Da mesa do bar, impactada com o que li na comanda de serviço, fui transportada para uma cozinha imensa e branca. Em vômitos de passadas infantis, vi-me como partícipe de uma realidade distante, não sabendo distinguir o que era fato, o que era sobra de confusa lembrança. No entanto, lá estava eu, encolhida num banquinho branco, oprimida pelas figuras gigantescas de pessoas e objetos, com a atenção voltada para a massa arredondada e um ramo farto de salsinha, que se encontravam sobre a mesa. Na chefia culinária, Dona Artena, amiga de minha avó, desde os seus primeiros passos no Brasil, com suas ancas largas, seu avental de algodão grosso. No inesperado transportamento, eis que fui impregnada pela sensação da redescoberta, ansiando por querer saber alguma coisa que me parecia já conhecida. Revi a destreza da velha senhora que, com a ponta da faca afiada, foi livrando a massa cinzenta do excesso de gordura crua. Retirava os retalhos, juntando-os no canto da mesa, formando um montinho de resto. Depois, já em próximo passo ido, num caldeirão de alumínio, onde a água se movimentava em reboliço, deixou escorregar uma pitada de sal de entre seus dedos, pingou gotas de limão, presenteando, ainda, o recipiente com um pedaço de canela em pau, o verde ramo e a massa arredondada, toda limpa. Ali, sob a vigilância atenta de Artena, que não era maior do que minha curiosidade, dançaram, misturando-se pelo levar da água fervente. O aroma percebido me fez voltar à comanda e nova ânsia de passado me agitou... A massa já cozida era cortada em pedaços planejados, os quais foram passados em ovo batido e farinha de trigo, para depois serem colocados na frigideira com óleo em temperatura elevada. Com um garfo de longos dentes, a velha senhora foi mexendo com habilidade os bolinhos em preparação, até que o dourado tomou conta de tudo. Era dourada a vestimenta que se formou em forma de crosta! Um a um, foram colocados em uma travessa de louça. Um a um foram comidos com avidez por mim, a menina encolhida no pequeno banco.

Foi assim, colocados em tigelas dispersas sobre a mesa, que encontrei os bolinhos, quando cheguei no bar, ponto de encontro de amigos. Acomodei-me e gulosamente fui logo pegando um. Ah... que agradável a surpresa pela perfeita escolha! Refinado gosto teve, quem pediu a porção. Um trincar suave de dentes era o suficiente para partir aquele pequeno bolinho. Uma crosta brilhante e seca, que rompida deixava escorregar pela boca pedaços de sabor indefinido, mas de consistência areada, como se fosse um naco de suflê. Um gole, umas palavras, um bolinho, assim foi passando o tempo e, vazio o prato, logo pedi ao garçom: “Por gentileza, uma porção daquele bolinho dourado!” Nem me dei conta de quantos comi. Todavia, parecia existir um liame de atração entre o olhar, o pegar, a boca e o comer, sensação indefinível, como o próprio naco de suflê que ia sendo consumido. Findo o encontro, o velho costume de conferir as comandas e repartir as despesas. Da minha parte já sabia, duas porções de bolinhos dourados. Procurando minha cota naquela confraternização, li o papel, fixei os olhos admirada até sentir a sucção temporal que me levou rápida para a infância. No lapso transcorrido entre a cozinha branca e a mesa do bar, entre o ser menina e ser mulher, ressabiada vi quanto de nojo acumulei na vida, posto que, soubesse eu do que eram os bolinhos, não os teria comido... E, no entanto, havia devorado os mesmos bolinhos dourados de Dona Artena, bolinhos de miolo de boi.

 

fevereiro de 2003.


 

   
         
   

Adriana Gragnani
Paulistana, ativista da cidadania.
Uma assumida mulher da net.