, a função, a formação escolar, o cargo, se a empresa é pública ou privada, sempre existem pessoas que não se preocupam em entender o porquê do trabalho que realizam, que têm medo e falam mal das chefias, que fazem fila no relógio de ponto para sair com a mesma ansiedade do encarcerado pela liberdade. Tem gente assim nos escritórios, nos bancos; nas companhias telefônicas tem muita gente assim; nos restaurantes, hospitais e lojas tem gente assim, tem gente assim dando aula e formando as crianças. Pensando bem, tem dias que eu também sou assim... Agora que escureceu e que quase todo mundo já foi embora, eu escrevi um comunicado interno para minha chefia, solicitando a instalação de grandes e potentes luzes na entrada do prédio. Isso intimidará os mijões e quem sabe, mostrará aos funcionários que as coisas podem ser mudadas. |
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