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No sábado encontrei Bela no supermercado. Aos 53, não aparenta a idade que tem. Talvez porque ela conservou muito bem a menina que toda mulher tem dentro de si e que se recusa a morrer. Conversamos um pouco e resolvemos estender o encontro, quando pedimos um café na lanchonete fora do mercado. Falamos sobre filhos crescidos, maridos, carreira e com muitas saudades e boas lembranças, dos tempos de escola. Escola primária, ginásio, Normal, como eram chamados os cursos na ocasião em que estudamos juntas. Fizemos as contas, nos conhecemos há quase cinco décadas. Lembrei das aventuras em que Bela nos envolvia, sua alegria irônica, as músicas da Jovem Guarda que ela trocava as letras e dos acontecimentos mais marcantes. Teve o dia em que o professor de Psicologia, o Chadud, um árabe que humilhava todas as meninas, levou seu troco. Bela bocejou durante a aula, mostrando a apatia que estava sentindo (todas nós) e o professor disse: – Achei que você fosse me engolir. Bela respondeu: – Não tem perigo. Sou adventista. Não como carne de porco. Em 1968, quando fazíamos parte do movimento estudantil, umas três gatas pingadas, a diretora cassou nosso jornal mural. Bela deixou sua mensagem: “Dê um cavalo a quem fala a verdade, pois ele precisa fugir”. A diretora disse que Bela precisaria de um cavalo muito veloz, pois ela iria ser expulsa e bem depressa. Isso não aconteceu. Bela sofreu uma suspensão das aulas por uns dias, umas chamadas em casa e não precisou do cavalo. Certa época, ainda na escola dos padres, quando fizemos a primeira comunhão, Bela foi testada pelo catequista, tendo que recitar o Credo de cor. No momento de dizer “creio na ressurreição da carne”, ela trocou por refeição da carne. O padre não gostou, corrigiu-a e ela disse que carne é para ser servida na refeição. É certo que naquele ano ela não provou a hóstia, tendo que adiar o sacramento para quando concordasse com a reza.
Lembramos essas histórias, rimos e prometemos outras reuniões. A única
novidade foi uma lágrima que Bela mostrou no final do encontro. Eu nunca
imaginei que ela tivesse motivo para chorar. Ela revelou que mesmo tendo
se casado com o namorado da adolescência, tido os filhos que queria, um
bom emprego, nunca foi feliz. Não me lembro também seu nome. Isabel,
Isabela, Belacina, Belina, Beladona... Prefiro que seja só Bela. Foi com
esse nome que a conheci e com esse nome seguimos juntas os caminhos da
juventude.
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Ana Maria Costa Silva |
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