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Positivamente, era um homem que constituía um repositório explosivo de
idéias e energia criadora. Impaciente com os vagarosos, era ousado,
confiante e estava sempre à frente dos outros, e às vezes à frente de
si mesmo. Era
o protótipo da generosidade, dando de boa vontade seu tempo, seu
dinheiro, sua solidariedade e tudo que possuía para os estranhos.Tinha
uma necessidade visceral de ser admirado, querido e invejado. Mas também
sabia ser exasperadamente intolerante, obstinado, exigente e egoísta
quando seus desejos demoravam a ser atendidos. Quando
se tratava de amor, sua atitude descuidada era absolutamente de
espantar. Ele se metia num caso, certo de que era o único amor
verdadeiro jamais conhecido por duas pessoas já nascidas, exceto talvez
o de Romeu e Julieta. Quando o caso se partia ao meio, ele apanhava os
pedaços e fazia todo o possível para juntá-los, a fim de salvar o
romance morto. Se não conseguia consertá-lo, ele recomeçava com uma
nova Julieta, e tudo era como da primeira vez. Por
mais erros românticos que cometesse, Zé de Áries estava certo de que
seu verdadeiro amor ou alma gêmea se encontrava no seu próximo sonho.
Era escrupulosamente fiel. Aquelas outras mulheres foram A.V.A (Antes de
Você Aparecer). Iniciava seus comentários sobre os casos do passado
com: “Isto foi A.N. (Antes de Nós)”. Sua
necessidade de romance era tão forte que se o amor perdesse o seu sabor
novelesco, ele poderia se desencaminhar. O amor, para Zé de Áries, não
envolvia uma mulher que fosse para a cama à noite, com o peito untado
de Vick Vaporub para aliviar a tosse. Este tipo de amor também não
comportava a observação de coisas íntimas como fazer as unhas,
escovar os dentes, pintar os cabelos ou depilar as sobrancelhas. Em
algum lugar da mente dele algo lhe dizia não ser este o modo de
proceder da princesa do livro. Nenhuma mulher conseguia satisfazer a
imagem que ele tinha do ideal. Ninguém jamais soube que por baixo de sua aparência agressiva e de autoconfiança jazia um complexo de inferioridade, que ele preferia morrer a admitir. A única que conseguiu perceber a dimensão desse complexo foi a terapeuta por quem, classicamente, se apaixonou. Foi conquistado por ela que, habilmente, fingiu ser menos esperta que ele, mas que brilhava quase tanto quanto ele. Esperta o bastante para andar três passos atrás, como manda o protocolo. Uma felizarda... Será a única Julieta de cabelos brancos, que terá um marido sentimental no dia das bodas de ouro.
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Os lugares mais propícios para encontrá-lo eram uma fazenda, um banco ou um escritório de corretagem de imóveis. Ter coisas concretas, sólidas e duradouras era o seu projeto de vida. Tinha
uma atitude forte e silenciosa. Até conhecê-lo melhor, seus monólogos
mais extensos, com as pessoas, não passavam de um “Sim”, “Não”,
“Obrigado”, “Até Logo”, com um freqüente “Hum...” como
substituto de tudo isso. Era calmo, prático e material como um velho
par de sapatos. Sentia
uma atração muito forte pelo sexo oposto, mas não estava em si
entregar-se a exageros na busca de prazer. Ele preferia atrair as
mulheres. Zé de Touro era caseiro, preferia receber hospitaleiramente
em sua casa a se dar ao trabalho de visitar alguém. Adorava
comer. Desde pimentões fritos, até o bolo de chocolate com creme de
ameixas, picles e feijoada – tudo na mesma refeição – sem
demonstrar qualquer sinal de indigestão. Se se acrescentasse álcool,
lembraria o Rei Henrique VIII se empanturrando num banquete real. Deliciava-se
com comédias grosseiras e palhaçadas. Não conseguia entender uma sátira
sutil, mas dava gargalhada quando alguém escorregava numa casca de
banana ou levava uma torta na cara. O humor de Zé de Touro era rude e
material. A
grandeza o impressionava. Quanto maior a construção, maior a sua
grandiosidade para ele. No jardim zoológico, passava indiferente pelos
macacos para contemplar fascinado os elefantes poderosos. Era de uma
coragem magnífica, mas tinha medo de rato e era capaz de correr, em pânico,
por causa de uma abelha. Paradoxal.
Belos quadros e grandes sinfonias o emocionavam profundamente. Pensava
em viajar ao Egito, por causa das pirâmides e a Las Vegas, por causa
dos imensos cassinos. Aquele
homem sensato, prático, lento e determinado foi capaz de enviar uma
rosa todos os dias para uma vizinha da mesma rua até que ela se
rendesse às suas propostas – de casamento – ou seja lá do que
fosse. Escreveu várias poesias, e enviou-as timidamente pelo correio,
sem assinar, certo de que ela saberia quem era o remetente. A musa de
suas inspirações só descobriu quem era o autor das rosas e das
poesias por causa da cumplicidade alcoviteira do carteiro. Zé
de Touro planejou o futuro cuidadosamente. Vendeu a casa de solteiro e
comprou outra grande, de dois andares, com bastante espaço em volta
para futuras construções, móveis atraentes porém sólidos e práticos
e programou o mês em que nasceria o primeiro filho e abasteceu a
despensa com uma quantidade inimaginável de comida. No
dia do casamento, esperou em vão. Ela não apareceu, não devolveu os
presentes e fugiu com o homem que instalou os armários da nova casa. Tristemente,
Zé de Touro pediu desculpas aos convidados e foi para a casa. Preparou
uma refeição farta e saborosa, vestiu uma bermuda velha e sentou-se em
frente à televisão para assistir o filme “pay-per-view” que era a
atração daquela noite. “Noiva em Fuga”. |
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